Quando a corrente baixa, ficam os objetos deslocados, as fotografias a secar nos varais, o cheiro difícil de explicar. Fica sobretudo o susto de perceber como somos frágeis. No entanto, basta caminhar um pouco pelos bairros atingidos para encontrar motivos teimosos de esperança: vizinhos que se apresentam pelo primeiro nome, braços desconhecidos a carregar móveis, panelas que mudam de cozinha para que ninguém fique sem sopa.
Ultrapassar dificuldades nunca foi tarefa solitária. Os mais velhos sabem disso melhor do que ninguém. Contam que outras águas já passaram, outras crises já bateram à porta, e que a vida sempre encontrou um modo de continuar, às vezes com passos curtos, outras com passos de gigante. A história deste país é feita dessa arte de resistir ao vento atlântico e às cheias do destino.
Há quem pergunte de onde vem a coragem. Talvez nasça de coisas simples: da criança que insiste em brincar mesmo com as botas enlameadas, do padeiro que volta a acender o forno antes do amanhecer, da professora que improvisa aulas enquanto a escola se recompõe. Cada gesto desses é uma pequena barragem contra o desânimo.
Também ajuda lembrar que nenhuma água leva tudo. Leva paredes, mas não os afetos; leva estradas, mas não a vontade de caminhar; leva objetos, mas não a capacidade de reconstruir. O essencial permanece como semente debaixo da terra molhada, à espera de sol e de mãos.
É verdade que haverá dias de cansaço e de revolta. Ninguém atravessa enchentes apenas com frases bonitas. É preciso políticas justas, obras sérias, prevenção que não fique no papel. Mas, enquanto as soluções grandes não chegam, a vida vai sendo refeita com ferramentas miúdas: um balde emprestado, um café partilhado, a palavra certa na hora incerta.
Talvez o maior motivo para ultrapassar estas dificuldades seja perceber que continuamos juntos. A água separa por instantes; a solidariedade volta a unir. E quando a cidade reergue a primeira parede, quando o comércio reabre a porta, quando a praça volta a receber conversa, entende-se que a reconstrução não é apenas de casas, mas de confiança no futuro.
As enchentes passarão, como passam todas as tormentas. O que ficará será a lembrança de termos aprendido, mais uma vez, que a esperança gosta de lugares húmidos — e floresce melhor quando muita gente decide regá-la ao mesmo tempo.
Que cada cidadão português encontre, no meio destes dias ainda húmidos, a força antiga que ergueu mosteiros, pontes e caravelas. As enchentes levaram muito, é verdade, mas não podem levar aquilo que mais sustenta um povo: a fé em si mesmo, na família, nos vizinhos e num futuro que se reconstrói com trabalho e esperança. Que o desalento não tenha a última palavra e que, ao secarem as últimas poças, permaneça a certeza de que nenhum desafio é maior do que a alma portuguesa. E permitam-me concluir como quem fala de longe, mas com o coração ancorado aí: eu, cidadão português que vive no Brasil, estou solidário com a nação portuguesa nestes momentos difíceis, certo de que Portugal, como tantas vezes na sua história, voltará a erguer-se com dignidade, coragem e luz.
Vitor M S Marques
Um cidadão português que vive no Brasil









