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Deixaram de haver reuniões dos Alcoólicos Anónimos há dois anos nas Caldas

Mariana Martinho

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Consideradas como “fundamentais” para recuperação de qualquer indivíduo, as reuniões de Alcoólicos Anónimos (AA) ocorrem semanalmente de norte a sul do país. Mas no caso das Caldas da Rainha, que decorriam todas as quartas-feiras há cerca de dez anos, nas instalações da União de Freguesias de Caldas da Rainha – Nossa Senhora do Pópulo, Coto e São Gregório, deixaram de existir há cerca de dois anos devido à “falta de membros”.
A dependência alcoólica afeta tanto homens como mulheres

Atualmente os AA têm uma estrutura consolidada em Portugal, com vários grupos ativos de norte a sul e ilhas. Funcionam com anonimato e confidencialidade. São realizadas semanalmente, incluindo reuniões online, que começaram por iniciativa de alguns membros de forma a permitir a pessoas que vivem em locais mais distantes dos centros urbanos ou têm dificuldade de mobilidade. No caso das Caldas da Rainha, os encontros que já ocorriam há quase 10 anos, mas deixaram de haver, passando assim a realizar-se no Cadaval e em São Martinho do Porto, informou o responsável pelo grupo, Peter, durante o segundo encontro promovido pelo Gabinete de Psicologia da União das Freguesias de Caldas da Rainha – Nossa Senhora do Pópulo, Coto e São Gregório em parceria com os AA.

Os encontros dos AA são “fundamentais para que qualquer alcoólico deixe de beber e aprenda a viver uma vida normal, útil e feliz, sem álcool”. Na opinião da especialista na área das dependências e psicóloga, Sónia Oliveira, que foi convidada para participar na reunião, este grupo de autoajuda, que reúne-se semanalmente, “consegue implementar nos doentes a capacidade de voltar a acreditar e a ter esperança”.

Esta doença, que afeta tanto homens como mulheres, tem na sua origem vários fatores biopsicossociais, que em determinado momento de vida juntaram-se e contribuíram para que esta doença pudesse desenvolver-se.

Dentro desses sintomas identificou o desenvolvimento da tolerância perante o álcool, ou seja, “com o tempo os doentes vão precisando de uma quantidade cada vez maior de bebida para atingir os mesmos efeitos”. E o facto de haver essa “tolerância elevada é sinal de problema”.

Outro sinal biológico e “determinante é a perda de controlo”, o que acontece muitas vezes quando a pessoa começa a beber e sistematicamente perde o controlo sobre aquilo que bebe e do seu comportamento. “Isso é muito representativo de uma situação de dependência”, explicou Sónia Oliveira.

No que diz respeito à parte da psicologia, o álcool muitas vezes também provoca uma distorção da realidade. “Sempre que a pessoa bebe tem consequências, que se vão acumulando e tornando cada vez mais graves”, explicou a psicóloga, adiantando que “mesmo assim, o alcoólico não consegue reduzir nem parar”. Face a essa contradição que existe dentro da sua cabeça, “o alcoólico vai invertendo a ordem dos fatores”, considerando assim que “bebe porque tem muitos problemas, e não porque tem um problema”. E “ele acredita nisso”.

De acordo com a responsável, “tudo isso faz com que a pessoa tenha uma distorção da realidade e do próprio pensamento, o que a ajuda a negar a sua própria doença”. Perante esta situação, Sónia Oliveira referiu que “o alcoolismo é uma doença em que a recuperação depende de uma mudança completa, não só do modo de estar mas também do estilo de vida”.

E é nesse contexto, que os “AA são fundamentais para ajudar nesse processo de recuperação”, independentemente das ajudas especializadas.

Este encontro contou com a presença de membros de AA em recuperação, que partilharam com o público o seu problema com o álcool. Todos têm uma história diferente mas nos AA voltaram a encontrar a felicidade.

“Demorei oito anos para ligar para os AA”

Em programa de recuperação, Sofia, nome fictício, procurou pela primeira vez a ajuda dos AA há cinco anos, depois de um processo de recaída. Passaram cinco anos e tudo mudou. Deixou o álcool logo depois de ter conhecido o grupo de autoajuda, sem ajuda médica, e hoje permanece como um dos elementos que semanalmente reúnem para trocar experiências e avançar na recuperação. Mas “não foi fácil”.

Sofia recorda que o seu percurso pelo álcool começou com uma simples adolescente que bebia socialmente até uma mulher adulta, que recorria ao álcool como uma muleta para combater a solidão. E dessa forma “sorrateira”, o “álcool foi-se instalando em mim até se tornar uma obsessão”.

Desse modo, “passei de uma simples rapariga que gostava de beber com os amigos para alguém que bebia muito de forma regular, até ao ponto de ser alguém que já não arrisca a comprar álcool para ter em casa, porque bebia tudo até cair”. Além disso “nunca pensei que tinha um problema com o álcool até ao momento em que comecei a ter problemas e aí pensei como é que eu cheguei a este ponto”.

Nessa altura, Sofia contou que tentou parar de beber até que conseguiu estar sóbria durante três anos. Mas o desconforto, a incapacidade de reestruturar a sua vida e toda uma “espiral negativa de coisas”, visto que continuava a dar-se e a conviver todos os dias com “pessoas que gostavam de beber”, fez com que Sofia “em 2013 tivesse uma recaída”.

Além disso admite que “estava emocional e fisicamente derrotada, e não conseguia parar de beber, pois se parasse ficava com outro problema”. Ou seja, “estava numa encruzilhada”. Após várias “tentativas falhadas”, Sofia tomou uma decisão. “No dia 15 de dezembro de 2013 fiz um simples gesto, que acabou por mudou a minha vida. Deixei a vergonha de lado e liguei para os AA a pedir ajuda”.

Sofia lembra-se bem desse dia, em que “imediatamente” foi reencaminhada para uma reunião dos AA. Essa primeira reunião foi “profundamente libertadora”, sublinhou Sofia, adiantando que saiu de lá com o sentimento de esperança, que “a vida podia ser diferente”.

Referiu ainda que “nunca imaginei que nessas reuniões havia pessoas diversas, que de repente eram iguais a mim, o que me fez perceber que havia uma grande diferença entre estar sem beber e estar em recuperação”. Desse modo de reunião em reunião, Sofia foi reconquistando uma coragem e uma esperança que não tinha.

Agora já não é uma luta diária tão intensa e dura como foi, mas continua a ser uma luta, essa de estar atenta todos os dias, para não recair. Além disso “estou a reaprender a viver e a sentir aquilo que não sabia fazer antes sem me socorrer do álcool, que era o remédio para tudo”.

“Os AA ainda hoje vão-me salvando a vida”

No caso do Carlos, o álcool surgiu na sua vida quando descobriu que este vício provocava nele “uma desinibição, que sóbrio não tinha”. Além disso tornou-se numa “solução para todos os problemas” que tinha dentro dele.

Apesar da sua primeira experiência com o álcool ter sido má, Carlos agarrou-se a “esta ferramenta como forma para poder lidar com os outros e com os problemas que tinha”. Durante esse tempo, Carlos admite que “vivia em pura negação e não queria parar de beber”, apesar das “numerosas tentativas”. “A verdade é que nunca conseguia deixar, pois era uma necessidade que tinha”, explicou, adiantando que esse processo diário levou com que ele ficasse a nível emocional destroçado e sem autoestima. Além disso vivia numa realidade só dele e tudo era motivo para continuar a beber.

Depois de ser confrontado pela companheira e perceber que “não conseguir viver sem ou com o álcool”, Carlos recorre à ajuda de um centro de recuperação, onde fez um tratamento. Mesmo assim “não bastou”, e decidiu começar a frequentar as reuniões dos AA.

“Nas reuniões percebi que tinha de mudar muito, a começar pela minha obsessão pelo álcool”, recordou, adiantando que “as experiências de cada membro dos AA afinal também têm algo relacionado comigo”. E isso é uma das razões que leva Carlos a frequentar ainda hoje os encontros e já lá vão três anos.

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