E nas Lajes? Acordo ou ocupação?

10 de Janeiro de 2026

A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, e o sequestro de Maduro, depois da invasão da Ucrânia pela Rússia e do genocídio do povo palestiniano em Gaza por Israel, confirma a impossibilidade de fazer valer o Direito Internacional. Ultrapassado o primeiro quartel do século XXI, voltámos à ordem estabelecida no primeiro quartel do século XIX, com o mundo dividido em zonas de influência e sujeito ao expansionismo territorial.

 

Seguir-se-á a Gronelândia, na mira das terras-raras, e quem sabe o Canadá, de olho na ilha Machias Seal e nos santuários de lagosta em redor e, sobretudo, outra vez nas terras-raras, mais o ouro, petróleo, carvão e madeira. O que é meu é meu, o que é teu é nosso e faremos uma data de dinheiro, argumenta todo trejeitos o xerife. Eventualmente, também a Ilha Terceira ou até mesmo todo o arquipélago dos Açores, caso esbocemos a mais leve intenção de dar uso diferente à base aérea das Lajes e correr com o destacamento norte-americano.

Entre os governantes europeus, perante este assalto à soberania da Venezuela, Emmanuel Macron levou a palma do ridículo, congratulando-se com a “conquista” de Trump. Outra reacção pascácia foi a do chanceler alemão, Friedrich Merz, para quem a “análise jurídica” da invasão “é complexa” e “levará tempo”. Depois da chefe de gabinete da Casa Branca, Katie Miller, ter publicado no X um mapa da Gronelândia com a legenda “Em breve”, o embaixador da Dinamarca em Washington recordou, em tom delicodoce, que os Estados Unidos e o Reino da Dinamarca são aliados e devem continuar a trabalhar juntos, e que a segurança dos Estados Unidos também é a segurança da Gronelândia e da Dinamarca.

Por fim, o embaixador até manifestou esperança no total respeito pela integridade territorial do Reino da Dinamarca… Entre nós, Paulo Rangel, o ministro dos Negócios Estrangeiros, já depois de Trump ameaçar a nova Presidente venezuelana de vir a ter um destino ainda pior do que teve Maduro, também apoiou a invasão, porque houve “intenções benignas” e afirmou-se crente no “papel dos Estados Unidos numa transição estável, pacífica, democrática e inclusiva”.

Trump invadindo a Gronelândia, a Dinamarca pede auxílio a quem? À NATO? Nesse caso, violado o artigo 5º, ainda consideramos que há a NATO? Mesmo nas actuais circunstâncias, ao lermos a estratégia de segurança nacional norte-americana, que prevê “combater a decadência civilizacional” na Europa — leia-se, a democracia liberal e diversidade étnica e cultural —, defendendo o crescimento dos partidos da extrema-direita europeia, continuamos a achar que há a NATO? Quando o xerife vier “combater a decadência civilizacional” na Europa, o que fará a UE? Terá a atitude dos noruegueses, quando Hitler lá chegou, que foi dar as boas-vindas e porem-se à disposição?

E nas Lajes? Ainda temos um acordo de jure ou é uma ocupação de facto? Portugal, além de país europeu, integra um eixo atlântico com Angola e o Brasil e detém uma zona económica exclusiva muito apelativa.

Tal como a Rússia com Putin, também Trump faz dos Estados Unidos uma potência predadora, que irá até onde lhe permitirem.

Ocorre-me o poema A Nêspera, de Mário Henrique Leiria:

“Uma nêspera / estava na cama / deitada / muito calada / a ver /o que acontecia // chegou a Velha / e disse / olha uma nêspera / e zás comeu-a // é o que acontece / às nêsperas / que ficam deitadas / caladas / a esperar / o que acontece”.

 

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