Conversa entre artistas explora Caldas da Rainha como cidade artística

23 de Fevereiro de 2026

O Café Concerto do Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha (CCC) recebeu, na passada quinta-feira, a segunda sessão das Tertúlias da Associação Património Histórico (PH), desta vez com o tema “A Cidade das Artes: A Cidade Vista e Revista Pelos Criadores”.

 

Para abordar um tema tão vincadamente caldense, os intervenientes foram Manuel Bandeira Duarte, Nuno Fragata e Sandra Roda, três personalidades fortemente ligadas à cidade e à sua vida artística. Na moderação da conversa esteve a historiadora Isabel Xavier, que é também presidente da PH.

A iniciar a Tertúlia, cada um dos intervenientes que, segundo Isabel Xavier, têm uma “vasta intervenção nas Caldas”, falou de si, da sua relação com a cidade e da maneira que esta lida com a arte. Para Manuel Bandeira Duarte, artista, creative designer e organizador do evento “Ode à Primavera”, as suas maiores inspirações são o Parque D. Carlos I e a Mata Rainha D. Leonor, mas este vê Caldas da Rainha “como uma cidade com muita matéria-prima”, reconhecendo que existem vários potenciais pontos de inspiração para criadores.

O jovem artista defendeu que “a cidade é boa a abraçar quem procura empreender”, lembrando a sua primeira exposição realizada de forma autónoma em 2019, que lhe levou a receber muitos outros convites para expor na região. “As pessoas, sejam de cafés locais ou entidades privadas, estão tão imbuídas do espírito criativo, que facilmente acolhem os artistas”, reforçou o designer, que acredita haver uma forte integração de criativos na cidade. Admitiu, no entanto, ainda haver espaço para Caldas apostar de forma mais desinibida nas artes.

Nuno Fragata, artista, designer e subdiretor da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha (ESAD.CR), mudou-se de Peniche para as Caldas quando tinha 20 anos. Contou que a ideia de ter de passar uma muralha para entrar e sair de Peniche sempre o fascinou e apontou esse monumento como uma grande inspiração para o seu trabalho artístico. O que mais lhe interessa no seu processo criativo é “pegar em coisas que já existem e dar-lhes uma nova vida”, mas trabalha também em ilustração, banda desenhada e animação, nomeadamente para cegos e surdos.

O subdiretor da ESAD.CR abordou a “experiência urbana contemporânea”, que acredita atualmente ser “dominada por relações predominantemente funcionais, que tendem a reduzir a atenção estética dos indivíduos”. Por essa razão defendeu a intervenção artística no espaço público de maneira a “introduzir dispositivos sensoriais que ampliam a perceção e promovem formas alternativas de relação com a cidade”. É desta maneira que se forma uma construção de identidade coletiva mais forte, de acordo com Nuno Fragata.

A última interveniente a apresentar-se foi Sandra Roda, artista residente do Atelier “Arte e Expressão”, autora, mentora e facilitadora de projetos de sensibilização ambiental. Sendo esta uma artista apaixonada pela natureza, a sua maior inspiração nas Caldas da Rainha é a Mata Rainha D. Leonor.

Esta artista vê Caldas como uma cidade “profundamente feminina”, principalmente pela sua origem surgir graças à Rainha D. Leonor, mas igualmente por elementos como a água, o cuidar, o saber receber e o património natural terem uma intensa conexão com a localidade, aos quais também atribui ligações femininas.

Em relação à evolução das Caldas da Rainha, acredita que é “cada vez mais uma cidade de artistas”, graças à ESAD.CR, mas destacou também espaços como o CENCAL, o CCC, o Centro de Artes e o Posto de Turismo, entre outros.

A nível nacional, Sandra Roda lamentou Caldas da Rainha só ser reconhecida pelo Caldas Late Night, pela Feira dos Frutos e pelo “Caralho das Caldas” que, apesar de serem icónicos da cidade, não são tudo o que tem para oferecer. “Acho que falta um certo elemento de storytelling às Caldas, não nos estamos a vender bem”, disse a artista.

A terceira sessão das Tertúlias PH vai abordar o tema “agentes culturais”, no dia 19 de março, e tem como convidados Mário Branquinho, diretor do CCC, Dóris Santos, diretora do Museu Nacional do Traje, e Fernando Mora Ramos, do Teatro da Rainha.

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