Um cego não deixa de o ser por lhe chamarem “invisual”. Também uma mentira é sempre uma mentira, apesar de lhe chamarem “inverdade”. E uma traição é mesmo uma traição, não há eufemismo que lhe valha. As coisas são como são. A realidade é tautológica, complicar é opção nossa.
Na vergonhosa sessão da Assembleia da República de 10 de Maio, a direita, a mando do primeiro-ministro e dos comentadores, traiu os professores. Todo o país assistiu. Grande parte do país, a parte que é hipócrita e ingrata para quem a ensina a ler, a escrever e a pensar, gostou do que viu, pois premiou o PS do primeiro-ministro nas eleições europeias, logo a seguir.
Em Portugal, só os partidos à esquerda do PS apoiam os professores. Dito de modo menos simplista, só BE, PCP e PEV fazem um jogo político favorável aos professores. Não há eufemismo para esta bizarra situação. Mas sempre podemos dizer “infelizmente é assim”. Infelizmente para o país, para a credibilidade da maioria dos nossos políticos e da nossa democracia.
Antes do espectáculo pusilânime de 10 de Maio na AR, um organismo do Estado, a Unidade Técnica de Apoio Orçamental, vulgo UTAO, que fundamenta as decisões do Ministério das Finanças com relatórios, estudos e estatísticas, informou que a calendarização ao longo de cinco ou sete anos da contagem integral do tempo de serviço dos professores e de todas as carreiras da função pública não poria em causa as contas públicas, pois, dada a avançada média de idades destas classes profissionais, poucos seriam abrangidos pela totalidade da contagem, além de que os efeitos dessa contagem iriam aumentar os 42% do vencimento que nunca chegam a sair dos cofres do Estado. E, acima de tudo, cumprir-se-ia a lei — o tempo de serviço é para ser contado, sem eufemismo.
Mas os partidos à direita do PS preferiram aplacar o desagrado dos comentadores e ceder à ameaça do primeiro-ministro, desprezando os professores. Pelo seu lado, o PS, que desde os governos Sócrates e da inconcebível ministra Lurdes Rodrigues criou um problema com os professores, tendo, nesta legislatura, uma oportunidade de ouro para o resolver, não só optou por não o sanar como ainda o aprofundou. O PS é hoje o partido que mais prejudicou os professores. E assim pretende continuar, pois as suas propostas para a Educação na próxima legislatura são tornar irrelevante o Estatuto da Carreira Docente e acabar com o concurso nacional de colocação de professores. O PS quer que os professores passem a ser escolhidos pelos directores das escolas ou pelos presidentes das câmaras municipais aderentes à municipalização do ensino…
No próximo dia 6 de Outubro, a opção eleitoral dos professores e dos seus familiares directos, igualmente prejudicados e ofendidos, é simples: o voto útil às suas carreiras e ao seu futuro e das suas famílias. As ideologias não são religiões nem os partidos políticos são clubes de futebol. Vota-se no que nos serve. Para os professores, não é tempo de fidelidades ideológicas inúteis.
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