E depois há o homem dos muitos chapéus.
É um verdadeiro fenómeno da natureza local. Um profissional da comunicação como poucos, capaz de estar em todo o lado, ao mesmo tempo, sem nunca parecer cansado. Vê-lo a apresentar espetáculos, a fazer entrevistas, a comprar e vender casas, a angariar apoios solidários, a resolver problemas, a abrir portas, a facilitar contactos. Mais recentemente, só não entrou em casa do Presidente da República porque não calhou, mas saiu ao seu lado como do melhor amigo se tratasse.
Consegue infiltrar-se em todos os círculos, em todos os meios, em todas as salas e infiltrar-se nos mais diversos contextos sem levantar suspeitas. Não há porta que lhe resista, nem poder que o dispense. Nem os que governam, nem os que agora fazem oposição. Precisam dele todos. E ele sabe disso.
É um verdadeiro prodígio da vida local. Um profissional da comunicação como poucos a abrir portas e, quando necessário, a segurá-las para que não se fechem.
Dos muitos chapéus que usa, há um particularmente curioso e merece atenção especial: o de empresário prestador de serviços. Tudo a bom preço, tudo com eficiência, tudo com trabalhadores ao serviço. Até aqui, nada de errado. O problema é quando o chapéu muda ao sabor da ocasião. Ora é assessor informal, ora é facilitador, ora é conselheiro discreto, ora é vendedor de soluções. Um verdadeiro ilusionista da utilidade pública.
Quando é preciso desbloquear um projeto, aparece.
Quando é preciso um “jeitinho”, aparece.
Quando é preciso aconselhar, aconselha.
Quando é preciso vender uma solução, apresenta-a.
Quando é preciso fazer desaparecer um problema, trata-se disso com a subtileza que o caracteriza.
Nada de ilegal.
Nada de ostensivo.
Tudo num território cinzento onde a utilidade se transforma em influência e a influência em oportunidade.
Nesta semana de Carnaval, em que as máscaras são assumidas e ninguém leva a mal, diga-se que é a pessoa ideal em quem confiar. Conseguiu colocar uma empresa a fazer a transmissão das reuniões. Mas como as oportunidades não esticam indefinidamente, já se apressa a encontrar alternativa. Porque usar quando convém e substituir quando deixa de ser útil é uma coreografia que domina com mestria.
É o figurão.
Estranho é que no concelho de onde é originário o conheçam bem. E tenham optado por seguir outro caminho. Já nos concelhos vizinhos continua a brilhar. Tanto que não cobra por qualquer espetáculo. Um gesto de generosidade que muito o honra, embora se comente que, nos bastidores, as relações se constroem com equilíbrios mais complexos. Como quem diz: uma mão lava a outra, e as duas sabem muito bem onde fica a torneira e o sabão.
Outro dos seus chapéus mais intrigantes é o da comunicação social. Circula com credenciais, ocupa espaços, marca presença, constrói narrativas. Tudo com grande profissionalismo, apesar de não possuir carteira profissional. Um detalhe irrelevante, dirão alguns. Um sinal curioso da elasticidade contemporânea do conceito de jornalismo, dirão outros.
Não é corrupção.
Não é ilegalidade.
No fundo, é o verdadeiro camaleão do show business local.
Adapta-se ao ambiente.
Muda de cor conforme a sala.
E raramente deixa rasto.
É apenas o território cinzento onde a influência se transforma em negócio e o negócio em influência. Onde os chapéus se trocam tão depressa que ninguém consegue perceber bem quem está, afinal, a falar.
Assessor? Empresário? Comunicador? Produtor? Mediador? Facilitador? Comunicador?
Talvez tudo.
Talvez nada em exclusivo.
Depende do dia.
Depende da sala.
Do contexto.
Depende de quem está a ouvir.
E, sobretudo, do chapéu escolhido ao sair de casa.
E assim seguimos na vida local. Num Carnaval permanente, onde os verdadeiros mascarados raramente precisam de fantasia, porque o disfarce já faz parte do ofício.
Até para a semana.










