A culpa é da malvada da Kristin e do sádico do Leonardo que veio chover no molhado. Personificar fenómenos da Natureza, dando-lhes nomes de gente, permite atribuir-lhes responsabilidade. Dizer que a culpa agora é da Marta, essa desnaturada, que só cá faltava ela, fazendo o gesto patético de apontar o indicador acusatório para o ar, inibe uma maioria dada à crendice e à fatalidade de perguntar quem responde por todos estes decénios de incessante crime ambiental.
Por exemplo, este ordenamento do território baseado na ganância, que tem licenciado a impermeabilização e construção em leitos de cheia? Ou quem responde pela degradação de diques e sistemas de drenagem? Ou quem achou que não era prioritário enterrar a rede eléctrica e de comunicações, pelo menos em zonas mais atreitas a vendavais? Foi a Ingrid que, depois do nosso longo historial de catástrofes, continuou a preferir reconstruir e repetir em vez de planear para resistir?
Por estes dias, a expressão que mais se ouve é “repor a normalidade”. A normalidade do imobilismo fatal. Às exasperantes desculpas de mau pagador “Agora mete-se o Natal” ou “Agora mete-se a Páscoa” ou “Agora mete-se o Agosto”, junta-se já em grande circulação “Meteu-se a Kristin”, a justificar todo o tipo de inoperâncias e atrasos. Os CTT, por exemplo, até rejubilam com mais este pretexto.
Há muito que se verifica que um quarto do território nacional está sujeito a cheias, incêndios florestais e seca. O que se tem feito para prevenir esses riscos climáticos? Apenas se reage. E reage-se repetindo, reconstruindo no mesmo sítio e o mais parecido possível com o que estava. A versão original da anedota do cúmulo da estupidez. É o que se volta a fazer agora, reconstruir rapidamente e igual, para que se possa esquecer o que aconteceu. Mas a rapidez traz sempre fragilidade. Na próxima, será pior.
O Governo prontificou-se a disponibilizar apoio financeiro às famílias, empresas e trabalhadores afectados, acompanhado da isenção temporária de contribuições para a Segurança Social. Mas este dispêndio avultado do erário público, para acorrer às consequências de erros crassos, é condicionado à melhoria? Está-se a financiar estas pessoas e empresas para mudarem para sítios que não sejam recorrentemente submersos? Ao menos orienta-se a reconstrução para soluções mais resistentes? Não, apenas se ensopa a inundação com dinheiro. O objectivo é não dar tempo a que o povo se lembre que a culpa não é do vento, tenha ele o nome que tiver. A intenção é tão-só evitar no imediato que o desespero fermente em violência e mais simpatia pelo extremismo. Entretanto, há-de meter-se o Verão. Na próxima, logo se verá.
Francisco Martins da Silva
Escrevo segundo a anterior grafia.









