A rua como revelação

5 de Fevereiro de 2026

Há livros que se compram. E há livros que se guardam. Não por ostentação, mas porque passam a fazer parte do nosso olhar. Um photobook pode ser um álbum de instantes; uma obra é outra coisa: um instrumento de percepção. Não mostra a rua – ensina-nos a lê-la.

 

É nesse patamar que 99, de Vasco Trancoso, se afirma. Não como colecção de acasos felizes, mas como objecto com pensamento, ritmo e ética. Um livro onde cada fotografia não fecha o mundo: abre-o.

O mecanismo da rua

A rua, aqui, não é postal nem espectáculo. É mecanismo. Um teatro involuntário onde ninguém ensaia – e, no entanto, quase todos entram com máscara. A identidade aparece como algo que se veste: um gesto, uma postura, uma sombra, uma presença que se protege. E o que distingue 99 é o equilíbrio raro: não há cinismo, não há moralismo, não há superioridade. Há lucidez com ternura – o único modo de ver sem humilhar.

Gramática de luz e cor

A densidade visual do livro não é ornamentação: é linguagem. A geometria urbana não serve de cenário; funciona como gramática. A luz não vem “embelezar”; vem separar o essencial do ruído. A cor não é adereço; é arquitectura emocional – organiza o caos e faz emergir sentido.

E, dentro desse rigor, surge um humor raro: não o da gargalhada fácil, mas o humor que reconhece no absurdo uma forma de verdade. A rua é surreal sem o saber; a fotografia torna-a legível.

A distância justa

A fotografia de rua vive de proximidade, mas perde-se quando invade. 99 mantém a distância justa: aproxima-se sem violar, observa sem reduzir, revela sem humilhar. Essa ética sente-se mesmo quando não se explica. A imagem não é captura; é encontro.

O épico do pequeno

O sentido épico de 99 não vem do grandioso. Vem do mínimo. Um passo, uma espera, um corpo em trânsito, um olhar que se desvia: o quotidiano torna-se acontecimento interior quando é visto com rigor. O épico, aqui, é discreto – a epopeia do anónimo, não como figura menor, mas como centro silencioso do mundo real.

Há páginas em que o dia, de repente, deixa de ser apenas dia – e se transforma em destino.

Arquitectura invisível

Outra marca de maturidade é a coerência editorial. 99 não é um amontoado de imagens fortes. É um organismo: respira, tem cadência, sabe quando acelerar e quando calar. Sente-se uma lógica interna antes de se compreender – como se cada fotografia estivesse no seu lugar por necessidade, não por acaso. É essa arquitectura invisível que transforma páginas em percurso.

O belo e o sublime

Há livros que se consomem. 99 não. Instala-se. E, quando se instala, altera o modo como olhamos para o quotidiano. Depois dele, qualquer esquina pode conter uma fábula; qualquer parede pode tornar-se palco; qualquer pessoa pode ser, por instantes, uma personagem arcaica a atravessar o nosso tempo – sem o saber.

No limite, a obra toca o que a estética clássica separou com precisão: o belo como forma – medida, clareza, ritmo – e o sublime como excedente, aquilo que nos obriga a ficar mais um pouco. Um livro assim não pede pressa. Pede presença.

A pergunta final

E no fim fica uma pergunta que não se esquece – a pergunta que faz um livro merecer existir:

Quantas coisas decisivas aconteceram diante de nós, e nós chamámos-lhes “nada” apenas porque não estávamos verdadeiramente a olhar?

(A continuidade deste olhar no mais recente 88 confirma uma certeza simples: isto não foi um acaso – é um percurso.)

José Filipe Soares
Caldas da Rainha

 

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