O concelho das Caldas da Rainha apresentou-se perante um júri europeu, na categoria “Vibrant City” (cidades vibrantes, cuja população varia entre os 50 mil e os 250 mil habitantes), tendo competido com outra cidade portuguesa (Braga) e uma espanhola (Fuenlabrada), ambas de maior dimensão.
Mas o tamanho era apenas um pormenor e a candidatura caldense, que o JORNAL DAS CALDAS acompanhou, não se deixou intimidar.
A iniciativa “Capitais Europeias do Pequeno Retalho” integra um conjunto de ações promovidas pela União Europeia com o objetivo de apoiar os pequenos retalhistas e reforçar o papel das cidades na revitalização económica e social. São distinguidos os municípios que se destacam por abordagens inovadoras, apoio ao empreendedorismo e adaptação às transições digital e ecológica, e que alcançaram resultados notáveis quer no apoio ao pequeno comércio, quer na promoção e preservação de centros urbanos dinâmicos.
Para decidir quem seria a “Capital Europeia do Pequeno Retalho 2026”, os jurados avaliaram os resultados alcançados pela cidade no que diz respeito ao apoio ao pequeno comércio, analisando a robustez e a viabilidade do programa de atividades proposto para 2026.
A União Europeia descreveu que Caldas da Rainha “combina o seu centro histórico com um pequeno setor retalhista resiliente, que impulsiona a vida económica e social”. “Com um grande número de pequenos estabelecimentos comerciais que formam uma parte significativa do comércio total, gerando um volume de negócios substancial e proporcionando muitos empregos, a cidade demonstra o papel central do pequeno comércio retalhista no emprego, na identidade cultural e na vitalidade da comunidade. O centro histórico, centrado na Praça da Fruta, com as suas lojas familiares, restaurantes e serviços locais, é o coração do comércio e fortalece a vida comunitária e o património cultural”, era relatado na apresentação sumária.
Caldas da Rainha integra o retalho com a cultura, o turismo e a inovação. As iniciativas incluem a rota Bordaliana, o programa nacional de comércio com história e eventos como o MESTRA e o Caldas Nice Jazz, que reforçam a ligação entre o comércio e a cultura. Programas digitais como o ACELERAR 2030, a Startup Oeste, o INCUBA.Centro e o Distrito Comercial Digital apoiam modelos empresariais híbridos e alargam o alcance do mercado.
A sustentabilidade urbana está integrada no Plano Diretor Térmico, no Plano Municipal de Ação Climática e no Plano de Mobilidade Urbana Sustentável, promovendo a mobilidade suave, as zonas pedonais e a eficiência energética. “Ao misturar património, inovação e práticas sustentáveis, Caldas da Rainha garante a vitalidade a longo prazo do seu pequeno setor retalhista”, sintetizava a apresentação.
Braga era apontado como “um animado centro comercial no norte de Portugal, onde pequenas lojas e serviços locais impulsionam a economia, formando a maioria das empresas e empregos”. “A cidade é o lar de um grande número de pequenas e microempresas, proporcionando emprego substancial. O seu centro histórico, com numerosas lojas em muitas ruas e várias «lojas históricas» oficialmente reconhecidas, é o coração do comércio, ligando o património, o empreendedorismo e a vida comunitária. Ao longo dos últimos dez anos, o setor retalhista da cidade tem crescido de forma constante, refletindo o espírito empreendedor de Braga e a sua capacidade para combinar o turismo com os negócios locais”, relatou a União Europeia.
Braga moderniza o comércio retalhista através de iniciativas como o Centro Braga, uma zona comercial digital que liga inúmeras lojas a mercados em linha, sistemas de comunicação integrados e soluções de pagamento eletrónico. “As ruas pedonalizadas, uma frota de autocarros elétricos em expansão e o Wi-Fi público melhoram a acessibilidade e a vitalidade urbana. Os programas de formação e incubação promovem as competências digitais e a inovação, enquanto os eventos culturais e o turismo trazem benefícios económicos e reforçam a identidade comercial da cidade. Ao combinar património, transformação digital e práticas sustentáveis, Braga constrói um ecossistema de retalho resiliente, inovador e orientado para o turismo”, sublinhou a apresentação sobre a capital do Minho.
O panorama retalhista de Fuenlabrada “combina o seu centro histórico com os bairros circundantes, criando um tecido comercial diversificado e forte”. De acordo com a União Europeia, “a maior parte do comércio retalhista está concentrada no centro da cidade, enquanto as lojas locais, os mercados e as feiras de rua semanais nos bairros fornecem bens e espaços diários para a interação social”. Com um grande número de estabelecimentos ativos no rés-do-chão, principalmente pequenas lojas familiares, a cidade demonstra o seu compromisso com o comércio local, a comunidade e a vitalidade económica.
Fuenlabrada utiliza a sua forte identidade cívica, população estável e localização estratégica para promover a inovação no retalho. “A estreita cooperação entre a cidade, as associações e os retalhistas apoia novas abordagens, como o comércio local, as ferramentas digitais e as práticas sustentáveis. Os programas municipais e as iniciativas de vizinhança ajudam a enfrentar desafios como a mudança geracional, a digitalização e a mudança dos hábitos de consumo. Ao combinar os pontos fortes tradicionais com soluções modernas, Fuenlabrada constrói um ecossistema de retalho inclusivo, adaptável e voltado para o futuro”, destacou a apresentação da candidatura desta cidade espanhola a sul de Madrid, na sua área metropolitana.
Defesa da candidatura ao vivo
Na tarde da passada quarta-feira os representantes de cada cidade finalista fizeram uma apresentação perante um júri europeu.
Coube a Sara Lopes, gestora do Bairro Comercial Digital das Caldas da Rainha, a representação caldense ao longo de quinze minutos.
Começou por dizer que esse era “exatamente o tempo que demora a atravessar a nossa cidade a pé”. Uma cidade onde “o comércio não é apenas uma atividade, mas uma forma de cuidar, de criar comunidade, de dizer quem somos”, sustentou, para criar afinidade com quem a escutava.
Com pouco mais de 55 mil habitantes, a menos de uma hora de Lisboa, perto da costa atlântica, e “onde o turismo, a cultura e a vida quotidiana se encontram”, Sara Lopes vincou que “esta escala importa”. “Enquanto muitas cidades europeias lutam com centros vazios, Caldas continua a atrair novos residentes, incluindo uma comunidade internacional”, revelou.
Depois de dar conta do passado histórico, com a criação do primeiro hospital termal do mundo, deu a conhecer que nas Caldas da Rainha o pequeno comércio a retalho representa 54,9% do emprego, 55,9% dos estabelecimentos e 63,9% do volume de negócios.
Foi a “realidade económica” que motivou a candidatura, porque o título se entende adequado. “Somos uma cidade de comércio a retalho vibrante”, manifestou Sara Lopes.
“Quando o comércio a retalho é forte, a cidade é ativa, as ruas estão vivas”, prosseguiu, apontando que “no coração deste sistema está a Praça da Fruta, o único mercado diário ao ar livre em Portugal, ativo há mais de 500 anos”.
“Caldas da Rainha é também uma Cidade Criativa da Unesco e parte de um Geoparque Global da Unesco. A cerâmica local passa de artesãos e estudantes da nossa Escola de Artes e Design diretamente para as lojas e para a vida quotidiana do comércio a retalho”, descreveu.
Falando da sustentabilidade, elencou o Plano de Ação Climática, Plano de Mobilidade Urbana Sustentável e o Pacto de Economia Circular.
“No terreno, isto já significa políticas de recolha seletiva de resíduos, ruas pedonais ao fim de semana, TOMA, o nosso sistema de transportes públicos local, parcerias com organizações ambientais e de economia social e comunidades de energia local promovidas pela associação empresarial AIRO através do projeto Energia da Rainha”, indicou.
“O nosso principal programa de economia circular é o Biorainha. Até agora, tem-se concentrado na recuperação e reutilização de bio-resíduos e em ilhas ecológicas por toda a cidade. Em 2026, o Biorainha alargar-se-á ao comércio e serviços, levando práticas de economia circular diretamente para lojas, restaurantes e mercados de rua, incluindo a Praça da Fruta”, disse Sara Lopes.
A gestora do Bairro Comercial Digital das Caldas da Rainha anunciou que também este ano serão lançadas novas ações, entre ecocentros e contentores inteligentes, para melhorar a separação de resíduos, e o E-ACCESS, uma abordagem de mobilidade inclusiva.
A Loja Verde Caldas será também lançada como novo selo de qualidade e existirão iniciativas circulares, tais como oficinas de reparação, mercados de segunda mão, reciclagem de têxteis e troca de competências entre gerações.
Sara Lopes destacou igualmente a existência de um “ecossistema de empreendedorismo forte e bem conectado”. “O Município faz parte do Startup Portugal, o programa público nacional que apoia o empreendedorismo e a inovação, e trabalha em estreita colaboração com a Comunidade Intermunicipal da Região Oeste, bem como com as associações empresariais locais, AIRO e ACCCRO, que apoiam retalhistas, serviços e empresários através de formação, mentoria e apoio empresarial”, explicou.
Na sua apresentação destacou outros parceiros e mais medidas e eventos âncora fortes que irão crescer e ganhar maior visibilidade este ano, concluindo que “o que oferecemos não são apenas ideias, mas um modelo testado e transferível. que outras cidades europeias podem adaptar e aplicar”.
A apresentação convenceu e agora com o prémio haverá uma promoção contínua das Caldas da Rainha ao longo de 2026 nos canais oficiais da União Europeia.









