Sistemas que funcionam não precisam de protecção adicional para parecerem seguros. São seguros porque funcionam.
Há momentos em que uma sociedade se revela mais pelos gestos que aceita como “normais” do que pelos discursos que repete. Um desses momentos ocorreu recentemente num hospital da nossa cidade, em contexto institucional, longe de qualquer acto clínico ou situação de emergência. O cenário era sereno – e, no entanto, havia um detalhe impossível de ignorar: a máscara como linguagem implícita da rotina. A imagem circulou; o ponto não é a fotografia, é o que ela normaliza.
Quando a excepção vira protocolo
A máscara é útil e, em certos contextos, necessária. O problema começa quando deixa de ser excepção e passa a ser o gesto esperado mesmo fora do acto assistencial. Nesse momento já não é apenas prudência individual: é um sinal colectivo de que algo falhou antes – não naquele dia, mas ao longo do tempo.
O inverno não surpreende – expõe
Todos os anos repetimos o mesmo ritual: surpresa, contingência, apelos, esforço extraordinário. E todos os anos fingimos que o problema é “sazonal”, quando é estrutural. As epidemias respiratórias de inverno são previsíveis, estudadas e modeláveis. O que não é inevitável é a persistência de ambientes interiores onde o risco se amplifica: ventilação deficiente, ar não monitorizado, sobrelotação, stress sistémico. O inverno não explica epidemias. Amplifica o que foi ignorado durante o resto do ano.
A dissonância silenciosa
Há uma dissonância que se tornou rotina: afirma-se tranquilidade, mas normaliza-se a necessidade de barreiras adicionais. Este desfasamento, muitas vezes, não é maldade; é habituação – a aceitação tácita de que “é assim” e de que improvisar todos os anos chega. Mas improviso repetido não é prudência. É resignação operacional.
O invisível também é infra-estrutura
Tal como aprendemos a tratar a água e o saneamento como infra-estruturas de saúde pública, sabemos hoje que o ar interior é um determinante central da saúde respiratória. Medir CO₂, partículas finas e humidade não é futurismo; é o equivalente moderno do saneamento básico: mensurável, auditável, corrigível. Ignorar o invisível não o torna neutro – torna-o cumulativo.
Da dissonância à obrigação pública de resposta
Num serviço público, a confiança não se pede: mede-se e demonstra-se. A pergunta correcta não é se “faz sentido” usar máscara. A pergunta é outra – e é incontornável: que indicadores objectivos existem, hoje, para demonstrar – de forma contínua e verificável – que a infra-estrutura invisível está a cumprir, sobretudo nos dias e horas em que mais falha? E, se existem, onde estão publicados com regularidade, transparência e prestação pública de contas?
Não se trata de exigir segredos técnicos nem de produzir espectáculo. Trata-se do mínimo moderno de governação responsável: métricas simples e comunicáveis, critérios claros de actuação quando os valores não são aceitáveis, e evidência que não dependa de “dias bons”. Porque uma garantia episódica não é demonstração: é declaração.
O que mais pesa
O que mais pesa não é a máscara, nem a visita, nem o inverno. É a repetição: saber, poder medir, poder corrigir – e, ainda assim, aceitar que tudo volte a acontecer do mesmo modo, ano após ano, como se fosse destino. Quando a mesma falha se repete e é mensurável, deixa de ser surpresa: é governação.
E fica a pergunta final, que transforma o desconforto em dever público:
Se a excepção virou rotina, onde estão – públicos, contínuos e verificáveis – os indicadores que provam que o ar é seguro?
Três medidas simples e exequíveis:
- Publicar CO₂ e PM2.5 nas zonas críticas.
- Definir limiares e protocolos automáticos de resposta.
- Auditar trimestralmente, corrigir e tornar público o resultado.
Porque sistemas que cuidam não se explicam no inverno.
Previnem-se o ano inteiro.
José Filipe Soares
MSc Engenharia e Tecnologias da Saúde · MBA em Gestão
Nota do autor: o texto segue a ortografia culta da Língua Portuguesa, por respeito à sua matriz histórica e etimológica.









