Entre tempestades e medalhas

21 de Fevereiro de 2026

A política dos gestos em vez das soluções com comboios elétricos sem energia.

 

A Linha do Oeste está em obras para a sua eletrificação. Promessa antiga, necessidade evidente, bandeira política reciclada em sucessivos mandatos.

Entretanto vieram as tempestades, as depressões atmosféricas e os estragos na via. Troços danificados, taludes fragilizados e a necessidade de intervenção profunda antes do regresso dos comboios.

No terreno, o Ministro das Infraestruturas foi prudente: “Serão necessários nove meses para repor a circulação”.

Poucos dias depois, a comissão de utentes marcou uma vigília exigindo o regresso da linha e alternativas para os passageiros.

Entre prudência institucional e impaciência popular, a região continua a fazer aquilo que melhor aprendeu: esperar.

Mas há silêncios mais interessantes do que as declarações.

A manifestação de 21 de fevereiro pela modernização da Linha do Oeste reuniu menos de meia centena de pessoas.

Pode parecer um detalhe. Mas não é.

Uma mobilização reduzida significa ausência de massa crítica e irrelevância negocial.

Sem adesão social expressiva, Lisboa escuta, regista e arquiva.

A iniciativa, promovida pela comissão de utentes ligada ao PCP, não contou com mobilização institucional relevante. O executivo municipal das Caldas da Rainha esteve presente, mas não amplificou a convocatória nos seus canais oficiais.

E quando o poder local não mobiliza, a mobilização não existe.

Sem pressão consistente, a Linha do Oeste permanece um dossiê regional, não uma prioridade nacional.

Recorde-se o momento solene de lançamento da obra de eletrificação da linha do Oeste. Ministro, comitiva, discursos e um projeto apresentado como estruturante e transformador.

Fantástico, diziam.

Fantástico poderia ter sido.

Mas esqueceram-se do essencial.

Sem energia, os comboios elétricos não andam.

Entre gabinetes, técnicos e equipas de projeto, alguém se terá esquecido dos postos de transformação (PT’s) necessários para alimentar a linha.

Convém recordar: comboios elétricos precisam de eletricidade.

O detalhe descoberto agora, emergiu quando se preparavam testes e se verificou que não existia potência instalada suficiente.

E a falha faz lembrar outro momento de engenho administrativo nacional: a compra de barcos elétricos sem baterias.

Infraestruturas modernas, tecnologia avançada e o pequeno detalhe que permite que funcionem.

O país no seu melhor, como sempre.

Talvez estivesse num anexo. Talvez numa nota de rodapé.

Entretanto chegaram as tempestades.

E com elas, uma explicação conveniente.

Fica a dúvida: será que no Ministério das Infraestruturas também há assinatura da Sport TV e alguém estava a ver o jogo decisivo quando se fechou o caderno de encargos?

Mistérios.

Talvez agora, com o Presidente da República a residir nas Caldas da Rainha, o presidente da câmara encontre uma nova via de proximidade institucional. Uma colagem simbólica que permita ganhar peso junto do Governo.

Uma diplomacia de vizinhança.

Num território onde, tal como na saúde e na segurança, as soluções estruturais tardam, mas onde os dispositivos funcionam exemplarmente sempre que a Constituição exige proteção à residência do Chefe de Estado.

Apesar das presenças em campanhas, das fotografias em espaços VIP e de assessores contratados por ajuste direto ao Município, mas instalados em espaços de promoção particular, constrói-se uma proximidade encenada com a equipa presidencial. Uma colagem que o próprio Presidente dificilmente desejará ver sugerida.

Tal como na comunicação, ou na falta dela, a encenação da proximidade ao poder central não resolve o essencial.

Nem mesmo a hipótese de propor a medalha de ouro da cidade ao Presidente da República, no próximo 15 de Maio, resgatará uma governação marcada pela incapacidade de mobilização e perda de influência política.

A pergunta impõe-se: porque não antes e agora sim?

O cidadão é o mesmo. Terá mudado a honra do cargo ou a conveniência da amizade?

Enganem-se aqueles que pensam que será ele a resolver os problemas das Caldas da Rainha.

Entretanto, a Linha do Oeste continua à espera.

Os utentes vigiam.

Os técnicos estudam.

Os governantes explicam.

E as tempestades ajudam a contar a história.

O país continua à espera que a energia chegue, não apenas aos carris, mas à forma como se planeia, executa e assume responsabilidade.

Porque o problema nunca foi a eletrificação da linha.

Foi sempre a falta de energia no modo de governar.

Até para a semana.

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