De SOS Leiria a SOS Portugal para dar resposta às emergências das intempéries

19 de Fevereiro de 2026

Foi lançada a 30 de janeiro a plataforma SOS Leiria, um site criado para coordenar e facilitar a ajuda às pessoas e comunidades afetadas pelos estragos provocados pela tempestade Kristin no distrito de Leiria. O sucesso da ferramenta levou ao nascimento, a 16 de fevereiro, da SOS Portugal, que pretende apoiar situações de emergência decorrentes das recentes intempéries, como inundações.

Segundo o criador, Flávio Fusuama, programador informático residente em Leiria, a plataforma “é uma ferramenta colaborativa onde qualquer pessoa pode reportar necessidades urgentes como falta de eletricidade, água, comida, abrigo, estradas bloqueadas, árvores caídas ou telhados danificados ou oferecer ajuda, seja através de serviços, materiais ou voluntariado”.

Natural do Brasil e a viver em Portugal há dois anos, Flávio Fusuama desenvolveu a plataforma em apenas 24 horas, motivado pela necessidade de dar uma resposta rápida aos desafios de comunicação e logística que se seguiram aos fortes ventos e chuvas da tempestade Kristin.

Os pedidos e ofertas de ajuda ficam registados no mapa interativo, permitindo visualizar de imediato as necessidades e os contributos nas várias zonas do distrito.

Em apenas 14 dias, a SOS Leiria tornou-se uma ferramenta essencial para a comunidade, tendo recebido 4.145 registos — 2.843 pedidos de ajuda e 1.302 ofertas. Até ao momento, 775 situações foram resolvidas, incluindo 150 telhados reparados e 439 famílias diretamente apoiadas. A iniciativa soma já 3.565 seguidores, revelando o forte envolvimento da população.

 

“Percebi que tinha de fazer alguma coisa”

 

O criador da plataforma recorda que a ideia surgiu no dia seguinte à tempestade. “Quando acordei, percebi que não tinha condições para continuar em Leiria. Fiquei sem eletricidade, sem internet e temi ficar dias sem água, sobretudo por ter uma filha pequena”, contou.

Ao circular pelas freguesias vizinhas, apercebeu-se da extensão dos danos. Horas depois, já em segurança noutra localidade, começou a ver online relatos de famílias desesperadas. “Vi na televisão pessoas a dizer que não tinham conseguido contactar bombeiros nem Proteção Civil, casas completamente alagadas, idosos isolados e foi aí que pensei que tinha mesmo de fazer alguma coisa”, contou.

Foi então que nasceu a ideia de criar uma plataforma colaborativa que permitisse localizar pedidos e ofertas de ajuda num mapa simples e intuitivo. “Sempre fui apaixonado por informação e pela forma como as pessoas comunicam. Na minha cabeça, precisava de criar um mapa onde todos se pudessem situar e falar diretamente”, adiantou.

 

Desenvolvida em apenas 24 horas

 

Com experiência em programação e com a ajuda da inteligência artificial, Flávio Fusuama estruturou rapidamente um sistema acessível a qualquer pessoa. “A plataforma foi criada em 24 horas. Tinha de ser simples, funcionar mesmo com pouco sinal de internet e ser fácil de usar, até por pessoas idosas”, explicou. Por isso, não exige criação de conta e funciona offline.

Depois regressou a Leiria para divulgar o projeto: “Imprimi panfletos, distribuí pela rua e deixei em cafés e restaurantes que conheço”. A divulgação também ganhou força nas redes sociais.

Com o aumento da adesão, outros voluntários juntaram-se ao projeto. “Foi o caldense Pedro Teles e a Cláudia Santos que me ajudaram com a expansão da plataforma”, indicou.

Apesar de ainda não existir colaboração formal, já houve contacto com a Câmara Municipal de Leiria. “Ficaram surpreendidos. Ao acederem à plataforma, conseguiram ter uma noção real do que se passava no terreno como danos, estabelecimentos afetados, pontos de recolha e voluntários prontos a ajudar”, relatou.

O criador reconheceu que a ausência de uma associação formal dificulta parcerias institucionais. “Se quisermos ter apoio legal e cooperação com as autoridades públicas, teremos de criar uma associação. Não era o objetivo inicial, mas, para cumprir o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) vai ter de acontecer”, relatou.

Com as intempéries a afetarem cada vez mais zonas do país, a evolução para uma plataforma de âmbito nacional tornou-se inevitável. “Em crises tudo acontece muito rápido. Em 15 dias surgiram novas necessidades e novos desastres noutras regiões. O caminho foi o SOS Portugal”, sublinhou.

 

Coordenação no terreno

 

Pedro Teles, videógrafo natural das Caldas da Rainha, e Cláudia Santos, residente em Turquel, juntaram-se a Flávio Fusuama na fase inicial do projeto e integram hoje a equipa que sustenta a expansão da plataforma nacional.

Em declarações ao JORNAL DAS CALDAS, Pedro Teles explicou que a equipa de suporte é “completamente voluntária” e envolve “cerca de trinta pessoas, com vinte ativas”.

Destacou ainda que a rede criada no terreno já permite respostas rápidas graças a parcerias locais. “Ontem recebemos um alerta numa aldeia de Leiria de que um poste estava a cair. Contactei o presidente da Junta, que foi verificar”, revelou.

Segundo Pedro Teles, a plataforma conta com integração oficial com o Waze, disponibilizando no mapa informação em tempo real sobre estradas cortadas.

Foi criada ainda uma categoria no mapa para identificar pontos onde é possível tomar banho quente onde estão 21 pontos ativos, fundamentais para quem está sem água.

Em conformidade com o RGPD, os utilizadores podem consultar, editar, exportar ou eliminar os seus dados a qualquer altura, através de um código único.

A plataforma mantém-se acessível mesmo sem internet, funcionando através de qualquer browser, quer no telefone quer num tablet ou computador.

Com a evolução do projeto, o sistema nacional já está em operação. “O SOS Portugal já está funcional. Quem procurar SOS Leiria ou SOS Portugal vai parar ao mesmo sistema”, explicou. O objetivo é abranger todo o país, incluindo situações não emergentes.

Quanto ao funcionamento, Pedro Teles esclareceu que o vermelho assinala pedidos de ajuda, o verde são ofertas. As outras cores representam categorias específicas. As ocorrências podem ser confirmadas por outros utilizadores através do botão “confirmo’”, que indica que a situação ainda se mantém.

A voluntária Cláudia Santos, que integra a coordenação do projeto, disse que o principal desafio inicial foi garantir que a plataforma ganhava credibilidade. “Era importante alimentarmos a plataforma com informação real e mantê-la atualizada, para que as pessoas acreditassem no projeto”, afirmou.

Segundo referiu, a mobilização foi rápida. “Chegámos a reunir cerca de 85 voluntários. Nem todos se mantiveram ativos, porque isto consome muito tempo e energia, mas neste momento contamos com cerca de 60 pessoas a colaborar”, contou. Alguns dedicam apenas meia hora por dia, enquanto outros “trabalham três ou quatro horas de forma intensiva”.

Para organizar a informação dispersa nas redes sociais, foi criada uma equipa específica de recolha de dados. “Havia muitos posts soltos, muita informação perdida. Tivemos 30 voluntários só a recolher dados e a encaminhá-los para a equipa de triagem”, contou. Essa triagem era feita sobretudo por telefone, embora também existissem contactos através de mensagens. O objetivo era explicar às famílias como inserir corretamente os seus pedidos na plataforma e recolher os dados necessários para encaminhar a ajuda.

Cláudia Santos admitiu que acabou por assumir um papel mais central do que previa. “Fui apanhada um pouco de surpresa. Estava focada no meu trabalho de marketing e, de repente, estava a gerir dados e equipas”, recordou. “Só queria ajudar com números, mas percebi que podia fazer mais, e o projeto acabou por crescer muito”, referiu.

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