As peças revelam as múltiplas vidas da figura criada por Rafael Bordalo Pinheiro, incluindo o mais recente livro de Astérix que faz referência ao Zé Povinho.
Segundo o diretor do Museu, João Alpuim Botelho, esta é “uma espécie de segunda parte” da exposição que esteve patente no verão passado no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha.
Ambas as mostras tiveram a curadoria do designer Jorge Silva, sendo que a primeira apresentou uma seleção de publicações e obras originais de grandes nomes do cartoon português: Stuart Carvalhais, José Vilhena, João Abel Manta, André Carrilho, Cristina Sampaio, entre outros.
“Fazemos assim a ligação entre as Caldas da Rainha, onde Rafael Bordalo Pinheiro criou a fábrica de faianças, e Lisboa, onde esteve viveu”, referiu João Alpuim Botelho.
A principal ideia para esta exposição foi a de perceber “como é que esta figura do Zé Povinho se tinha conseguido manter ao longo destes 150 anos”.
A mostra faz uma viagem desde as primeiras gravuras originais até às abordagens mais recentes do Zé Povinho, incluindo peças de colecionadores das Caldas da Rainha (Isabel Castanheira, João Maria Ferreira e Joaquim Saloio).
Faz ainda parte da exposição um vasto conjunto de produção artística e fabril caldense dos séculos XIX, XX e XXI, nos quais se incluem nomes como Francisco Elias, Costa Mota, Sobrinho, João Arroja, Vasco Lopes de Mendonça, Aires Constantino Leal, Leonel Cardoso, José Francisco de Sousa, José Alves Cunha, António Alves Cunha, Herculano Elias, Germano Luís Silva, Avelino Belo, José Belo, Constantinos, Herculano Lino Elias, Álvaro José, Vitor Lopes, Fernando Miguel, Luís Elias e Vítor Pires.
Criado a 12 de junho de 1875, nas páginas do jornal A Lanterna Mágica, o Zé Povinho tornou-se rapidamente um símbolo do povo português, atravessando gerações e mantendo uma surpreendente atualidade.
Exposição permanente sobre Bordalo Pinheiro
O museu tem também patente uma exposição de longa duração, inaugurada em janeiro, que apresenta uma visão contemporânea e atual sobre a vida e obra de Rafael Bordalo Pinheiro.
A mostra é composta por sete salas, onde pode ser feita uma leitura articulada entre caricatura, cerâmica, política e a sociedade oitocentista.
A primeira sala, “A Situação… pela Lente de Bordalo”, enquadra o visitante na segunda metade do século XIX, marcada por profundas transformações políticas, tecnológicas e sociais.
Através da imprensa ilustrada, Bordalo Pinheiro acompanhou a atualidade nacional e internacional, criticando a monarquia constitucional, o rotativismo partidário e a influência da Igreja. A sua sátira incidiu também sobre as tensões coloniais e as ambições expansionistas, refletindo o nacionalismo e as contradições do seu tempo.
Em “Jogos de Humor: do Desenho à Cerâmica”, destaca-se a versatilidade do artista no uso da caricatura como linguagem principal, explorando deformações, metáforas visuais e narrativas gráficas que antecipam a banda desenhada.
A sala evidencia ainda a transposição de recursos do desenho para a produção cerâmica, ampliando o alcance da crítica humorística.
A terceira sala, “Figuras e Personagens”, centra-se nos retratos caricaturais de políticos, escritores e atores, bem como na criação de personagens-símbolo da crítica social.
Entre elas sobressai o Zé Povinho, representação duradoura do povo português, e a Maria da Paciência, figura de vida mais breve mas igualmente expressiva.
“Os Palcos de Lisboa” apresenta a cidade como cenário privilegiado da crónica humorística. Bordalo Pinheiro retrata uma capital em transformação, dividida entre a modernidade burguesa e persistentes desigualdades sociais.
Na sala “Comédia Político-Burlesca”, a política surge como grande espetáculo. Inspirando-se na metáfora teatral, Bordalo Pinheiro representou governos, eleições, dívida pública e obras do Estado como atos de uma encenação trágico-cómica, onde os políticos assumem múltiplos papéis e o Zé Povinho observa, muitas vezes passivo, o desenrolar dos acontecimentos.
“Tragicomédia sem Limites” aborda os limites e as ambiguidades do humor bordaliano. A exposição não evita temas sensíveis, revelando como a sátira incidiu sobre costumes, religião, preconceitos sociais e raciais, espelhando a mentalidade oitocentista e suscitando uma reflexão contemporânea sobre o riso e os seus contextos.
Por fim, “O Lápis como Arma” sublinha o papel do artista num período de crescente repressão e censura.
Num contexto de contestação política e controlo do espaço público, Bordalo Pinheiro utilizou o desenho como instrumento de intervenção cívica, denunciando injustiças e defendendo valores de liberdade e igualdade, consolidando o seu lugar como uma das figuras centrais da cultura visual e política portuguesa do século XIX.







