As imagens são difíceis de esquecer: casas destelhadas, ruas transformadas em rios, estufas destruídas, campos agrícolas submersos, comunicações cortadas, populações isoladas dias a fio. Vidas viradas do avesso em poucas horas. Num território habituado a resistir, esperava-se que a máquina pública estivesse preparada para o pior. Não estava.
O Plano Nacional de Emergência de Proteção Civil foi ativado, sim. Mas tarde. O Estado de Calamidade chegou quando já havia vítimas a lamentar e prejuízos incalculáveis acumulados. Em situações destas, o tempo não é um detalhe técnico: é a diferença entre prevenir o caos e geri-lo depois de instalado.
Mais incompreensível ainda foi a hesitação em recorrer aos mecanismos europeus de proteção civil. Num momento em que geradores de grande capacidade, equipas especializadas e meios logísticos estavam disponíveis através do Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia, optou-se por uma resposta que revelou limites evidentes. Não se trata de orgulho nacional; trata-se de responsabilidade. Quando as populações estão sem luz, sem água potável e sem comunicações, a prioridade tem de ser a eficácia.
Esta tempestade expôs fragilidades estruturais que não nasceram agora. Infraestruturas críticas vulneráveis. Comunicações que colapsam. Serviços essenciais dependentes de operadores privados que, perante a pressão, não responderam com a robustez exigida. Em pleno 2026, concelhos inteiros ficaram incomunicáveis. Lares, instituições e serviços públicos sem geradores próprios. Autarcas a improvisar soluções onde devia existir planeamento.
E, no entanto, se houve algo que não falhou, foi a resposta das pessoas.
Bombeiros, proteção civil, voluntários, vizinhos anónimos. Câmaras municipais que abriram pavilhões, bibliotecas e estádios. Associações que recolheram bens essenciais. Comerciantes que ofereceram o que tinham. Gente que, mesmo sem eletricidade em casa, se apresentou para ajudar a limpar ruas e desobstruir caminhos. Num momento de crise, o distrito mostrou o melhor de si: solidariedade prática, imediata, concreta.
É aqui que reside o paradoxo: quando o sistema hesita, a comunidade avança.
Mas não podemos normalizar esta inversão. A proteção civil é um dever do Estado. A prevenção é uma obrigação política. Num distrito – e num país – fustigado ciclicamente pelos incêndios de verão e pelas tempestades de inverno, urge uma outra política: uma política radical no sentido original da palavra, que vá à raiz dos problemas. Preventiva. Estrutural. Planeada. Não apenas reativa.
É necessário concluir, atualizar e operacionalizar plenamente o Plano Distrital de Emergência de Proteção Civil de Leiria. É necessário ativá-lo no momento certo, não depois. É necessário garantir redundância energética em equipamentos críticos, reforçar a resiliência das redes de comunicações, investir na proteção das zonas mais vulneráveis, apoiar agricultores e pequenos comerciantes na adaptação às novas realidades climáticas.
Porque esta não foi uma “tempestade excecional”. Foi mais um episódio de um padrão que se intensifica. Negar a emergência climática ou tratá-la como retórica distante é fechar os olhos aos destroços que ainda hoje marcam o nosso território.
Mais do que apontar o dedo ou criticar (como se fosse um desporto político), importa assumir responsabilidades e corrigir o que falhou. A reconstrução física será longa. A reconstrução da confiança pública depende da capacidade de reconhecer falhas e corrigi-las.
As populações de Leiria fizeram a sua parte. Os autarcas fizeram a sua parte. Os voluntários fizeram a sua parte.
Agora é tempo de o governo fazer a sua.
Porque as tempestades meteorológicas são inevitáveis. As tempestades no sistema, não.










