No papel, as Caldas são uma potência termal europeia. Na realidade, o tecto cai.
O documento fala de Master Plan, de visão integrada, de desenvolvimento sustentável e até de arranjar alojamento para médicos. Uma ideia tão inovadora que só espanta por ainda ser preciso escrevê-la como se fosse um feito civilizacional (lá ficou alguma coisa da campanha e que a oposição muito falou). Fica-se com a sensação de que, se houvesse espaço, também explicariam como ligar a água e acender a luz.
Mas há um detalhe curioso. Sobre o novo balneário termal, aquele que supostamente vai salvar tudo, não se sabe onde fica, nem de quem são os terrenos, nem quando começa, nem quando acaba. É um balneário quântico. Existe em teoria, mas desaparece quando tentamos localizá-lo.
Enquanto isso, o Hospital Termal, o verdadeiro, o físico, aquele que não cabe em PDFs, vai-se degradando. Equipamentos oxidados, tectos a desfazerem-se, placas a cair. Um espaço que estava preparado para turismo de lazer e termalismo de qualidade transformou-se num exercício de fé. Entra quem acredita que nada lhe cai em cima.
E não caiu apenas em sentido figurado.
Uma funcionária administrativa da ULS do Oeste viu parte do tecto cair-lhe em cima enquanto trabalhava. Foi parar às urgências do hospital distrital (sorte dela o serviço estar aberto nesse dia). No local ficaram os destroços, o equipamento danificado e a prova de que a falta de manutenção não é uma metáfora política, é uma realidade concreta.
Aqui já não estamos a falar de azar. Estamos a falar de negligência. E quando a negligência atinge trabalhadores, a conversa muda de tom. Acidentes de trabalho existem, sim. Mas quando há sinais evidentes de degradação ignorados durante meses ou anos, alguém tem de explicar se estamos perante simples desleixo ou uma estranha forma de gestão por queda livre.
Entretanto, continua-se a falar de futuro.
Muito.
Fala-se tanto que quase se esquece o presente. E isso torna-se ainda mais difícil de engolir quando, ali ao lado, em Óbidos, essa vila medieval que muitos caldenses gostam de tratar como “pequena”, a Câmara anuncia a construção de um balneário termal ainda neste mandato. Em Óbidos decide-se e faz-se. Nas Caldas escreve-se e aguarda-se que o papel aguente o edifício.
O contraste é cruel. Numa terra medieval, com muralhas e eventos, há execução.
Numa cidade com água termal abundante e património único, há oxidação, tectos a cair e planos que brilham no ecrã.
Talvez o problema seja esse.
Nas Caldas, o termalismo não é um projeto. É um conceito. Serve para discursos, para documentos extensos e para justificar a inação. Enquanto isso, a água continua a correr, os edifícios a degradar-se e os trabalhadores a arriscar.
É caso para perguntar se a estratégia é esperar que o património caia sozinho para depois, finalmente, poder reconstruir alguma coisa. Ou se estamos apenas perante mais um caso em que as ideias são iluminadas demais para tocar na realidade.
A realidade, essa, já respondeu. Caiu do tecto.
Até para a semana.










