A visita, o vídeo e o hospital que ficou para depois

16 de Janeiro de 2026

A Ministra da Saúde passou pelas Caldas. Houve visita ao hospital com comitiva completa. Presidente da Câmara, staff, deputado da nação e, no final, declarações aos jornalistas. Tudo muito elegante, muito fotogénico. Curioso como o atual presidente da Câmara, que antes evitava aparecer, agora não perde uma oportunidade de se colar, tipo emplastro político em versão 4K.

 

Disse ela, e bem, que um novo hospital no Oeste precisa de ser feito. E elogiou os profissionais de saúde e a resiliência do Conselho de Administração. Justo. Sem eles, todas as fotos e vídeos inspiradores não passam de papel impresso com música de fundo.

Sobre o novo hospital, a resposta foi curta e politicamente higiénica. A localização fica para o Primeiro-Ministro decidir. Política de equipa, passo bem medido, para não chatear ninguém. Mas quando e como? Clássico português. Depende do calendário das plantas, dos votos partidários, do café da esquina ter luz ou não. Ou seja, dependemos do futuro para ter algo que nos é urgentemente necessário no presente. E convém lembrar: mesmo com parcerias público-privadas, um hospital novo no Oeste dificilmente estará construído ou a funcionar nos próximos 15 anos.

Enquanto isso, o Hospital das Caldas vive no presente. Precisa de obras de requalificação e de recursos humanos antes de pensar em um novo edifício. Senão, arriscamo-nos a ter um hospital moderno, mas sem médicos, enfermeiros ou parteiras. Um verdadeiro monumento à arquitetura. Traduzindo: alguém há de tratar disso. Um dia.

E a Câmara? Página oficial publica vídeo com música, imagens bonitas, lembrando a frase feita: “Queremos o novo hospital entre Caldas e Óbidos.” Mas não dizem o que vão fazer pelo hospital atual, nem como vão fixar profissionais. Zero estratégia, zero reivindicação, zero exigência. Apenas cenário. Fotografia. Vídeo. Teatro para redes sociais. Entre a visita e o vídeo, o hospital continua parado.

Para quem reclamou tanto no passado, esta visita era a oportunidade perfeita para falar alto. E ficou-se em silêncio. Estranho, no mínimo. Se quisesse realmente lutar pela saúde das Caldas, o presidente da Câmara deveria ter assumido publicamente, frente à Ministra: criar incentivos para fixar médicos e enfermeiros, habitação para profissionais, creches para filhos, melhorar acessos e transportes. Deveria ter defendido Alcobaça e Nazaré, resgatado Rio Maior e centralizado o Oeste. Mas não. Silêncio. Sorrisos. Vídeo. Não se leu nada na comunicação social local, nem na página de Facebook oficial do Município sobre isto. Estranho no mínimo para quem diz lutar, mas pelos vistos prefere ficar de luto.

E depois há os cuidados de saúde primários. Outro silêncio. As Caldas nem sequer aceitaram a descentralização de competências nesta área. E porquê? Assim, não planeiam, não exigem, não reivindicam. Esperam.

Enquanto isso, os caldenses esperam no hospital, nas urgências, na obstetrícia fechada. Alguns recorrem a hospitais privados, outros veem dinheiro gasto em vídeos de ajustes diretos e comunicados sem substância e suspiram. Estão cansados de ouvir que “deu-se dinheiro para a obra de requalificação da obstetrícia”, mas não se reivindica, não se pressiona, não se congrega.

Também o Conselho de Administração comunicou a visita de forma factual, quase clínica. Nada sobre investimentos, nada sobre as obras do PRR, nada sobre o novo edifício que acabaria com contentores e reorganizaria serviços. Um comunicado asséptico, enquanto a lista de espera cresce.

Para fechar. Antes de pensar em novos edifícios, a prioridade deveria ser requalificar o hospital atual, fixar profissionais, criar incentivos reais e um plano concreto para toda a região do Oeste. Mas vídeos bonitos, elogios e música de fundo ocupam o lugar da ação real.

Caldas precisa de voz ativa, não de figurinos fotogénicos. Precisa de decisões, não de slogans. Precisa de hospitais a funcionar, não de promessas que viajam de comboio antes de qualquer parto real acontecer.

Este executivo prometeu fazer diferente. Mudar. Disse agora para as pessoas acreditarem. Que ia corrigir erros do anterior. Mas hoje parece preso a erros maiores: silêncio, passividade e gestão por imagem. Se isto é trabalho de bastidores, então piam fininho. Porque à superfície, de obras, não há nada. A não ser que estejam a acontecer no subsolo. Talvez seja mais uma rubrica inscrita com cem euros do orçamento municipal.

E assim seguimos. Entre visitas, vídeos com música de fundo e um hospital que continua sempre para depois.

Até para a semana.

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