De Brazzaville às Caldas da Rainha num percurso internacional cheio de atividade política e cívica

8 de Janeiro de 2026

António Marques nasceu na África Central, em Brazzaville, passou a infância e juventude na Beira Alta, estudou em Coimbra e esteve exilado em França até ao 25 de Abril, estabelecendo-se nas Caldas da Rainha em 1975, onde esteve 47 anos ao serviço do Município. Durante este percurso de vida, que profissionalmente terminou como diretor da Expoeste durante cerca de 25 anos, António Marques foi assessor na administração do grupo Peugeot, chefiou o Turismo na Câmara das Caldas e esteve na origem das primeiras feiras da fruta, a partir de 1978. Ao nível político, foi eleito deputado pelo distrito de Leiria em 1985, integrando as listas do Partido Renovador Democrático (PRD), criado sob a influência do General Ramalho Eanes. O seu mandato durou menos de três anos devido à queda do governo por uma moção de censura em 1987. António Marques foi também fundador e o primeiro presidente eleito do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local (STAL).

António Marques nasceu no dia 3 de janeiro de 1949.

As suas primeiras experiências de vida e companheiros de infância foram africanos, o que lhe conferiu uma naturalidade perante a diferença de cores e horizontes

O seu pai, Guilherme Marques, era médico e foi um dos primeiros funcionários portugueses das Nações Unidas, coordenando equipas francesas no combate à varíola. A sua mãe, Abigail, era filha de pai italiano e mãe portuguesa, tendo nascido no Rio de Janeiro.

Esta mistura de origens levou António a afirmar que é “um pouco mistura disto tudo”. Embora tivesse nacionalidade francesa à nascença, o seu pai, por gosto a Portugal, optou pela formação portuguesa do filho.

Aos sete anos, veio para Portugal para frequentar a escola primária, ficando ao cuidado da sua avó, Emília Jesus Lopes, em Tazem, no concelho de Gouveia.

A sua avó era uma figura central na aldeia, descrita como uma mulher generosa que dirigia uma casa agrícola e ajudava toda a comunidade

A figura central na formação foi a sua avó, Emília Lopes, a mulher que o criou e que funcionava como o verdadeiro pilar da sua aldeia.

A sua liderança não vinha de um cargo, mas de ações concretas que demonstravam um profundo sentido de comunidade. Tinha o único telefone da aldeia, que servia toda a gente para emergências e pagava o táxi para o médico visitar os doentes.

Aos sábados colocava a sua televisão na escadaria para que toda a aldeia pudesse assistir junta à série Bonanza.

Em Tazem, António Marques foi aluno do professor José Maria, que destaca ser um pedagogo excecional que transformou uma escola sem condições numa “mina de ouro” de conhecimento.

Este professor implementou uma espécie de cantina escolar (quando estas ainda não existiam no país), garantindo que nenhum aluno passava fome, e mandava o sapateiro da aldeia fazer botas para os alunos mais pobres. Todas estas ações eram apoiadas financeiramente pela avó de António Marques.

José Maria ensinava poesia, números primos e exigia uma enorme elasticidade mental, preparando os alunos para serem, acima de tudo, “cidadãos”, descreveu.

Prosseguiu depois os estudos em Viseu, onde frequentou o Colégio de Santo Agostinho. Ali, destacou-se pela sua ligação à natureza, chegando a levar uma lagartixa para uma aula de física para uma demonstração prática que assustou os seus colegas da cidade.

Em Viseu, começou a escrever para jornais e a colaborar com rádios, como a Rádio Altitude, da Guarda.

Mais tarde, ingressou em Engenharia de Máquinas na Universidade de Coimbra. Foi nesta cidade que viveu os primeiros confrontos políticos, o que o levou a abandonar Portugal no final de 1968 para evitar a repressão do regime.

 

Exilado político em Paris

 

Chegou a Paris como refugiado político, apenas com um saco de plástico e um bilhete de identidade. Começou por trabalhar a descarregar barcos no Rio Sena e como manobrador de gruas. Um emprego que conseguiu com alguma “imaginação”. Apesar de nunca ter visto uma grua na vida, sabia que haveria um período de formação de oito dias. Quando lhe perguntaram se tinha experiência, a sua resposta foi imediata e categórica: “Toda a minha vida trabalhei com isso”.

No entanto, acabou por conseguir levar a bom porto esse trabalho. A sua sorte melhorou quando o patrão da empresa, que era também sócio maioritário do grupo Peugeot e presidente da câmara de Vincennes, reconheceu as suas competências

Fruto do seu empenho e de uma ligação pessoal com o filho do seu patrão, António Marques fez uma carreira meteórica na Peugeot, recebendo formação em marketing e vendas e chegando ao cargo de assessor na administração do grupo. Durante este período, casou-se em França com uma portuguesa de Aveiro, que viria a ser crucial para a sua mudança para Caldas da Rainha.

 

Regresso a Portugal e atividade sindical

 

Após a Revolução de 25 de Abril de 1974, António sentiu o apelo de regressar para ajudar a construir a democracia. Voltou definitivamente a 31 de dezembro desse ano.

Em 1975, foi um dos fundadores e o primeiro presidente eleito do STAL, o maior sindicato português do setor, cuja assembleia constituinte ocorreu no Porto a 14 de agosto de 1975.

António Marques fixou-se nas Caldas da Rainha porque a sua mulher foi colocada na cidade como professora.

A 1 de abril de 1975 entrou para a Câmara Municipal, através de concurso público, para dirigir o serviço de turismo.

Em 1978, organizou a primeira edição da Feira da Fruta, com pavilhões feitos de tubos e lonas verdes, devido à falta de recursos. Um ano antes tinha havido uma tentativa falhada por uma organização profissional de Lisboa.

Naquela época, a fruticultura em Portugal era pouco desenvolvida tecnicamente, não existiam sistemas de calibragem nem de embalagem. A feira contou com a participação de expositores espanhóis (da zona de Lérida) que ensinaram os produtores locais a calibrar e embalar os frutos

As grandes máquinas agrícolas foram expostas no Parque das Bicicletas, enquanto as primeiras jornadas técnicas de fruticultura decorreram na Casa dos Barcos com a presença de representantes do Ministério da Agricultura e delegações da Madeira e dos Açores.

António Marques insistia que a feira deveria mostrar o “fruto em natureza”, algo que enchesse os olhos dos visitantes e demonstrasse a qualidade da produção local.

Mais do que um evento agrícola, o objetivo era projetar as Caldas da Rainha a nível nacional, utilizando o slogan de que era “bom viver e investir” na cidade.

O sucesso foi tal que, logo no ano seguinte, em 1979, a feira foi expandida para incluir também a cerâmica, consolidando o modelo que tornaria as Caldas um centro de referência para exposições.

Essa experiência, aliada ao que tinha já realizado no grupo da Peugeot, fez com que estivesse também na génese da criação da Expoeste. Embora o centro de exposições tenha sido inaugurado em 1993, António Marques assumiu formalmente o cargo de diretor em 1997, após regressar de um período de quatro anos em França. Manteve-se nessa posição até à sua reforma, ocorrida em 2022.

Embora pudesse ter-se aposentado muito antes de 2022, aceitou manter-se no cargo por questões éticas e de compromisso, uma vez que o Município ainda não tinha encontrado uma solução para a sua sucessão na direção da Expoeste.

Na década de 90 do século passado a Expoeste tornou-se uma referência, com a direção de António Marques a organizar duas a três feiras por mês.

O ex-diretor destaca que, pelo menos durante 15 anos, houve um fluxo constante de certames, incluindo a feira do automóvel, que chegou a ser a terceira melhor de Portugal. No entanto, houve várias alterações na economia que levaram a que este género de grandes feiras deixasse de fazer sentido.

Por exemplo, o setor automóvel enfrentou uma crise profunda ligada à tecnologia e, sobretudo, às questões energéticas. Perante a dificuldade em vender, as marcas optaram por concentrar os seus investimentos apenas no mercado de Lisboa, abandonando as feiras regionais, que antes eram acessíveis e dinâmicas.

António Marques destaca ainda o impacto da crise financeira global de 2008 como um fator determinante que afetou a realização de feiras de atividades económicas e da fruta, gerando uma crise generalizada que se fez sentir em todo o lado.

Por outro lado, lamenta a perda de identidade de certos eventos, como a Expotur, após a sua saída da Expoeste. “Ao perder o seu foco original relacionado com o turismo e o verão para se tornar apenas uma ‘feira das tasquinhas’, perdeu parte do seu estatuto e fôlego”, considera.

 

Deputado pelo PRD na Assembleia da República

 

Na década de 80, António Marques entrou na política nacional, sendo eleito deputado à Assembleia da República pelo círculo de Leiria (1985-1987) nas listas do PRD, sob a influência de Ramalho Eanes

Entre 1993 e 1997, regressou a Paris para exercer o cargo de Reitor Adjunto na Ecotec, uma universidade especializada em economia de construção. Dessa experiência destaca a sua admiração pelo sistema de formação em alternância francês, onde os alunos dividem o tempo entre a universidade e as empresas, garantindo quase 100% de empregabilidade.

 

Reforma dedicada à escrita e ao associativismo

 

António Marques reformou-se após 47 anos de serviço ao Município das Caldas.

No entanto, mantém-se muito ativo na área cultural: é presidente da associação que gere o Museu do Ciclismo e preside a várias assembleias gerais de associações.

Tem três livros publicados e continua a escrever poesia diariamente, mantendo o hábito de partilhar quadras alusivas ao dia com os seus amigos através de um grupo no Whatsapp.

Através do STAL, organizou recentemente uma grande exposição itinerante sobre o centenário de José Saramago, que percorreu mais de 80 concelhos.

António Marques define-se como um entusiasta da cultura popular, afirmando que “o povo sabe tudo” e que a cultura é também o que as pessoas sabem da vida real.

 

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