Q

Previsão do tempo

14° C
  • Friday 18° C
  • Saturday 20° C
  • Sunday 19° C
14° C
  • Friday 18° C
  • Saturday 20° C
  • Sunday 19° C
15° C
  • Friday 20° C
  • Saturday 22° C
  • Sunday 21° C
Escaparate

A alma exterior

EXCLUSIVO

ASSINE JÁ
Todos os dias vestimos a roupa que mais agrada aos outros. Frequentamos os lugares que nos indicam. Bebemos o que nos impingem em insalubres propagandas. Dizemos palavras que, na realidade, deveriam estar sempre silenciadas, por terem sido pensadas por mentes alheias à nossa. Resumindo: Vivemos para fora. As redes sociais, e o que os outros pensam de nós, vieram biblicamente alçar-nos a qualquer coisa de inútil.

Escaparate

Todos os dias vestimos a roupa que mais agrada aos outros. Frequentamos os lugares que nos indicam. Bebemos o que nos impingem em insalubres propagandas. Dizemos palavras que, na realidade, deveriam estar sempre silenciadas, por terem sido pensadas por mentes alheias à nossa. Resumindo: Vivemos para fora. As redes sociais, e o que os outros pensam de nós, vieram biblicamente alçar-nos a qualquer coisa de inútil.

A vontade dos outros, sobre a nossa, desmanchou-nos a alma interior.

Recuperar a nossa identidade, a nossa voz, a nossa consciência, é um trabalho exaustivo, penoso, quase impossível. E, será que o gostaríamos de fazer?

A síndrome do alheio abastece-nos de tal modo que confundimos a realidade da vida com a virtualidade das redes.

A maioria das pessoas, atualmente, acorda nervosa, irritada, destilando fel e arrogância. Como são vítimas da veleidade absorta, a primeira coisa que fazem, ao saltar da cama, não é dar continuidade à leitura de um livro, é, lamentavelmente, mergulhar os olhos pelas redes sociais, perscrutando o vazio que os outros destilam sem cessar, devido, justamente, à improficuidade das suas ações e pensamentos.

Johann Goethe (1749-1832) disse-nos que “O declínio da literatura indica o declínio de uma nação”. Neste momento virtual (obscuro) que vivemos, ler é um exercício tão difícil quanto correr uma maratona. Infelizmente, devido às nossas más práticas, absorvemos o que há de pior no pensamento humano, entregando à humanidade as mais tolas frivolidades, os mais débeis pensamentos, as mais patéticas ações.

O que poderia engrandecer-nos? Investir no nosso cérebro; na bondade que, se desejarmos, trazemos nos gestos; na alegria que possuímos na alma (e que não deixamos vir à tona); na mão que podemos estender a quem necessita. Temos de conseguir regressar ao mundo real, pois as práticas virtuais resumem-se (e atiram-nos) a uma insignificância inacreditável, a uma decadência enquanto humanidade.

Ser, versus parecer. Vida (quase) pública, versus vida íntima. Ao analisar o comportamento humano lembro-me do conto “O Espelho”, de Machado de Assis (1839-1908), escrito em 1882. Nele, o Bruxo do Cosme Velho explana acerca da nossa alma externa, e da conexão desta com o estatuto e a influência social, a impressão que os outros fazem de nós, etc., situações e factos que colidem com a nossa alma interna (a nossa verdadeira personalidade), rigorosamente (devido ao nosso parcial apagamento do mundo real), o que provoca os conflitos que abalam o planeta nos tempos que correm.

Ser o outro representa nada ser. Levando-nos a um caminho de ganância, arrogância e destruição do entorno. As consequências são gravosas, a maior de todas é a da letargia cerebral, que pode ocasionar a perda do raciocínio, da capacidade de pensar. E, assim, passarmos a viver mortos, zombies, ignavos, perfeitamente manipuláveis, dando voz a indivíduos regidos por interesses estranhos e dissimulados, cúmplices de todos os conflitos.

Como disse o meu querido Quincas Borba: “Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”. Nos tempos que correm, sem a prática da boa leitura, a subsistência deixa de ser racional. Não existirão vencedores. E as batatas…serão produzidas em FarmVille.

(0)
Comentários
.

0 Comentários

Deixe um comentário

Últimas

Artigos Relacionados

­A juventude Z vai formosa e não segura

Bela e airosa, mas cheia de dúvidas e receios — referindo-nos àquela juventude mais privilegiada, nascida entre 1990 e 2000 (chamada geração Z, sucedeu à geração Y ou millenial, que sucedeu à geração X, que sucedeu à dos chamados baby  boomers…), filha da burguesia delirante, não à outra, a menos ou nada privilegiada, que abandona o secundário e se faz à vida logo que a CPCJ deixa de andar em cima. Mas hoje a ansiedade e a insegurança dessa juventude Z, que negoceia e finta as projecções dos pais-helicóptero, são do tamanho do mundo ao alcance de um voo low cost. Ter perdido a espontaneidade de brincar na rua e ser levada de carro pelos progenitores, da creche à faculdade, também não ajuda à autonomia e à autoconfiança.

francisco martins da silva

Oeste e agora?

Estamos em 2024 e temos um novo governo. Um novo partido guia as opções futuras do país. Naturalmente, serão de esperar mudanças em várias áreas sensíveis, nomeadamente na saúde. Neste contexto cremos que uma decisão deve ser revista por quem agora dirige, no que à...