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Histórias do Termalismo

8. A Viagem de uma Banheira

Jorge Mangorrinha
19 de Abril, 2021
Não vos falo da famigerada banheira de pedra que seguiu das Caldas da Rainha para as Caldas da Imperatriz, no Brasil. Falo-vos de uma outra banheira antiga, em folha-de-flandres e antes pintada, já envelhecida e que é proveniente das Termas de Alcafache, no concelho de Viseu. A sua viagem até às Caldas foi na diagonal do interior do meu carro e não caberia se fosse mais comprida um centímetro. Presentemente, é o elemento central da instalação “Viagem ao Centro da Cidade” e evocativa de um “Templo da Água”, patente na Galeria de Exposições do Espaço Turismo, nas Caldas da Rainha.

A propósito, direi que o aproveitamento da água de Alcafache se foi fazendo livremente, ao longo dos séculos, pelas populações vizinhas, que ali acorriam. Era apenas utilizada em banhos de imersão e ingestão. Em 1924, o químico Charles Lepièrre analisou-a e classificou-a como hipertermal, sulfúrea e carbonatada sódica, nascendo a 51º de temperatura. A Câmara Municipal de Viseu foi durante muito tempo responsável pelo registo e pela exploração das águas, com bastantes dificuldades, devido aos problemas causados pela captação, em pleno leito do rio. A 25 de março de 1925, um relatório do facultativo municipal e diretor do Hospital de S. Pedro do Sul, o médico hidrologista Ferreira d’Almeida, intitulado “Caldas de Alcafache. Descrição das qualidades e importância medicinais da nascente”, refere que “o antigo e considerado clínico Bernardino Pais de Almeida, viseense ilustre”, enquanto presidente da Câmara, “visionou a obra grandiosa, bela e largamente prometedora, de canalizar para a sua Terra as Águas de Alcafache, metamorfoseando assim a antiga e já hôje florescente Capital da Beira Alta, num centro hodierno hidroterapêutico”. Este relatório serviria para o pedido de concessão da exploração das águas por parte da Câmara. Curiosamente, a 12 de maio de 1926, um empréstimo contraído pela Câmara à Caixa Geral de Depósitos tinha em vista a dita condução destas águas para o Fontelo, na cidade de Viseu, que não se concretizou, felizmente. Em Alcafache, havia pensões e casas, todas com banheiras, levando cada banheira 8 a 10 cântaros, conforme o desejo de cada doente, sendo cada cântaro pago por $10. Empregavam-se, neste trabalho, duas dúzias de mulheres e homens, em intenso corrupio pela madrugada. Segundo um relatório das condições locais dos Banhos de Alcafache e do reconhecimento das emergências (16 de dezembro de 1949), refere-se que as “pensões–balneário” tinham alojamento para os aquistas, “com certo conforto”, e séries de cabines com banheiras “muito perto dos quartos de cama”. A falta de interesse posterior do município levou à perda da concessão das nascentes. Com um período transitório em que foi transmitida a concessão ao médico Manuel Cardoso Pessoa, foram adquiridos, em 1955, os direitos de registo e concessão das nascentes pelo médico Eduardo Leal Loureiro e organizada a sociedade concessionária “Termas das Águas Sulfurosas de Alcafache, SARL”. Foi construído o balneário, inaugurado em 1962, mas continuou a tradição dos banhos de imersão em banheiras nos quartos de banho das casas de hóspedes. A água era canalizada para as casas, a partir da nascente, pelo sistema de distribuição do balneário. Dizia-se que em Alcafache se mantinha tal método apenas como medida de “concorrência” com as Caldas de S. Gemil, alvitrando-se que, desde que se conseguisse regularizar a situação em S. Gemil, os banhos a domicilio desapareceriam imediatamente de Alcafache. Mesmo após a entrada em funcionamento do balneário, não havia ainda energia elétrica na localidade, pelo que os banhos, no próprio balneário, foram durante dois anos enchidos a cântaro. E para acabar com o mergulho dos cântaros no tanque, este foi substituído por dez torneiras de água quente montadas encostadas à rocha. Os tempos mudaram, mas as antigas banheiras metálicas, e outras, sobreviveram, das quais veio esta, que cá fica e anima agora o olhar de quem visita a Instalação, junto à jovialidade desafiadora do manequim feminino, que lhe está à cabeceira, e às águas furtadas vertidas num garrafão de Luso, também ele simbólico neste contexto. Diferentes termas se unem aqui, talvez a premeditar um Centro que, para além da atividade termal, possa ter um conjunto de oferta institucional e pedagógica, sólidas, à volta da saúde e do turismo, enfim, do termalismo português, que nas Caldas é raiz, referência nacional e uma marca fundamental, a reviver, depois de reaberta a atividade na sua plenitude.

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