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Não suporto o meu marido…

José Lucas

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Outra vez o telefone!!! Por vezes apetece-me desligá-lo de vez, mas…ele faz tanto jeito…“Está? Bom dia, como vais?”. Esta frase prolongou-se por uns longos 36 minutos de conversa, em que o monólogo que vinha do outro lado ganhou por 10-0, à tentativa de diálogo. Ouvi, e fiquei feliz por verificar que já consigo ouvir…estou a aprender algumas coisas, nesta vida (sorrisos…)!

Um casal na casa dos 70 anos. As queixas do costume: “ele está insuportável, não o consigo aturar, não sei se aguento mais, qualquer dia vou embora, sem saber para onde e como.” Numa quase vã tentativa de opinar, lá para a 12ª tentativa, consegui “meter a ficha” e dizer qualquer coisa, no meio daquele rol de mágoas, ressentimentos, queixumes.

Falámos dos momentos de namoro deles, do casamento, do nascimento dos filhos, das alegrias, dos êxitos materiais, das oportunidades desta vida.

Do outro lado, lá vinha “pois é, foi tão bonito, quem me dera que fosse assim, mas agora é diferente, é uma tristeza”.

Vejamos o coleccionador de carros antigos.

Antes de serem antigos, eram modernos, fonte de todos os prazeres na condução, úteis. Depois, perderam a graça, ficaram velhos, uns sem peças, outros para a sucata, já não prestavam, diziam, pois outros modelos mais modernos tinham vindo para o seu lugar.

No entanto, há sempre quem seja obstinado, quem não desista de limpar e consertar o carburador, meter uma mola nova, um retoque na pintura e, quando se dá por ela temos um carro de colecção, extremamente valioso, que os outros ambicionam mas não conseguem comprar, pois o preço é exorbitante e raramente está à venda. Os donos dessas donas Elviras, quase sempre dizem que não os vendem, pois ali está um bocado do seu ser, do seu sentir, da sua vida. A analogia, surgida repentinamente, não podia ser mais certeira.

Na vida, temos o carro físico (o corpo de carne) que, quando jovem é bonito, activo, socialmente aceitável. De repente, é preciso mudar uma peça ou outra. Não é possível. Tem de ser remendado, num Hospital qualquer, através da gentileza e da competência de um cirurgião.

O Homem almeja por se reformar para ser feliz, trabalha contra a vontade. Chegou a hora da reforma e ele estertora, sem objectivos de curto, médio e longo prazo. Não vive, sobrevive, e como não se sente bem, tem de descarregar o seu mal-estar, frustrações, em alguém. Curiosamente, esse lixo tóxico, mental, é lançado sobre aquele que escolhemos para parceiro de uma vida. Um paradoxo da existência Humana.

De repente, outra frase que lera há dias, baila na mente: “a gentileza do entendimento”.

No meu cérebro, uma espécie de tornado de ideias nobres vão emergindo, do subconsciente ao consciente: “nunca discutir”, “mais vale ser feliz do que ter razão”, “não critique, auxilie”, “não acuse, ampare”, “não grite converse”, “ninguém gosta de ser criticado”, “tudo passa”…

Afinal é fácil viver em conjunto.

Penso no personagem incrível que foi Jesus de Nazaré, na sua paciência inesgotável no falar e no agir, trazendo, através da sua psicoterapia superior, as pílulas do entendimento, os comprimidos da paciência, as cápsulas da aceitação da vida, com a sua dinâmica em cada fase, o solvente da indulgência para com as faltas alheias, sem ser conivente com o erro.

Do outro lado do telefone, a voz da minha interlocutora voltou, mais calma: “Ah, quem me dera que fosse assim o mundo!”

É fácil, basta que cada um, no seu mundo íntimo se dedique a fazer ao próximo o que gostaria que lhe fizessem, a amar as pessoas como elas são, mesmo que discordem das suas ideias, que se veja que quando alguém rabuja, estrebucha, se queixa, está apenas, no seu grau de infantilidade espiritual, a pedir que o amem…

O amor, nos seus inúmeros níveis é sempre um banho de bem-estar que podemos fruir, através da prece sincera, espontânea, da leitura edificante que nos deixa marcos para o dia-a-dia, da meditação em torno do assunto…

Relembrando os momentos bons de outrora, podemos suavizar os mais difíceis de agora, na certeza de que amanhã, estaremos noutra estrada da vida, em nova aurora existencial. “Amai-vos uns aos outros”, sugeriu meigamente Jesus de Nazaré, há dois mil anos!

Porque esperamos?

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