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Herculano Elias

Morreu o mestre, fica a obra admirável

Francisco Gomes

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Foi um dos mais importantes ceramistas caldenses do último século. Faleceu no dia 26 de agosto, mas deixou um legado importante. Não apenas a obra, mas a forma de estar fê-lo conquistar admiradores. Mestre na verdadeira aceção da palavra, Herculano Elias reúne na sua carreira alguns dos momentos mais pujantes da cerâmica artística local.
1-Herculano Elias tinha 83 anos

Nascido em 1932, descende de uma família de ceramistas a destacar o seu avô, Herculano Elias e o seu tio-avô, Francisco Elias (o mestre Elias, criador das miniaturas em barro), ambos discípulos de Rafael Bordalo Pinheiro, e o seu primo Eduardo Mafra Elias. Ligado à família esteve Manuel Cipriano Gomes (o Mafra), o ceramista mais qualificado e com obra notável, anterior a Bordalo.

Fez as suas primeiras estatuetas em barro aos cinco anos. “Eu desenhei muito mais cedo do que comecei a escrever”, declarou ao JORNAL DAS CALDAS numa reportagem publicada em 2009.

Estabelece contato com as miniaturas do seu tio-avô, que iam a cozer na oficina do avô, e não mais deixou de se motivar por esta dimensão.

Herculano Elias está referenciado na cerâmica caldense em primeiro lugar pela miniatura, género que cultivava desde a década de 1950, dando continuidade a uma tradição de família.

Antes, tinha estagiado no ateliê do escultor caldense João Fragoso, em Lisboa, após a frequência do curso de ceramista na Escola Industrial e Comercial das Caldas da Rainha, desejoso de se aperfeiçoar nas técnicas de modelação com barro.

“Passei como ouvinte por esta escola aos onze, porque não se podia matricular com menos de catorze anos, e assistia às aulas. Ao mesmo tempo trabalhava na fábrica Bordalo Pinheiro com o meu parente José Elias. Também fui docente de cerâmica nesta escola”, recordou nessa reportagem.

Recebeu lições dos escultores Alberto Vale e Celestino Tocha, entre outros, e acabou o curso de modelador cerâmico com vinte valores. Entre 1944 e 1949 foi discípulo de Eduardo Mafra Elias, com que aprendeu a técnica das miniaturas em barro.

Requereu uma bolsa de estudo para frequência da Escola de Belas Artes, mas esta é-lhe negada em virtude dos seus pais terem uma loja de modesto negócio. Não desanima e mostra ao público pela primeira vez uma coleção de miniaturas, que surpreende quantos a admiraram. Tinha 17 anos. Esta exposição é feita no Palácio Foz, em Lisboa, e simultaneamente em Caldas da Rainha.

Iniciou a produção de cerâmica de autor em 1957. O mestre Herculano Elias trabalhou muitos anos na Secla, depois de ali ter ingressado, tendo contatado e colaborado com muitos dos artistas que por ali passaram, especialmente com a escultora, pintora e ceramista Hansi Stael.

Na Secla, chefia a oficina de pintura, é modelador criador e coordena o gabinete de estudos para a cerâmica de exportação.

Entre 1960 e 1970 está presente em exposições coletivas com cerâmica criativa. Torna-se monitor de um curso noturno para aprendizes de fábricas de cerâmica na Escola Industrial e Comercial.

Começou a executar murais cerâmicos para vários estabelecimentos comerciais e espaços públicos. A sua obra pública está patente em vários locais das Caldas da Rainha: Mural cerâmico na sede dos bombeiros voluntários; alegoria às quatro estações, escultura cerâmica no cruzamento da Escola Rafael Bordalo Pinheiro e o CCC; fonte (escultura cerâmica) no pólo do ambiente junto ao Cencal; mural cerâmico – Casa dos óculos, na Rua José Malhoa e no Banco Millennium, na Praça da Fruta e retrato de Vieira Pereira – escultura em bronze no átrio do Montepio Rainha D. Leonor, entre outros. A faiança, o grés, a refractária e a porcelana eram as pastas cerâmicas que utilizava nos seus trabalhos.

A sua obra integra miniatura, escultura cerâmica, mural cerâmico, retratos, cerâmica de autor e, mais recentemente, pintura, concebendo obras que puderam ser apreciadas em várias exposições.

Foi um dos primeiros, ou mesmo o primeiro formador do Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica das Caldas da Rainha (Cencal) quando foram iniciadas as suas atividades em 1983, ainda nos pavilhões do Parque, num curso de modelação e desenho para trabalhadores especializados das empresas das Caldas da Rainha e Alcobaça.

Depois voltaria amiúde para dar cursos no Cencal, especialmente de modelação em barro, onde era um mestre apreciado e muito procurado pelos seus formandos.

Recebeu a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro, atribuída pela Câmara Municipal das Caldas da Rainha, em 2002.

Em 2009 abriu a “Elias Galeria”, na Rua da Nazaré, nº 7-9, no Largo Heróis de Naulila, nas Caldas da Rainha, e o Rotary Club das Caldas da Rainha elegeu-o como Profissional do Ano Rotário.

É autor de uma vasta obra de que se destacam as suas miniaturas, ilustrativas dos hábitos, costumes e afazeres do povo e que constituem uma verdadeira galeria etnográfica a que a sua liliputiana dimensão confere uma original singularidade, desde a vendedora da praça que oferece as maçãs dispostas num cesto de vime colocado aos seus pés, ao saloio apoiado ao cajado retirando dos alforges suportados pelo burro os legumes e as flores colhidas ao nascer do sol, passando pelo pastor que toca o seu rebanho a caminho do pasto, para além dos presépios.

Herculano Elias lamentava a crise que se abateu na cerâmica das Caldas da Rainha e chegou a declarar que “a porcelana chinesa que chega a Portugal é mais barata que a faiança que se produz nas Caldas”. “Agora são os chineses que nos estão a dominar”, sublinhou.

Francisco Gomes

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