Em causa está, em primeiro lugar, o pagamento do fundo de compensação salarial referente ao período em que a apanha de marisco esteve proibida, em março e abril de 2025.
Por outro lado, os profissionais falam numa “bomba relógio” ambiental e social, acusando o Estado central de desprezo e alertando para riscos sérios à segurança e à sobrevivência da atividade.
Organizado pela Associação de Pescadores e Mariscadores Amigos da Lagoa de Óbidos (APMALO), o protesto juntou cerca de 20 pessoas, mas esta entidade representa mais de 100 profissionais licenciados para esta atividade.
Segundo Sérgio Félix, presidente da APMALO, cerca de 40 mariscadores aguardam por uma verba que ronda os 1.200 euros por trabalhador, correspondente a uma percentagem do salário mínimo nacional.
Para muitos, trata-se de um apoio essencial para assegurar despesas básicas como alimentação, eletricidade e água.
Os profissionais criticam ainda a atuação da Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos, que, alegadamente, terá solicitado o reenvio de documentação já entregue, justificando que os documentos perderam validade ao fim de quatro meses, enquanto aguardavam resposta da própria entidade.
A situação é descrita como “um gozo com quem trabalha”, agravando o sentimento de revolta entre os mariscadores.
O protesto decorreu junto às obras da aberta, financiada pelos municípios de Óbidos e das Caldas da Rainha, como forma simbólica de alertar para os problemas da Lagoa.
Os pescadores fazem questão de frisar que não contestam esta empreitada, mas acham que é insuficiente. As críticas dirigem-se à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e à Águas de Portugal, que acusam de inação perante o agravamento do assoreamento e as ameaças ao emissário submarino que ficou exposto devido à erosão costeira. “Foi preciso que as câmaras das Caldas e de Óbidos fizessem a obra”, salientou o dirigente, que sublinhou todo o trabalho que estas autarquias têm realizado na defesa da Lagoa.
Segundo os pescadores, o chamado “corpo inferior” da lagoa encontra-se praticamente tapado por sedimentos, restando apenas um canal estreito que permite a circulação das embarcações.
As consequências fazem-se sentir no dia a dia da faina: em maré vazia, os barcos deixam de conseguir encostar a cais ou rampas para descarregar o pescado.
A situação levanta também preocupações de segurança. “Não há um sítio na lagoa onde se possa descarregar uma embarcação para salvar alguém”, denunciou Sérgio Félix, sublinhando que, em caso de acidente, as operações de socorro podem ficar seriamente comprometidas.
Acresce a perda de bancos tradicionais de marisco, como na zona da “boca do rio”, considerados praticamente inutilizados devido à acumulação de sedimentos e proliferação de ervas marinhas.
Entre as reivindicações apresentadas está a implementação urgente de um plano de desassoreamento profundo e estrutural “no corpo inferior da Lagoa”, sustentado por investimento estatal em dragagens regulares.
Os profissionais defendem que o retorno económico da lagoa, em termos de produção de pescado e marisco, permitiria amortizar o investimento em cerca de dois anos.
Reclamam ainda condições básicas de trabalho, como balneários e uma doca adequada para a venda de marisco, considerando inaceitável que, em 2026, continuem a laborar em condições que descrevem como próprias do “terceiro mundo”.
Caso o emissário venha a romper, alertam, a eventual contaminação das águas poderá implicar o fecho da lagoa e a suspensão da atividade por um período prolongado, com impactos económicos devastadores para a comunidade piscatória.
Determinados a não deixar cair o tema, os manifestantes prometem manter a pressão sobre as entidades nacionais até que sejam adotadas medidas concretas para garantir o futuro da pesca e a recuperação ambiental da Lagoa de Óbidos, que consideram estar à beira do colapso.










