Oito milhões para o futuro, dez mil euros para o presente

26 de Fevereiro de 2026

Duzentas páginas de um orçamento planeado podem não chegar para explicar um pedaço de tecto que caiu em cima de uma funcionária do hospital Termal, mas oito milhões em forma de empréstimo parecem surgir com uma facilidade quase terapêutica.

 

Diz-se por aí que a Câmara das Caldas se prepara para contrair esse valor para fazer face a obras urgentes. Curioso é lembrar que transitaram cerca de onze milhões do ano anterior. Dinheiro que não foi executado porque as obras previstas não avançaram. Se tivessem avançado, o saldo não existia. Agora, ao que parece, esses onze milhões já voaram, e daí a necessidade súbita do empréstimo.

É uma aritmética simples, embora politicamente desconfortável. O dinheiro existia, as obras não. O saldo existiu, o dinheiro desapareceu.

Entretanto, a tempestade Kristin fez o que os relatórios raramente conseguem. Expôs o território real. Estradas partidas, pavimentos levantados, bermas destruídas. Só em arranjos viários, dizem autarcas e técnicos no terreno, oito milhões não chegam. Perante este cenário, a notícia de que cada junta de freguesia recebeu dez mil euros para reparações soa mais a gesto simbólico do que a solução. Para alguns, é dinheiro. Para a maioria, não chega para um troço de estrada.

Ainda assim, o empréstimo parece ter destino. A construção do novo balneário termal. O financiamento europeu poderá surgir, diz-se também, se conseguirem desta vez entregar a candidatura a tempo. O que não se diz é onde ficará, de quem são os terrenos ou em que condições se constrói. O balneário continua num estado quase metafísico. Anunciado, necessário, consensual, mas ainda sem morada conhecida.

Tudo isto acontece após quatro anos classificados como sendo de “mudança”, de “preparação”. Dessa preparação resultaram sobretudo obras iniciadas no executivo anterior e concluídas pelo actual executivo. A cidade, naturalmente, pergunta: que obras novas justificam agora oito milhões? Preparar é importante, mas há um momento em que a preparação deixa de ser estratégia e passa a ser modo de espera.

Enquanto o território contabiliza danos e as prioridades se acumulam, a vida festiva da cidade parece regressar ao calendário. A última grande iniciativa foi a Feira do Cavalo. Evento que nem mereceu publicação oficial nos canais do município. A divulgação ficou a cargo de pessoas singulares, sabe-se lá com que ligações e por que razão são elas a difundir a propaganda municipal. Coincidência ou não, existe um ajuste directo e, por sinal, já há escritório instalado na Expoeste, no mesmo espaço onde funcionou o Centro da Juventude.

Falta perceber se estamos perante mera assessoria de comunicação ou uma empresa privada com uma “Dica” repentina vocação institucional. Nada contra, apenas coincidências.

Agora fala-se no regresso das festas da cidade. Fogo-de-artifício, palco montado e música para animar a praça. Nada contra a música. Ela faz falta. Mas o contraste permanece difícil de ignorar. Uma cidade que pede reparação e um poder que ensaia o espectáculo.

E há sempre a pequena novela paralela. Os artistas convidados será um duo vindo de Peniche, competente e apreciado por muitos. A escolha levanta sobrancelhas não pela música, mas por quem a promove, a figura conhecida pelos muitos chapéus que usa. O último de mediador entre o presidente da assembleia municipal e do presidente da câmara. A curiosidade política que pode gerar ver este teatro.

Mas mais interessante ainda será observar o sentido de voto do vereador que dispensou senhas de presença quando tiver de aprovar a contratação de um duo associado a um estrato social que o partido que o apoia não se cansou de caricaturar pelo país. A coerência, às vezes, também sobe ao palco.

No meio disto tudo, permanece a sensação de que a cidade vive entre duas realidades. A da reconstrução necessária e a da programação festiva. A do dinheiro que sobra no papel e a das obras que faltam no terreno. A dos projectos anunciados e a das infra-estruturas que continuam sem localização.

Talvez seja essa a síntese caldense do momento. Estradas por reparar, um balneário sem sítio, milhões que aparecem e desaparecem conforme o parágrafo, e um fogo-de-artifício pronto para iluminar o céu sobre crateras recentes.
A cidade não precisa de efeitos especiais. Precisa que o chão deixe de ceder.

Até para a semana.

 

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