Sempre que ocorrem atrasos graves no socorro, a reacção pública é imediata e compreensível: faltam meios. A resposta mais comum segue o reflexo do reforço: anunciar mais recursos, acrescentar capacidade, ampliar resposta.
Mas é precisamente aqui que a leitura falha: reforçar pode ser necessário; o erro é acreditar que, por si só, resolve quando o bloqueio está noutro ponto do circuito.
A pergunta decisiva não é “quantos meios existem”. É outra, mais exigente e menos fotogénica: o sistema consegue transformar recursos em disponibilidade real no território – ou vai deixá-los ser absorvidos por um gargalo que se repete todos os Invernos?
O circuito que prende capacidade
É precisamente aí que a capacidade se perde: não por ausência, mas por retenção. Na maioria dos episódios, o problema raramente está no momento do despacho. Está no fim do percurso.
O meio chega ao hospital com o doente e fica retido. A transferência demora, o circuito de admissão não escoa, a decisão clínica tarda, e a saída de doentes não acompanha a entrada. Quando a retaguarda – clínica ou social – não absorve o que já não precisa de estar ali, o hospital deixa de ser apenas destino: torna-se travão. Nesse intervalo, o recurso móvel deixa de cumprir a sua função: não regressa ao território, não volta a responder, não protege a comunidade. Não falta: fica preso.
É por isso que, em textos publicados no âmbito do Projecto Oeste Azul, se tem insistido num ponto simples: capacidade não é aquilo que se anuncia. É o tempo em que o recurso está efectivamente disponível. Um sistema pode proclamar reforços e, ainda assim, responder pior, se uma parte relevante dos meios ficar horas indisponível por bloqueios previsíveis – nos mesmos picos sazonais, ano após ano.
As descrições do problema são, muitas vezes, correctas: faltam macas, faltam camas, falta continuidade de cuidados, falta retaguarda. Tudo isso é verdade. Mas a pergunta que decide tudo quase nunca entra no centro do assunto: quanto tempo demora a capacidade a regressar ao território depois de entrar no hospital? Quando esse tempo é conhecido mas não governa decisões, não há gestão –há relato.
É nesse ponto que “devolver capacidade” deixa de ser frase e passa a ser critério. Um hospital que devolve capacidade é aquele em que a recepção tem meios próprios para receber sem capturar recursos externos; em que a transferência não depende de sorte, mas de organização; e em que o bloqueio, quando surge, se torna visível – não como rumor de corredor, mas como tempo contado.
Nos sistemas que respondem melhor, esse tempo não é um acaso nem uma gentileza. Obriga a organizar a recepção, separar fluxos, acelerar transferências e expor o que, de outro modo, ficaria escondido. Quando a urgência é tratada como fluxo – e não como sala de espera infinita – a maca deixa de ser o recurso mais disputado do sistema e o socorro deixa de ser usado para compensar falhas a montante.
A retaguarda, neste desenho, não é lateral. É a peça que impede que o hospital funcione como parqueamento clínico e social. Sem saída, a entrada transforma-se em bloqueio. E, quando isso acontece, nenhum reforço – por maior que seja – consegue vencer um circuito que não devolve.
Daí que certas palavras ganhem aqui conteúdo real. Literacia funcional é distinguir urgência de emergência – e proteger a emergência. Integração é fazer com que a primeira linha resolva com rapidez o que não precisa de hospital, impedindo que este se torne a porta automática de tudo. Interoperabilidade é partilhar estado útil – tempos, bloqueios, capacidade – para que a rede não opere às cegas. Quando isso não acontece, cada componente trabalha como ilha e os recursos são consumidos onde não deviam.
Quando o custo é o tempo
Há ainda um aspecto raramente colocado no centro: o custo verdadeiro começa depois da decisão. Reforçar recursos implica custos permanentes e complexidade acrescida. Se o reforço for absorvido por retenções previsíveis, transforma-se em capacidade parada com custo contínuo. Se for libertado por um circuito que funciona, transforma-se no que deve ser: tempo salvo.
Por isso, a pergunta já não é apenas se devíamos reforçar. É se teremos a maturidade de usar qualquer reforço como ponto de inflexão – medir indisponibilidades, expor bloqueios, corrigir circuitos e devolver capacidade ao território. Numa realidade sazonal e recorrente, insistir sem corrigir não é azar. É método.
No fim, o desperdício não está no número de recursos. Está nos minutos em que o socorro não regressa ao território. Enquanto a capacidade não for devolvida em tempo útil, qualquer reforço será absorvido pelo mesmo ponto cego.
O problema não se resolve num stand de automóveis.
Resolve-se quando o hospital devolve ao território a capacidade que dele retém.
José Filipe Soares – MSc em Engenharia e Tecnologias da Saúde, MBA em Gestão; autor do Projecto Oeste Azul. Escreve sobre governação em saúde, prevenção e inteligência territorial.
Nota do autor: Mantém-se a ortografia tradicional da Língua Portuguesa, por respeito à sua matriz histórica e etimológica. Evoluir não implica apagar raízes.









