Caldas, o mapa de pessoal e a política da vitimização

31 de Janeiro de 2026

Há derrotas que ensinam.

E depois há o PSD.

Nas Caldas da Rainha, o partido continua a provar que não aprendeu a negociar quando deixou de governar. Do outro lado, o Presidente da Câmara percebeu rapidamente uma coisa simples: governar dá trabalho, explicar dá ainda mais, mas vitimizar-se é rápido, eficaz e politicamente rentável. “Não me deixam trabalhar”, “eu vim para mudar”, “mas faço como eles faziam”. Um guião antigo, bem oleado, usado sempre que a governação emperra ou quando não há vontade, ou capacidade, para explicar opções.

Tudo isto por causa do mapa de pessoal.

Fala-se em cerca de cinquenta novos postos de trabalho. Número sonante. Mas a realidade é menos dramática. Apenas oito são para a educação, mais oito em regime precário. Dezasseis. Nem metade. Mas explicar números exige transparência. Muito mais fácil é colocar os pais contra a oposição e insinuar que as escolas podem fechar. A chantagem emocional é sempre mais rápida do que a explicação política.

E há uma pergunta que ninguém quer fazer: se todos os anos faltam funcionários nas escolas, será apenas por causa das aposentações e baixa por doença? Ou há um problema sério nessa carreira? Salários baixos, desgaste, falta de progressão e de reconhecimento? Talvez seja mais confortável falar de mapas e votações do que assumir que há funções essenciais que ninguém quer exercer durante décadas nas condições atuais.

O PSD, previsivelmente, caiu na conversa.

Em vez de negociar ou pedir o assunto baixasse à comissão, votou contra. Chumbou na Câmara, mesmo com o voto de qualidade do Presidente, curiosamente um homem do diálogo, e voltou a chumbar na Assembleia. Muito barulho, pouca estratégia. Mal organizado, mal preparado e politicamente curto, preferiu cair na praça pública como carrasco de uma governação feita à base de papel timbrado.
Curioso, aliás, o uso do voto de qualidade por um Presidente que se apresenta como homem do diálogo, dos consensos e da conversa. O mesmo que pediu propostas aos partidos para o orçamento, mas depois não anunciou nenhuma. Nem uma. É aquela democracia seletiva: aberta quando convém, fechada quando dá jeito.

Pelo meio, o Chega dança. Na Assembleia questiona e confronta. Na Câmara a abordagem é outra. Aproveita. Uma proposta aqui, outra ali, discurso tecnocrático quanto baste, de modo a racionalizar o “ISSO da qualidade”. E assim passa outra vez pelos pingos da chuva. E atenção: tem chovido bastante.

Mas há um ponto onde todos falham. Todos. Governação e oposição.

Ninguém pensa nos funcionários municipais. Trabalham décadas na sombra e, quando se reformam, recebem uma garrafa de vinho ou um ramo de flores. Como se num gole se apagassem 30 anos de serviço público. Como se num suspiro se esquecesse quem manteve o município a funcionar.

Os políticos parecem esquecer que os funcionários são o braço armado das políticas. Sem eles, nada sai do papel. Ainda assim, prefere-se a homenagem simbólica e a colocação de pessoas afetas aos partidos, em vez de valorizar quem tem competência e formação. É transversal. Não é exclusivo de ninguém. É cómodo.

No fim, ninguém fica bem.
Um PSD que não aprendeu a negociar.
Um Presidente que prefere vitimar-se a explicar.
Uma política local feita de ruído, oportunismo e pouca visão.
Uma governação que confunde consenso com silêncio.
Uma oposição que prefere ruído a estratégia.
E os problemas reais continuam à espera.
E funcionários que continuam a segurar a máquina sem respeito real.

Assim vai a política local, entre vítimas de ocasião, carrascos improvisados e dançarinos de oportunidade, enquanto os problemas reais ficam sempre para depois.

Até para a semana.

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