O livro, a cargo da Âncora Editora, foi lançado em novembro, na Casa da Imprensa em Lisboa.
Com raízes familiares nas Caldas e casa em Tornada, onde passa fins-de-semana e férias, o autor refere que a cidade caldense é por onde várias personagens “adoram peregrinar, saltando da Rua das Montras para o Café Central e depois para o Parque”. Quanto a Tornada, é onde se continua a manter o ritual da festa de São Brás, e São Martinho do Porto, “que no verão se torna um cada vez maior ‘melting pot’”.
Com a ação centrada no fictício Palace Hotel Cais dos Amores, em São Martinho do Porto, o romance cruza os bastidores do jornalismo nos anos que antecederam o 25 de Abril com a evolução social e urbana da região, que, como observa o autor, “nada melhor se compreende do que percorrendo a avenida circundante da baía”.
JORNAL DAS CALDAS: Este é um livro com muitas histórias que davam para vários livros. Ainda tem muitos livros dentro de si para escrever?
Faria Artur: Essa é uma pergunta própria de um jornalista atento, que, enquanto repórter, já imagina a diversidade de histórias que eu poderia desenvolver no futuro…reconheço, pensando bem, que “Segredos à Solta no Cais dos Amantes” deixa pistas para criar novas ficções, onde poderia renascer alguma personagem que me desse prazer dar-lhe vida em contexto diverso.
Isto, porque adoro imaginar uma ou outra personagem deste novo livro a “navegar” por outras paragens – não necessariamente fora da Região Oeste – encenando ações que se integrassem na minha maneira de ver o mundo. Situações onde não faltassem amores e desamores, encontros e desencontros, e realidades, algumas recordando momentos da nossa história recente, desde a Guerra Colonial até à Revolução dos Cravos, e enquadradas na nova conjuntura social, local e não só. Porém, sem necessidade de as restringir a uma única região.
No “Segredos à Solta no Cais dos Amantes” as personagens também viajam por zonas exteriores à Região Oeste, chegam mesmo a Roma e Barcelona…
J.C.: Ao longo dos livros publicados há personagens que se repetem?
F.A.: Não diria que se repitam exatamente, mesmo considerando como é lugar comum afirmar-se quanto à história, que esta se repete duas vezes, a primeira como tragédia e a segunda como farsa…se pegarmos em livros anteriores, “Perdidos num Verão Quente”, “Amor, Ioga e Net ou a Crónica do Senhor Alferes” e “Por entre os Trilhos da Memória”, poderemos constatar temas comuns, a Guerra Colonial ou a Revolução dos Cravos, localizações como a Região Oeste, nomeadamente as Caldas da Rainha, Lisboa ou Porto, mas não no contexto da ação. Diria mais, não a nível comportamental, pois essas personagens encontram-se enquadradas em situações diferenciadas que determinam outro género de emoções. Agora aceito que o Pedro Antunes, conhecedor dos meus livros de ficção, os meus romances, me faça uma provocação. A construção é bem diversificada…contudo, poderá haver uma personagem cujo comportamento emocional e afetivo conduza a tal leitura.
J.C.: Há sempre uma personagem que é autobiográfica?
F.A.: Claro que a ficção passa, obrigatoriamente, pelo nosso olhar, ou seja, pela nossa leitura da sociedade onde estamos integrados. Esse olhar pode encontrar-se mais próximo ou afastado do sentimento e da compreensão daquilo que nos rodeia. Depois, naturalmente, a criatividade determina a construção da ação, diria do erguer do pacote, que, neste caso, é um romance. No caso dos meus livros sinto-me bem a construí-los tendo em atenção a Região Oeste, nunca esquecendo Tornada (Caldas da Rainha) para onde me levaram logo que nasci.
J.C: A partir de que histórias deste último livro pensa poder vir a escrever mais?
F.A.: Diz o povo na sua infinita sabedoria que não devemos regressar aonde fomos felizes…ora bem, tenho a consciência que a peculiaridade de algumas das histórias que integram a ação de “Segredos à Solta no Cais dos Amantes” podia, separadamente, permitir que fossem recriadas em outras situações. Mas não penso ir “pescá-las” novamente para outro livro, porque foram geradas num determinado contexto. Morreram ali. A criatividade há-de permitir descobrir novas personagens para ocuparem outras conjunturas.
J.C.: De que forma a ligação a esta região teve mais influência neste livro?
F.A.: “Segredos à Solta no Cais dos Amantes” só podia ter como centralidade a Região Oeste. Tudo por causa de cenários como São Martinho do Porto, Caldas da Rainha, Tornada, Foz do Arelho, Nazaré, devido à sua especificidade – contraste de paisagem (aquele mar, aquelas formas de ocupar os campos agrícolas) gastronomia, cultura, afetividade da população e sei lá mais o quê…tanto, tanto!
Ora, se eu fui levado para Tornada – ainda de mama, apesar de mais tarde ter regressado a Lisboa – tinha de manter forçosamente ligação regular à terra (fins-de-semana e férias) da minha mãe, à casa da avó Cândida. Não podia afastar-me, antes aproximar-me sempre que possível à região. Aqui fiz amigos, muitos e bons, e beneficiar dos ares que me ajudaram a crescer…
J.C.: Caldas da Rainha, São Martinho do Porto e Tornada estão muito presentes. De que forma tem visto a evolução destas localidades?
F.A.: No meu livro, Caldas da Rainha, Tornada e São Martinho do Porto têm, na verdade, lugar de destaque. Caldas por onde várias personagens adoram peregrinar, saltando da Rua das Montras, para o Café Central e depois para o Parque, Tornada (freguesia Tornada/Salir do Porto), onde se continua a manter o ritual da festa do São Brás, e São Martinho do Porto, onde está centrada a ação do livro, a partir do Palace Cais dos Amores. Quem como eu as acompanhou ao longo dos anos, só pode ir buscar como termo de comparação a noite e o dia. Caldas conquistou a modernidade. Tornada surpreende, nomeadamente, pelas gentes que por aqui se tem aboletado, e São Martinho torna-se no verão um cada vez maior “melting pot” – nada melhor para compreender isso do que percorrer a avenida circundante da baía.
J.C.: Para si, o que representa o Palace Hotel Cais dos Amores?
F.A.: Como já assinalei anteriormente, o Palace Cais dos Amores, hotel de charme, onde decorre grande parte da ação, encontra-se virado para a baía, junto à avenida marginal. A ficção permitiu criar-lhe um historial, por onde perpassa a narrativa da sua génese, primeiro enquanto palacete mandado construir por um emigrante brasileiro, posteriormente a decisão dos seus herdeiros, em tempo da Revolução de Abril, o venderem…Mário, um ex-alferes combatente na Guerra Colonial, jornalista, farto de Lisboa, decide transformar o palacete num hotel de charme…
O livro encarrega-se de contar tudo desde o seu funcionamento e respetivo pessoal até ao quotidiano vivido por alguns residentes e frequentadores habituais. E ali encontramos figuras como uma pintora; um coronel sempre zangado com os ex-milicianos; uma ex-professora, agora produtora de frutas, e a sua futura nora, uma jovem com vida dupla; a gerente da unidade hoteleira, a Ana, o Lopes que controla tudo e todos…enfim, gente sui generis. O Cais dos Amores acaba por ser um local de encontros e desencontros e de estranhos quotidianos…
J.C.: A idade com que começou a editar livros permite-lhe ser um narrador mais distante, até em questões de “amor”, ao mesmo tempo que fala das formas mais modernas de relacionamentos?
F.A.: A minha carreira profissional passou sempre pelo papel impresso – os jornais. A casa-mãe foi o Diário de Notícias, uma autêntica escola de bem-fazer, independentemente das acusações feitas no concernente à sua orientação política em diferentes momentos da vida portuguesa. O jornalismo é um devorador do tempo, da vida, daí ter publicado o meu primeiro livro em 2012, o “Perdidos num Verão Quente”. Mas a experiência profissional obrigou-me a olhar o mundo nas suas várias componentes. Permitiu-me conhecer os bons e os maus, contudo, sem nunca poder «desejar quer ganhem os bons, já que ignoro quem são», como escreveu Torrente Balester. A minha escrita comporta, assim, os bons e os maus…nunca esquecendo, porém, o novo…
J.C.: O estado atual do jornalismo também está patente neste último livro. É algo que o preocupa?
F.A.: Num tempo em que a comunicação social, aqui cinjo-me aos jornais, tende a ser substituída pelo palavreado das redes sociais, não posso deixar de ficar, pelo menos, preocupado. Tantas vezes espantado, receoso e chocado com o panorama que se apresenta. Mas, claro, resistente, esperançoso e crente em melhores dias para o papel impresso. Os jovens jornalistas, na sua maioria, são resistentes e criativos. Neste meu livro recorda-se como era o ambiente de uma redação, desde o antigamente passando pelo período envolvente da Revolução de Abril – onde se narram cenas desconhecidas do grande público – até ao período seguinte, o da denominada normalização.
J.C.: Como é que um antigo grande repórter e editor do Diário de Notícias olha para a comunicação social atual?
F.A.: A outra face da minha resposta pode ser encontrada num capítulo do “Segredos à Solta no Cais dos Amantes”, “Roubo fica em Família”. Um diálogo estabelecido no encontro de dois antigos jornalistas, o Mário e o Carlos, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, quando aquele se dirigia para uma almoçarada no João do Grão.
Registo as palavras do Carlos: «…só pretendo chamar a atenção do pessoal mais novo para a actual situação nos jornais, que são geridos como se fossem mercearias. Uma exploração desenfreada dos estagiários, nem sequer lhes pagam o passe para os transportes; fretes incomensuráveis; publicidade encapotada; desprezo pela memória…enfim!».








