E quando isso acontece, o risco já não é apenas político – torna-se biológico. Aquilo que uma sociedade tolera, repete; o que repete, normaliza; e o que normaliza instala-se no corpo: no stress crónico, no sono fragmentado, na inflamação silenciosa, na ansiedade colectiva que se torna modo de vida.
O Estado como fábrica de realidade
A partir desse momento, o Estado deixa de ser apenas administração de recursos: passa a funcionar, também, como fábrica de realidade. Não porque “inventa” o mundo, mas porque define o que conta como assunto, o que é permitido questionar e o que deve ser aceite como inevitável. E quando as instituições passam a gerir percepções em vez de corrigir factos, o custo acaba sempre por aparecer onde não há retórica que o compense: na vida concreta das pessoas.
O critério que protege: prudência
Este texto não é um julgamento moral nem uma disputa identitária. É a defesa de um princípio simples, que deveria ser consensual numa sociedade adulta: decisões com impacto elevado e difícil reversão exigem critérios fortes, transparência e responsabilidade – sobretudo quando envolvem vulnerabilidade, desenvolvimento e tempo.
Na saúde, isto seria impensável. Nenhum profissional sério decide por percepções ou alinhamentos simbólicos. Decide com história clínica, dados, avaliação risco-benefício e acompanhamento. E a regra é universal: quanto maior a irreversibilidade, maior a exigência de prova e prudência.
Quando a evidência é insuficiente
É por isso que, nos últimos anos, instituições de referência no Reino Unido travaram ou reconfiguraram decisões clínicas de grande impacto em menores por um motivo que deveria ser óbvio numa democracia madura: a evidência disponível é insuficiente. O impulso de “afirmação rápida” foi travado por uma palavra que devia ser sagrada na administração pública: incerteza – não como desculpa, mas como sinal de responsabilidade.
A incerteza, quando bem usada, não paralisa. Protege.
Protege o doente, protege a confiança no sistema, protege o futuro. E obriga o Estado a fazer aquilo que tantas vezes evita: assumir limites, exigir melhor prova, criar mecanismos de avaliação e prestar contas.
O primado da evidência
É aqui que entra um conceito quase esquecido: o primado da evidência. Não como tecnocracia fria, mas como condição mínima de justiça. Porque quando as instituições trocam evidência por pressa, e prudência por alinhamento, não estão apenas a decidir – estão a criar precedentes. E um precedente institucionalizado transforma-se em cultura; quando vira cultura, torna-se rotina.
Quando questionar passa a ser perigoso
O problema, portanto, não é haver posições diferentes. O problema é tornar perigoso questionar. É substituir critérios por narrativas, resultados por intenções, auditoria por alinhamento. Porque quando a dúvida legítima passa a ser tratada como ameaça, o sistema deixa de aprender – e passa apenas a repetir.
E sem aprendizagem não há reforma. Há trajectória.
E “trajectória” é o nome polido do erro quando já ninguém o pode travar.
Do abstracto ao verificável
Se isto parece abstracto, não é. Em políticas públicas, evidência chama-se indicadores publicados, auditoria independente e correcção visível quando algo falha. Sem estes três instrumentos, a narrativa vence sempre – porque nunca chega a ser confrontada com resultados.
Biologia como variável clínica
Na saúde, o sexo não é uma opinião: é uma variável biológica com consequências clínicas.
Serve para prevenir, diagnosticar, tratar e medir risco – e é por isso que dissolver um facto biológico em categorias culturais mutáveis não é “inclusão”: é perda de rigor. Há condições raras do desenvolvimento sexual que exigem cuidado clínico; não criam novos sexos. O que mudou não foi a biologia humana – foi a narrativa. E quando a narrativa entra no lugar do critério, o Estado deixa de proteger e passa a formatar. A clínica integra contexto; não abdica de variáveis.
Universo 21, “Cidadania” e o poder do contexto
Há uma lição dura no Universo 21: quando um ambiente troca referências por estímulos, o colapso começa pela desorientação. “Cidadania” falha quando substitui pensamento crítico e limites por doutrina. O Estado não fabrica pessoas: desenha contextos – e os contextos acabam sempre por governar o corpo.
Quando questionar passa a ser perigoso, o erro deixa de ser corrigível – torna-se inevitável.
Resultados, não narrativa
Uma democracia funcional precisa de pluralidade, sim. Mas precisa ainda mais de um critério comum para decidir. Esse critério, em políticas públicas com impacto no corpo, chama-se evidência. Não como fetiche técnico, mas como compromisso ético: decidir com base no melhor conhecimento disponível, declarar o grau de incerteza e criar mecanismos de monitorização que permitam corrigir sem teatro e sem negação.
Um Estado moderno não se mede pelo número de anúncios nem pela elegância das narrativas. Mede-se por impactos verificáveis: o que melhorou, quanto custou, o que falhou e o que foi corrigido. Mede-se por instrumentos simples e públicos: metas claras, indicadores compreensíveis, auditoria independente e responsabilização efectiva.
A pergunta final
O Projecto Oeste Azul parte exactamente desse princípio operacional: prevenir exige medir. Sem indicadores não há avaliação; sem avaliação não há responsabilização; sem responsabilização, a política torna-se imune ao real – e o real cobra sempre no lugar mais sensível: nas pessoas.
A pergunta final é simples e incómoda por ser inevitável: num país que exige evidência rigorosa para aprovar um medicamento, por que razão aceitamos decisões irreversíveis na vida real com menos prova, menos monitorização e menos responsabilidade?
Quando o Estado troca realidade por narrativa, o corpo paga – primeiro sem manchetes, depois em números.
José Filipe Soares
MSc Engenharia e Tecnologias da Saúde · MBA em Gestão
Nota do autor: o texto segue a ortografia culta da Língua Portuguesa, por respeito à sua matriz histórica e etimológica. A evolução da língua não exige o apagamento das raízes.








