Envolvido em assassinato de jornalista desportivo no Brasil detido nas Caldas da Rainha para cumprir 14 anos de cadeia

22 de Janeiro de 2026

A Polícia Judiciária deteve na semana passada, nas Caldas da Rainha, um homem de 41 anos, que em 2012 esteve envolvido no assassinato de um jornalista desportivo no Brasil. Vai agora cumprir a pena de 14 anos de cadeia a que foi condenado.

 

Marcus Vinicius, de 41 anos, foi um dos quatro condenados pela morte do radialista Valério Luiz, de 49 anos, em Goiânia, no Brasil, a 5 de julho de 2012.

O jornalista desportivo criticava a direção do Atlético Clube Goianiense, não só pelo seu desempenho na série A do campeonato brasileiro, mas também já tinha denunciado alegados casos de corrupção e utilização de drogas nos jogadores.

As ameaças de morte a Valério Luiz foram consumadas. Segundo a justiça brasileira, depois do processo se ter arrastado ao longo de mais de uma década, eis que se concluiu pela condenação efetiva. Um ex-vice-presidente do clube foi o mandante do crime: apanhou 16 anos, assim como o executante – autor de vários disparos que atingiram o jornalista quando ele conduzia um carro, à saída da estação de rádio em que trabalhava.

A 14 anos foram condenados o homem que contratou o atirador e o agora detido nas Caldas da Rainha, que ajudou a planear o assassinato.

Foi o filho da vítima que descobriu, através do Facebook, que Marcus Vinicius estava em Portugal, na região das Caldas da Rainha, ao ver fotografias com a família, uma delas até mesmo a agradecer a Deus por uma segunda oportunidade.

Em 2014 quando tentou entrar com o pedido para regularizar a sua situação em Portugal como residente e não mais como turista, foi capturado e extraditado para cumprir prisão preventiva. Mas devido aos recursos que fizeram o processo estagnar, ficou em liberdade e voltou para Portugal.

Agora parece haver uma sentença definitiva e a detenção foi realizada pela Unidade de Informação Criminal da Polícia Judiciária. O detido, que trabalhava na construção civil, estava com situação regular em território nacional.

Foi presente ao Tribunal da Relação de Coimbra, para aplicação de uma medida de coação. Ficou em prisão preventiva até o processo de extradição ser concluído.

 

Sete tiros disparados

 

Valério Luiz foi morto depois de deixar os escritórios da Rádio Jornal 820 AM. Quem o matou estava à sua espera na entrada da estação quando o jornalista saía. Tentou fugir quando se apercebeu do homem numa mota, mas o seu carro colidiu com outro veículo que estava estacionado na rua. Após o acidente, o motociclista disparou sete tiros, na janela do veículo do radialista, do lado do condutor. A polícia diz que foi atingido por entre quatro a seis dessas balas. O atirador fugiu.

O filho de Valério Luiz, com o mesmo nome do pai, era advogado dedicado a assuntos tributários na época em que aconteceu o crime. Num texto que escreveu originalmente para a Pública, agência de jornalismo de investigação, descreveu ao pormenor a razão pela qual mataram o progenitor, com quem vivia.

“O meu pai comentava futebol das 12h00 às 14h00 na Rádio Jornal 820 AM. Era conhecido como ‘o mais polémico da rádio’ por não medir palavras nas ácidas críticas que dirigia às gestões dos cartolas [dirigentes] goianos. Citava nomes e fatos concretos, fugindo dos comentários genéricos adotados por outros profissionais”, relatou.

O filho estava à espera dele em casa, quando recebeu um telefonema às 14h22 a dizer que o pai tinha sido assassinado.

“Num dia normal, no máximo às 14h15, o seu Ford Ka preto já estaria estacionado no portão. A rádio ficava perto”, indicou.

Foi ao local do crime onde, cercado por faixas de isolamento, o carro estava parado na diagonal, com as duas portas abertas e os vidros crivados de balas.

“Um detalhe me perturbou particularmente: o pé do meu pai pendendo para fora do carro. Não tive coragem de me aproximar. Fiquei parado, incrédulo. Ainda assim, precisei dar a notícia à minha irmã caçula, que ligava sem parar: ‘Nosso pai morreu, Laura’”, recordou, acrescentando que “minutos depois chegou meu avô Manoel de Oliveira, radialista e jornalista há 50 anos”. “’Mataram o meu filho!’”, gritou”, descreveu.

Nos depoimentos na Delegacia Estadual de Homicídios, todos os colegas do pai, tanto da Rádio Jornal quanto da PUC-TV, onde era comentador do programa Mais Esportes, concordaram num ponto: recentemente tinha havido uma escalada nas severas críticas do jornalista à direção do Atlético Clube Goianiense, que numa ascensão meteórica saíra da série C para a série A do Campeonato Brasileiro, mas encontrava-se em má fase na competição de 2012.

Uma figura em particular se destacava: o poderoso empresário Maurício Sampaio, então vice-presidente do clube, cargo que ocuparia até poucos dias antes do assassinato. “Ele era um velho conhecido do meu pai. Cinco temporadas antes, em 2007, o meu pai viajara ao Piauí para narrar, pela TV Brasil Central, o jogo Barras-Atlético. Hospedado no mesmo hotel do clube goianiense, ele afirmou ter descoberto uma tentativa de compra da partida. Duas temporadas depois, em 2009, denunciou o uso de drogas por alguns jogadores nas dependências do clube. Foi processado. Quem compareceu à audiência foi o próprio Maurício, mas a ação judicial não seguiu adiante”, contou Valério Luiz Filho.

Porém, nada se compara com o primeiro semestre de 2012, quando as críticas à direção do clube se intensificaram, causando tensão pública.

“’O Atlético está na série A, mas não é time de série A, não”, disparava o meu pai nos seus programas”, lembrou o filho, apontando que o jornalista atribuía a escalada do clube a uma injeção de dinheiro oriunda de “patrocinadores tenebrosos”, envolvidos em escândalos financeiros e de corrupção.

“O trabalho do meu pai seria só comentar futebol, se fosse apenas futebol. Acontece que não é”, manifestou, revelando que o pai começou a transportar consigo, secretamente, uma pistola taser, “para proteção”.

 

5 arguidos, 4 condenados

 

Após um longo processo judicial, com recursos que retardaram a aplicação da justiça, inclusive até mantendo os arguidos em liberdade, em abril de 2024 a decisão do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás manteve a condenação de quatro homens pelo assassinato.

Maurício Borges Sampaio, ex-presidente do clube de futebol Atlético Goianiense, foi condenado a 16 anos de prisão por ordenar o crime. Foi o mandante.

Ademá Figueredo Aguiar Filho, apontado como autor dos disparos, recebeu igualmente uma sentença de 16 anos. Foi o executante.

Urbano de Carvalho Malta e Marcus Vinicius Pereira Xavier receberam sentenças de 14 anos. O primeiro, acusado de contratar o policial militar Ademá Figueredo para cometer o homicídio. Foi o contratante. O segundo foi ajudante dos outros no planeamento do crime.

Djalma Gomes da Silva, que foi acusado de também ter ajudado no planeamento do assassinato e de ter atrapalhado as investigações, foi absolvido.

O brasileiro que foi detido nas Caldas da Ranha possuia no Brasil um talho, mas já tinha passagens pela polícia por assalto e roubo de carros.

Durante o inquérito contou que o sargento Djalma Gomes da Silva, seu cliente, o procurou, na companhia de Urbano de Carvalho Malta, a solicitar a sua intervenção para pregar um susto a um indíviduo, a mando do patrão deste último.

Pediram que Marcus Vinicius arranjasse uma motocicleta – a sua foi rejeitada por ser amarela, chamativa. Providenciou então a Honda CG preta do seu pai, além de uma camiseta velha e um capacete. Mais tarde, Djalma Gomes da Silva teria voltado ao talho sozinho e deixado um revólver calibre .357 carregado. O envolvimento do sargento não foi provado, daí a absolvição.

Condenado, mesmo na altura não tendo sido uma decisão definitiva, Marcus Vinicius desapareceu. Conta o filho da vítima que recebeu um telefonema de uma senhora da periferia de Goiânia a dar uma pista do seu paradeiro. A sogra de Marcus Vinicius tinha um salão de beleza no bairro onde morava essa senhora, que soube que a familiar do arguido tinha transmitido a clientes que a família estaria em Portugal.

Foi quando Valério Luiz Filho soube que a esposa de Marcus Vinicius mantinha uma conta no Facebook. “Entrei no perfil sem grandes expetativas, mas estava tudo lá: fotos do casal na tranquila região de Caldas da Rainha. Uma delas continha até agradecimentos a Deus pela ‘segunda chance’. Imprimi as imagens imediatamente, enviei à imprensa e pedi nova prisão preventiva. O mandado de prisão foi entregue às autoridades lusitanas e o nome Marcus Vinícius Pereira Xavier incluído entre os procurados pela organização internacional de polícia criminal, a Interpol. Em 7 de agosto de 2014, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras português capturou o fugitivo”, descreveu o filho do assassinado. Na altura da detenção ter-se-á atirado do terceiro andar de um prédio nas Caldas da Rainha.

Anulações das condenações, recursos que reverteram a decisão e novos recursos da defesa permitiram que Marcus Vinicius voltasse a estar em liberdade até à deliberação final. Foi o suficiente para voltar a sair do Brasil.

Voltou para Caldas da Rainha. Aqui tinha destaque entre a comunidade brasileira. Tinha conseguido regularizar a sua situação em território nacional, chegou a ter uma empresa de construção civil, com empregados, mas agora trabalhava por conta própria, e era pastor evangélico numa igreja, frequentada pela mulher e pelos dois filhos menores.

 

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