Onde fica a cultura?

16 de Janeiro de 2026

As salas do Cineplace, no centro comercial La Vie, fecharam repentinamente nos finais de dezembro. É o último de vários encerramentos de espaços de cultura nas Caldas da Rainha nas últimas décadas. O fecho temporário da livraria Parnaso, após o falecimento de um dos donos (e para qual não se prevê ainda a reabertura), e da icónica livraria 107 apenas quinze anos antes, são sinais de um padrão que acontece na nossa cidade. O que acontece à cultura literária e audiovisual a uma cidade que se quer criativa e artística?

 

O cinema, em particular, é uma forma democrática de acesso à cultura: com bilhete relativamente acessível, ajuda à existência de uma experiência coletiva, de formação de público, da criação de hábitos culturais e da promoção de pensamento crítico. Quando uma cidade perde as suas salas de cinema comerciais, perde mais do que um serviço, perde também um ponto de encontro entre gerações e, de igual forma, do acesso ao direito das pessoas à cultura. O mesmo se aplica às livrarias independentes: não são apenas espaços de venda, são também lugares de descoberta, conversa, mediação cultural. Quando estes espaços desaparecem, a cultura não se extingue de imediato, mas vai-se tornando menos visível, menos partilhada, mais frágil.

Ainda assim, seria injusto falar das Caldas da Rainha apenas em tom de perda. A cidade continua a ter uma identidade artística forte e reconhecida. A cerâmica (histórica e contemporânea), as artes visuais, a arte urbana e o ensino artístico, com a ESAD à cabeça, fazem das Caldas um território singular no panorama nacional. Há criadores, coletivos, eventos e iniciativas independentes que continuam a existir e a produzir trabalho relevante, muitas vezes com poucos meios. A cultura não morreu: ela resiste, mas fá-lo sem rede.

É neste contexto que surge inevitavelmente o papel do Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha. O CCC é uma infraestrutura central, fruto de investimento público e símbolo de uma aposta municipal na cultura. Importa reconhecer o trabalho que ali é feito, incluindo a programação regular de cinema de autor, que o próprio município sublinha como complementar à oferta comercial da região e orientada para a formação de novos públicos. Mas é também legítimo perguntar: será suficiente? Ter um equipamento cultural não é o mesmo que ter uma política cultural. A cidade precisa de densidade, diversidade e continuidade programática – não apenas de momentos pontuais.

O recente comunicado da Câmara Municipal sobre o encerramento do cinema do La Vie clarifica os limites da intervenção municipal numa oferta privada, ao mesmo tempo que confirma que existe acompanhamento político da situação e a expectativa de um novo operador. Essa distinção é importante, mas não deve encerrar o debate. A pergunta mantém-se: que cidade cultural queremos ser enquanto estas soluções não chegam, e mesmo depois de chegarem?

Há também ausências que se tornam evidentes. As Caldas são fortes nas artes técnicas e visuais, mas poderiam ser mais consistentes nas artes audiovisuais, na música ao vivo regular, no teatro e na literatura. Falta uma agenda contínua, circuitos estáveis, cruzamento sistemático entre criadores e público. A cultura não pode existir apenas por exceção ou por evento isolado.

Pensar cultura local hoje implica também pensar o território. O Oeste é um espaço disperso, mas com enorme potencial de articulação: circulação de programação, redes entre cidades, complementaridade em vez de competição. A cultura pode – e deve – ser pensada como fator de fixação de pessoas, de criação de identidade regional e de fomentação de economia criativa.

A crise da cultura não se vive somente nas Caldas da Rainha, ou na região do Oeste. Vive-se também um pouco por todo o país: com o encerramento progressivo de salas de cinemas fora dos grandes centros urbanos, na fragilidade económica das livrarias independentes que ainda existem e na centralização cultural em Lisboa e Porto. Urge-se um debate nacional sobre o acesso à cultura e sobre descentralização.

Talvez seja por isso que, perante o desaparecimento de espaços físicos e da falta de apoio local à economia criativa, faça sentido pensar em ligações. Uma Rede Literária do Oeste, que ligue escritores, poetas, leitores, bibliotecas, escolas e as livrarias que resistem, poderia ser um ponto de partida simples, mas estruturante: leituras públicas, encontros regulares, circulação de autores, visibilidade para quem escreve fora dos grandes centros.

A par desta Rede, importa pensar mecanismos para o cinema e a música, partindo do trabalho que é feito por coletivos, criadores e associações. No cinema, isso passa por apoiar o cineclubismo, criar programas regulares de exibição de curtas e filmes de autor locais e, sobretudo, por linhas de apoio autárquico à produção cinematográfica com ligação à cidade, garantindo contrapartidas como estreias locais, sessões comentadas e trabalho com escolas. Na música, exige-se uma aposta mais consistente na divulgação da criação feita localmente, através do apoio a festivais de música, concertos regulares e residências artísticas, valorizando bandas e músicos da região e criando continuidade para além dos grandes eventos pontuais. É necessário reconhecer quem cria, dar condições para os artistas e assegurar que a cultura chega, de forma regular, às pessoas.

Se os espaços desaparecem, talvez seja tempo de criar relações. A cultura não vive apenas de edifícios – vive de pessoas, de hábitos e de escolhas coletivas. A pergunta mantém-se, e é de todos nós: para onde vai a cultura nas Caldas da Rainha?

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