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O fim da ajuda humanitária norte-americana

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No alucinante primeiro mês de Trump, uma decisão cruel e de consequências globais graves passou despercebida: o desmantelamento da USAID (United States Agency for International Development, Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Esta agência tinha um orçamento anual de 40 mil milhões de dólares, correspondendo a menos de 1% da despesa federal, para projectos que representam 40% da assistência humanitária mundial e cerca de 20% do apoio ao desenvolvimento, em mais de 100 países.

Com o fim da USAID cessam milhares de iniciativas de ajuda alimentar de emergência, programas de saúde, incluindo o combate à sida e ao paludismo, e projectos de apoio ao desenvolvimento. Milhões de pessoas dependem directa ou indirectamente da acção da USAID. Membros do sector humanitário, como Jeremy Konyndyk, o antigo responsável da USAID, alertam para o risco imediato de muitas mortes.

Esta agência nasceu em 1961 e desde então financiou auxílio humanitário, combate a doenças, construção de escolas e outros projectos de desenvolvimento. Mas foi sendo também apontada como veículo de operações encobertas da CIA, para obter informação, influenciar eleições, derrubar governos, enviar dinheiro para senhores da guerra (no Afeganistão, por exemplo), para ditadores na América Latina, para grupos oposicionistas em países onde os Estados Unidos pretendessem mudanças de regime, sempre sob a aparência de auxílio e defesa da liberdade e da democracia.

A USAID estava integrada em todo o sistema das Nações Unidas e tinha papel decisivo em grande quantidade de organizações locais não-governamentais, actuando ao longo de decénios nas mais diversas áreas, como a luta contra a sida, criando centros de apoio em todo o continente africano. De repente, todos estes centros encerram e os doentes ficam sem medicação e apoio médico. A USAID também tem sido a principal fonte de ajuda alimentar e de financiamento dos programas do PAM (Programa Alimentar Mundial). Na América latina, a USAID trabalhava também com as Nações Unidas na protecção das comunidades indígenas e na salvaguarda da diversidade ambiental e preservação do Amazonas.

Inúmeras organizações não-governamentais, partidos políticos e órgãos de comunicação também recebiam dinheiro da USAID. Em muitos países onde os jornalistas sofrem pressão de governos ditatoriais, o financiamento da liberdade de imprensa era garantido pela USAID. É certo que muita desta imprensa era favorável ao Ocidente e em particular aos Estados Unidos, mas também punha em causa a corrupção nesses países ou o desrespeito pelos direitos humanos ou a perseguição a minorias étnicas ou até a protecção das mulheres.

Trump quer agora que a ajuda financeira americana ao mundo passe a ser usada como arma de política externa, tal como as tarifas comerciais. Quem quiser ajuda ou não quiser tarifas terá de colaborar com os Estados Unidos.

A suspensão do financiamento da USAID terá consequências dramáticas por cada dia sem alimentação, água potável e medicamentos, causando mais sofrimento a muita gente que já está em risco de vida. As outras agências de outros países não preencherão este vazio de assistência. A suspensão da ajuda por parte dos Estados Unidos nem sequer abre espaço às diplomacias europeia e chinesa. Para 2025, França, Itália, Alemanha e os países nórdicos já tinham decidido reduzir a ajuda humanitária e ao desenvolvimento, por razões orçamentais.

A maior parte dos países europeus enfrenta grandes défices orçamentais e uma das áreas em que é mais fácil cortar, sem perda de votos, é a ajuda internacional. Já a China actua apenas na Nova Rota da Seda, o que não é comparável ao volume de ajuda ocidental, sobretudo americana.

Vários países do Golfo Pérsico aproveitarão esta quebra da ajuda ocidental para expandir a sua influência. Mas tratar-se-á de auxílio condicionado à propagação da fé islâmica. Tem-se verificado, sobretudo no continente africano, o crescimento rápido de financiamentos provenientes dos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Bahrein, sempre condicionados à criação de madraças, os centros de aprendizagem do Corão.

Esta formação escolar religiosa não capacita os jovens para o mercado de trabalho. As soluções que lhes restam são ou a emigração ou integrar grupos jihadistas de jovens que frequentaram essas madraças e se transformaram em militantes armados, sobretudo nos países do Sahel e da África Ocidental. Intensificar-se-á o que se tem verificado no último decénio, a proliferação de grupos armados radicais que vivem do rapto e do roubo de populações afinal tão pobres como eles, provocando o incremento das migrações.

 

Escrevo segundo o anterior acordo ortográfico.

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