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Liberdades, a Prova do Século é o título de um estudo feito em 55 países pela Fundação para a Inovação Política — Fondapol, organização francesa criada em 2004, com o objectivo de contribuir para o pluralismo do pensamento e a renovação do debate público, a partir de temas como crescimento económico, ecologia e valores.

Liberdades, a Prova do Século é o título de um estudo feito em 55 países pela Fundação para a Inovação Política — Fondapol, organização francesa criada em 2004, com o objectivo de contribuir para o pluralismo do pensamento e a renovação do debate público, a partir de temas como crescimento económico, ecologia e valores.

Este estudo apurou que a maioria de inquiridos desta mais de meia centena de países reconhece méritos aos regimes autoritários na eficácia das decisões. Embora esta maioria não abdique da democracia, os mais jovens preferem o autoritarismo e muitos acham que nem toda a gente devia ter o direito de votar.

Em Portugal há 22% a pensar que o direito de voto deve estar reservado apenas a alguns. Entre os 55 países do estudo, apenas em Israel e Malta há menos defensores do voto reservado. A média europeia é de 36%, mas na Bulgária é de 76%. Este estudo diz-nos também que os portugueses são dos que menos defendem a pena de morte (33%) e 78% defendem o direito ao aborto. Verifica-se uma curiosa semelhança entre as respostas dos portugueses e dos franceses. Portugal e França têm respostas de desaprovação parecidas em relação à China, Rússia e Turquia.

Dominique Reynié, director da Fondapol, numa entrevista conduzida por José Manuel Rosendo (correspondente da Antena 1 em França), considera que desde o colapso do comunismo é mais difícil, para quem vive nos regimes democráticos, saber o que é a diversidade, quem é o outro. Desde o século XIX, nas sociedades democráticas, habituámo-nos a ter na clivagem entre a direita e a esquerda a dialéctica que faz viver a democracia. O comunismo soviético não representava toda a esquerda, mas o colapso da União Soviética deu a sensação de apagamento da família de esquerda e fragilizou a ideia de que a democracia é capaz de pluralismo.

O fim da História, que é como quem diz o fim dos processos de mudança, anunciado por Hegel, foi, afinal, uma previsão errada. A História continuou e a globalização, ao produzir muita riqueza, favoreceu os regimes autoritários — China, Rússia e outros países não democráticos. Se durante a Guerra Fria eram só os países democráticos que eram bem-sucedidos, hoje isso é menos claro e gera dúvidas sobre a democracia e a sua eficácia.

A eficácia das democracias é criticada, mesmo por quem não tem dúvidas quanto aos valores democráticos. Ao mesmo tempo, reconhece-se virtudes aos regimes autoritários, no que respeita à eficácia das decisões. Por exemplo, formou-se a ideia de que regimes como o chinês foram mais eficazes a combater a pandemia.

Os regimes democráticos estão em dificuldades perante esta nova História e têm apenas alguns anos para recuperar a eficácia enquanto democracias. Se não o fizerem, dentro de um decénio ou menos, tornar-se-ão autoritários.

O desejo de autoritarismo, afirma Dominique Reynié, cresce na opinião dos mais jovens. As novas gerações, até aos 24 anos, partilham muito menos os princípios e os valores dos mais velhos. Não têm a história nem a memória das lutas pelos direitos, liberdade e democracia que as gerações anteriores tiveram de travar. Estão, por isso, menos ligados às instituições democráticas — o que a desvalorização da escola, das aulas de História e de cidadania só potencia.

Ao longo das 39 perguntas deste estudo, as respostas dos jovens indiciam que não reconhecem grande utilidade ao voto; são mais sensíveis a uma versão autoritária da política; querem respostas imediatas; e admitem que nem todos devem ter o direito de votar. Segundo Dominique Reynié, vivemos uma época em que se disputa muito, mas não se discute nada e tolera-se cada vez menos quem não pensa como nós, e a ideia de impedir o outro de falar ganha força — eu é que tenho razão e quem não pensa como eu está mal informado, portanto é melhor que nem sequer tenha o direito de votar para não fazer escolhas erradas.

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