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Pastelaria Caldense

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O meu amigo Carlos Querido fez hà algum tempo uma interessante abordagem à doçaria caldense que, a par da Louça das Caldas, é um polo de atracção de há muitos anos da nossa terra.

O meu amigo Carlos Querido fez hà algum tempo uma interessante abordagem à doçaria caldense que, a par da Louça das Caldas, é um polo de atracção de há muitos anos da nossa terra.

A leitura do título deu-me um choque. Só com a leitura completa do texto percebi que falava da Pastelaria Caldense em geral, não da “nossa” Pastelaria Caldense que foi da minha família de 1947 a 1972 na rua da Liberdade 34.

Foi loja e oficina do ceramista José Domingos de Oliveira o “Carneirinho”, a seguir pastelaria das suas irmãs as famosas “Carneirinhas”. De certo temos o trespasse, por escritura pública, de Georgina Leal de Oliveira (neta dos Carneirinhos ) para Virgílio Ferreira Valente que deu sociedade a meu pai Faustino Ferreira que, por aquisição da quota do sr. Virgílio Valente ficou com a posse total da Caldense talvez ainda em 1947.

Pastelaria tradicional, artesanal, contrastava com a Pastelaria Machado (Antiga casa Fausta) da D. Peregrina Molares e seu marido Ramon Perez mais industrial e sofisticada com os famosos “Russos” com “chantilly”, as tartes de maçã..etc…etc… e um sortido fino de que destaco as “Florestas”, as “Línguas de Veado”, uns triângulos tipo “scones”, que muito aprecio…

Recordo as reuniões do Grémio do Comércio em que se discutiam os aumentos de preços das Cavacas, defendidos pelo sr. Perez, sendo o meu pai contra por receio que tal afetasse as vendas.

A nossa Pastelaria Caldense tinha como Ex-Libris as “Arrelias” tortas hoje copiadas por “fabricantes criativos” que as recheiam com cremes (de ovos, de pasteleiro) e até “chantilly” e frutas que a receita não contemplava.

Eu ainda tenho a receita original…no cofre!

Também ofereciamos um sortido de bolos secos, artesanais , para o chá: “Raivas”, “Lagartos”, etc e uma gama muito apreciada de “queijadas”(sem queijo) à base de amêndoa e ovos: os “Caldenses” com “casca” de massa quebrada, aparentados com os “Pelicanos” de outrora, os “Triângulos” feitos em tabuleiro e cortados na forma que lhes dá o nome, as “Pastilhas” próximas das Brisas do Liz e das “queijadas” de amêndoa da Pastelaria Nau de Peniche e as “Caretas”.

Ainda se faziam “Broas de Mel”, “Areias”, “Tortas de Ovos” e outros bolos tradicionais.

Na “fábrica” da Pastelaria Caldense pontificava a minha Tia Rosa, irmã do meio do meu pai, recém-chegada de Beja em 1954, até ao seu falecimento em 1964. A minha mãe Maria Amélia F. Ferreira garantiu então o fabrico da pastelaria, até ao seu encerramento em 1972, em paralelo com a cozinha da nossa Casa de Pasto da Rua da Liberdade 24.

As trouxas de ovos eram compradas fora, até que a minha mãe decidiu aprender a fazê-las com a nossa vizinha da Travessa da Piedade D. Maria Rosa, viúva do sr. Alonzo Padeiro.

As cavacas chegavam, já cozidas, do nosso compadre cavaqueiro sr. José Maria e eram “caldeadas”, cobertas com açúcar em calda, na nossa pastelaria: foi a única tarefa em que me recordo de ter participado, e por brincadeira, na atividade industrial e comercial dos meus pais.

As cavacas das pastelarias eram denominadas “Cavacas Finas das Caldas” para as distinguir das “Cavacas Saloias” vendidas na Praça da Fruta pelas Cavaqueiras.

Eu, por acaso, gostava mais das Cavacas Saloias, ou dizia que gostava para criar “frisson” lá em casa.

No Natal trabalhava-se pela noite dentro para satisfazer as encomendas de “Arrelias” da Conferência de S. Vicente de Paula, que as distribuía pelos pobres seus protegidos, com ajuda solidária da vizinhança: D. Maria Rosa e D. Maria Helena Moreira…

De referir também a pastelaria da D. Regina, no Largo Dr. Filipe Neto Rebello, especialista das “Trouxas de Ovos”.

E a Cavacaria Conde da D. Rosa Conde, esposa do sr. Ribeiro herdeiro da extinta Pastelaria Ribeiro do Largo das Gralhas, hoje do Dr. José Barbosa.

A D. Rosa Conde Ribeiro dizia-me que o seu pai foi amigo de Rafael Bordalo Pinheiro.

É assim possível que no número 18 da Rua da Liberdade, nos últimos anos da D. Rosa na “Conde”, apelidada de “Museu do Bolo” e onde agora está um “Museu dos Cacos”, tenha entrado regularmente Rafael Bordalo Pinheiro. Em tempos recentes Luís Ferreira da Silva foi visita assídua e interessada – ficou a saudade – encerrando-se o ciclo das duas maiores figuras da Cerâmica das Caldas que, não sendo Caldenses, muito nos honraram com a sua obra na nossa terra.

Rafael Bordalo Pinheiro foi, uma das figuras mais geniais da transição do século XIX para o XX, nas Artes e Letras em Portugal; o nosso Ferreira da Silva terá sido o maior ceramista dos nossos tempos. Infelizmente, as suas heranças nem sempre têm sido bem tratadas pelos sucessivos responsáveis políticos e culturais do burgo.

A minha memória, que chega para o que acabo de contar da Pastelaria Caldense, esqueceu de onde eu conhecia, e bem, o Carlos Querido que acompanho à distância na sua carreira de jurista e agora também como escritor de reconhecido mérito.

Afinal foi ele que me recordou, há tempos, que fomos colegas na Beiersdorf Portugal, nos idos de 80…

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