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Data de elevação das Caldas a cidade

“Deveríamos assinalar o 26 de agosto de um modo mais evidente para os caldenses”

Mariana Martinho

EXCLUSIVO

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A poucos dias de se comemorar o 94º aniversário da elevação das Caldas da Rainha a cidade (26 de agosto de 1927), o JORNAL DAS CALDAS entrevistou o caldense e colaborador do Jornal das Caldas, Jorge Mangorrinha, que tem sido “um defensor da celebração do Centenário da Elevação das Caldas a Cidade”.
V Exposição Agrícola, Pecuária, Industrial e de Automóveis das Caldas da Rainha -Comissão organizadora, 21 de agosto de 1927, fot. Mário Novais publicada na Revista Ilustração (Setembro de 1927) © Fundação Calouste Gulbenkian

Jornal das Caldas – Como chegou esse marcante 26 de agosto de 1927 aos habitantes do concelho das Caldas da Rainha?

Jorge Mangorrinha – Na cidade decorria a V Exposição que, para além dos residentes, contava nesse dia com cerca de 20000 forasteiros. A notícia foi como que um clímax de um percurso. A primeira coletividade a manifestar-se foi a corporação dos Bombeiros, que fez o toque da continência, com 400 bombeiros de todo o país arregimentados para a hipótese de se concretizar a elevação nesse dia. Uma parte da população também saiu à rua, foram lançados foguetes e morteiros, as filarmónicas de Ponte de Rol, Lourinhã e Alvorninha tocaram “A Portuguesa” e ouviram-se aclamações ao Governo e a todos os que concorreram para esta conquista. Na câmara discursou o presidente da Comissão Administrativa, José Saudade e Silva, e houve uma sessão solene no Salão Nobre.

J.C – Como era a vila das Caldas da Rainha antes da elevação a cidade?

J.M. – Caldas era o mais populoso centro urbano do distrito de Leiria, com cerca de 8000 habitantes. As elites locais viam a vila como um centro termal com importantes atividades conexas, como o comércio e a restauração, complementadas pelo mercado de levante na Praça, que escoava os produtos agrícolas da região, e pela indústria. Era um centro turístico de uma região mais vasta.

J.C. – Esta passagem de categoria deveu-se a factos históricos, nomeadamente a evolução demográfica do concelho, e os acontecimentos políticos, económicos e sociais, sucedidos desde 1911. Conte-nos, mais no concreto, quais foram esses acontecimentos históricos, que permitiram a elevação das Caldas a cidade?

J.M. – No século XIX, debateu-se muito o crescimento da vertente termal da vila. Com a reforma de Rodrigo Berquó, resultante de iniciativas de anteriores administradores, a vila tornou-se estância da moda, e a propaganda sentia-se necessária. Em 1908, foi criada a Comissão Propaganda dos Interesses das Caldas da Rainha, também designada de Comissão de Propaganda de Melhoramentos Locais, e dois anos depois surgiu a Liga de Defesa e Propaganda das Caldas da Rainha. Apesar de se saber pouco das suas atividades, elas refletem uma consciência da comunidade para a promoção e para a necessidade de melhoramentos urbanos. Mas também em sentido inverso, Caldas absorveu dinâmicas à escala nacional.

J.C.- Quais dinâmicas e que benefícios?

J.M. – Em primeiro lugar, a criação de uma Delegação da Sociedade Propaganda de Portugal, em 1916, sendo que uma das premissas para a criação de delegações locais era o número de sócios locais da Sociedade e os motivos de interesse da própria localidade. A Delegação das Caldas apenas durou dois anos e dos melhoramentos promovidos destacou-se a montagem de um posto meteorológico e uma atenção especial ao aproveitamento da Lagoa de Óbidos para navegabilidade e ao mesmo tempo para promover melhoramentos nas ligações às Caldas.

Depois, assinale-se a criação da Comissão de Iniciativa, independente do poder municipal, estando subordinada à Repartição de Turismo e funcionando como delegação do poder central na província. Esta Comissão acabaria por ter um papel crucial e muito mais evidente do que a Delegação da Sociedade Propaganda de Portugal. De um modo sintético, dir-se-á que as elites locais promoveram melhoramentos urbanos, estimularam a criação de um instrumento de comunicação social que perdura, mobilizaram e suscitaram a comunidade para se alcançar um maior protagonismo regional, organizaram feiras com repercussão nacional e lançaram um plano de regularização e extensão urbanística. A Câmara passou a tomar as rédeas da evolução da urbe, e Caldas fez-se cidade.

J.C. – Como é que ocorreu esse processo de elevação a cidade e que grupos sociais da época estiveram envolvidos nele?

J.M. – A existência de uma elite de caldenses permitiu duas coisas. A primeira foi em 1919, quando é conferida à então vila o grau de Cavaleiro da Torre e Espada, pelo heroísmo, civismo e amor que manifestou em sustentar a integridade das instituições republicanas, segundo palavras registadas na Comenda.

A segunda foi a possibilidade de dar corpo a essa notável iniciativa do governo da República de criar Comissões de Iniciativa em todas as estâncias hidrológicas e climatéricas, com o fim de se divulgar o desenvolvimento, obedecendo à ideia de se reunir o esforço e a dedicação das comunidades locais e do espírito que as animava quanto à salvaguarda dos valores patrimoniais. As Comissões de Iniciativa foram criadas, em Portugal, precisamente há 100 anos, a 23 de abril de 1921, e tratava-se de conceção semelhante ao Syndicat d’Iniciative, em França, composto pela Câmara Municipal, hoteleiros, principais proprietários locais, médicos das termas e outros interessados.

A Comissão das Caldas foi criada em 1924, curiosamente no mesmo ano em que começou a ser publicado o “Guia de Portugal”, que teve como coordenador Raul Proença, nascido nas Caldas, onde se alerta para a importância dos roteiros e dos monumentos na aposta turística do desenvolvimento regional do país.

Deve-se, portanto, ao empenho dos membros da Comissão de Iniciativa grande parte da visibilidade das Caldas nessa época, mas também não devemos esquecer que, em 1926, foi nomeada uma Comissão Administrativa Municipal, em consequência do golpe militar de 28 de maio.

J.C. – Como é que era financiada a Comissão de Iniciativa?

J.M. – As receitas da comissão provinham de uma taxa especial, denominada “Taxa de Turismo”, paga direta ou indiretamente pelas pessoas que frequentavam as Caldas e aqui não tinham residência própria ou permanente. E ainda um adicional de 15% sobre a contribuição industrial e de 10% sobre a contribuição predial, relativa à área da jurisdição das comissões respetivas, bem como quaisquer outras receitas que se pudesse angariar, tais como o produto de festas, subscrições, legados, donativos e vendas de produtos turísticos.

J.C. – E quem eram os seus membros dirigentes?

J.M. – Segundo os dados que tenho aqui na minha frente, a direção da comissão foi inicialmente composta por Saul Simões Sério (presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal), Joaquim Gonçalves (presidente da Junta de Freguesia das Caldas da Rainha), Custódio Maldonado Freitas (administrador do Hospital Termal), António de Melo Ferrari (inspetor clínico do Hospital Termal), António Montez (delegado da Sociedade de Propaganda de Portugal), Tomaz Sales Henriques (proprietário local), Francisco Baptista de Carvalho (hoteleiro) e João Montez (comerciante). Eles reuniam, na Rua Camões, no prédio do Ibéria Club.

Lembro-me de ter lido algures uma frase do representante local da Sociedade Propaganda de Portugal, coronel Ferreira Madail, que elogia esses seus conterrâneos, assim mais ou menos como: tudo gente moça, ativa e dotada da melhor boa vontade.

J.C. – Quais as atividades da comissão, nomeadamente as que favoreceram a passagem de vila a cidade?

J.M. – Uma promoção como nunca se fizera, desde a aquisição de uma camioneta de propaganda, que circulava pelas ruas da vila, à edição de bilhetes-postais ilustrados, do “Guia-Propaganda”, da publicação anual “Álbum das Caldas”, de selos, cartazes e folhetos e da venda ao público de água engarrafada das Águas Santas. Em termos de melhoramentos, o seu contributo foi importante para a beneficiação de duas entradas urbanas, a do lado de Lisboa e a da estação ferroviária, e ainda para a luta contra a mendicidade, para a higienização das ruas, para a edificação de monumentos em homenagem às principais figuras locais, para as festas e para as atividades do Clube de Recreio, para o Grande Circuito Hípico Nacional, em 1925, e como fazendo parte da Comissão Organizadora da V Exposição Agrícola, Pecuária, Industrial e de Automóveis, realizada de 21 a 28 de Agosto de 1927, na sequência das anteriores de 1920, 1921, 1923 e 1925. A Comissão recebeu elogios a nível nacional e também fora do país, tal como, neste caso, no periódico brasileiro “Revista Portugal”, face ao trabalho significativo e diversificado que contribuiu para o desenvolvimento e visibilidade externa das Caldas.

J.C. – Para a elevação a cidade, a atividade termal foi um elemento importante?

J.M – Também, e melhor se compreende se virmos o termalismo da época numa lógica integrada no contexto da urbe, com os restaurantes, os hotéis, as pensões, as casas de hóspedes e de aluguer temporário, as áreas verdes de lazer, a cultura, os eventos desportivos, o mercado de frutas e legumes, de louças e cavacas, fazendo parte de um dinamismo considerável.

J.C. – Há alguns outros dados interessantes desse ano de 1927?

J.M. – Lembro que, nesse ano, o Governo autorizou o Hospital a contrair um empréstimo até 2000 contos para melhoramentos para o conjunto de obras executadas na década seguinte. E, em 1928, o Governo entendeu renovar a legislação do sector e atribuir ao Hospital das Caldas o subsídio estatal de 1600 contos, valor significativo para a época e que permitiu levar a cabo essas obras. Noto que, após a elevação e a realização da V Exposição, cria-se um esforço de renovação do Parque, tendo sido entregue ao arquiteto Paulino Montês a tarefa da elaboração de um Plano de Requalificação.

J.C. – Considera que o 26 de agosto é uma data tão importante para as Caldas como o 15 de maio ou o 15 de agosto?

J.M. – Trata-se de efemérides bem diferentes. Comemorar é um símbolo em relação ao passado, ao presente e ao futuro, porque os símbolos criam-nos reconhecimento e autoestima. Acho que deveríamos assinalar o 26 de agosto de um modo mais evidente para os caldenses.

J.C. – Como acha que deveria ser evocado o centenário?

J.M. – O centenário deve ser preparado desde já e cumprindo evocações neste período até 2027, tal como parece ser o propósito do Jornal das Caldas, ao pretender falar disso. Eu já abordei o assunto com o deputado e vereador Hugo Oliveira, que se mostrou sensível e até me desafiou para a estruturação do assunto, que apenas deverá ser continuada no início do novo mandato autárquico e com a assunção do presidente que resultar das eleições.

J.C. – Mas já tem ideias sobre o assunto?

J.M. – Essas comemorações devem ser a resultante de um trabalho coletivo, com uma equipa executiva e com liderança. O dia 26 de agosto de 2027 será o momento mais alto. Acredito numa programação com eixos de atuação, como por exemplo, exposições, artes performativas, encontros, intervenção urbana, linha editorial e um olhar sobre o futuro, ou seja, eixos de uma comemoração como produto coletivo e que fique para a posteridade, desde o debate, que espero se abra brevemente, numa fase que apelido de utópica, até à estabilização de um Programa, na fase do consenso.

Lamentavelmente, lembro a propósito, que Caldas poderia ter feito coincidir 2027 com a Capital Europeia da Cultura, candidatando-se.

J.C. – Acha que teria possibilidades de conquistá-la?

J.M.- Pelo menos a candidatura seria admissível, acompanhada de muito trabalho. Mas eu, como caldense, jamais estaria a liderar uma candidatura de Leiria para esse desígnio, quando, aparentemente, nada se fez pelas Caldas nesse sentido.

J.C. – Tendo sido o General Carmona a promulgar a elevação das Caldas a cidade, como viu a retirada da sua estátua depois do 25 de Abril?

J.M. – Do ponto de vista sociopolítico, a estátua é um símbolo, sujeito a interpretações mais ou menos racionais, que estava localizada na praça que é, urbanisticamente, resultante de todo o trabalho levado a efeito pelos caldenses dessa geração. É a cidade moderna do século XX, que estruturou um novo centro cívico. A cidade pós-25 de Abril é outra e, genericamente, de uma manifesta pobreza urbanística e construtiva. É a minha opinião, mas posso não ter a razão toda.

Do ponto de vista artístico, era uma boa obra escultórica de um caldense, um nome maior da escultura do século XX, Mestre João Fragoso, aliás, menos comprometido com o Estado Novo e com Oliveira Salazar do que o autor da estátua da Rainha, Mestre Francisco Franco. Os sinais dos tempos são justos para uns, iníquos para outros.

J.C- Gostaria de ser presidente da Câmara no ano do Centenário?

J.M. – Não creio que alguma vez venha a ser presidente da Câmara das Caldas. Gostaria, sim, de lhe ser útil, como nunca desisti de o fazer. Se em 2027 conseguirmos elevar as Caldas a uma verdadeira Cidade Termal, económica e culturalmente, o processo do Centenário estará cumprido e, tal como se passou após 26 de agosto de 1927, poder-se-á viver uma época de expansão e de otimismo, testemunhada desta vez pelo significado de honrar o passado, aprendendo com ele, para projetar um bom futuro.

J.C. – E nesse futuro caberá um termalismo de qualidade, ou seja, haverá mais histórias do termalismo para contar?

J.M. – Haverá sempre mais histórias, resta saber se boas ou não. Isso dependerá do caminho traçado. É crucial que não haja visões pequeninas, mas ambição. É crucial salvaguardar o património, mas também apostar na contemporaneidade criativa. É crucial uma partilha maior das opções políticas, se ouçam as opiniões de alerta ou propositivas. Eu que tenho lutado, por diferentes vias, por esta causa, há tanto tempo e continuamente, não gostaria de partir sem ver a minha terra-natal com atributos de uma cidade termal de excelência, como conheço noutros países.

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