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Histórias do Termalismo

10. De Bath às Caldas da Rainha

Jorge Mangorrinha

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Em meados do século XVIII, Caldas da Rainha e Bath (Inglaterra) andaram de mãos dadas, no que diz respeito à reforma das suas estruturas hospitalares, com recurso às águas minerais. Enquanto nas Caldas o velho hospital quatrocentista foi reconstruído pelos técnicos do rei D. João V, em Bath criou-se o Royal National Hospital for Rheumatic Diseases ou Royal Mineral Water Hospital, que seria o primeiro hospital nacional a receber pacientes de todo o Reino Unido e, portanto, uma espécie de Serviço Nacional de Saúde.
Jorge Mangorrinha

O Hospital de Bath foi fundado por Lei do Parlamento e inaugurado em maio de 1742, precisamente no ano em que se iniciaram os levantamentos topográficos da vila das Caldas, no sentido de uma reforma hospitalar e urbana. Em Bath, os fundos foram conseguidos, em grande parte, por meio da atividade de Richard (Beau) Nash. Ele abriu uma lista de assinaturas em 1737 e arrecadou £ 2.300. A sua estátua na Pump Room representa-o segurando uma planta do “Hospital Geral”. A pedra fundamental foi lançada em julho de 1738, e todas as pedras do Hospital foram fornecidas por Ralph Allen, das suas pedreiras na periferia da cidade. Portanto, se nas Caldas os fundos financeiros provieram dos cofres do Reino, em Bath foi decisiva a iniciativa privada.

O objetivo do Hospital de Bath foi fornecer acesso a tratamento nas águas termais para os doentes pobres, tal como nas Caldas, por tradição, embora no século XVIII aos mais desfavorecidos se juntavam outros com mais posses e próximos da corte do rei. Um objetivo secundário era lidar com o problema dos mendigos de Bath, pelo que, no século XVIII, um moderno bebedouro atraía multidões de mendigos e o Hospital também servia para retirar das ruas as pessoas que realmente estavam doentes. Nas Caldas, construiu-se uma rede de chafarizes, que ainda perduram, para fornecer água potável à vila.

Em Setecentos, Bath não teve apenas excelentes instalações médicas, mas toda a cidade era um centro médico. E esse passado mantém-se, graças à salvaguarda dos valores históricos e à criação de um museu. Originalmente inaugurado no Hospital e sendo agora uma instituição de caridade independente, o Bath Medical Museum é um verdadeiro museu polinucleado pela cidade, com objetos das suas coleções em exposição em vários outros museus e galerias de arte da cidade, bem como no RNHRD & Brownsword Therapies Center. Uma ideia que Caldas da Rainha poderia adotar, numa lógica de museologia urbana, associando o conjunto termal e as memórias de uma vida quotidiana de aquistas, veraneantes e turistas que por aqui deixaram lastro.

Bath é património mundial da UNESCO, mas Caldas da Rainha não soube dar os passos seguintes à ideia lançada no ano de 2002 e trabalhada até 2005, em que se deixou um Master Plan no final do mandato autárquico. Será que ainda vamos a tempo, mesmo já perdendo oportunidades de rede com outras localidades no mundo, que avançaram para o mesmo propósito. Será que a cidade é suficientemente harmoniosa para dar contexto urbano ao conjunto termal? Será que há vontade de fazer melhor em função de uma ideia central de candidatura?

A cidade de Bath tem um valor universal excecional por diferentes atributos culturais. Designadamente, os vestígios romanos, especialmente o Templo de Sulis Minerva e o complexo de banhos (baseado em torno das fontes termais no coração da cidade romana de Aquae Sulis, que permaneceram no coração do desenvolvimento da cidade desde então), estão entre as ruínas romanas mais famosas e importantes ao norte dos Alpes e marcaram o início da história de Bath como cidade termal. A cidade georgiana reflete as ambições dos seus empreendedores de fazer de Bath uma das mais belas cidades da Europa, com arquitetura e paisagem combinada harmoniosamente. O estilo neoclássico dos edifícios públicos (como os Assembly Rooms e o Pump Room) harmoniza-se com as proporções grandiosas dos conjuntos monumentais na cidade (Queen Square, Circus e Royal Crescent) e reflete coletivamente as ambições, particularmente sociais, de uma cidade termal do século XVIII e que preservou essa qualidade urbanística e urbana através dos tempos, até como resposta à crescente popularidade de Bath.

Caldas da Rainha, por seu turno, também tem valores excecionais, apenas lhe faltou uma atuação mais de acordo com a salvaguarda de património e de uma paisagem urbana harmoniosa e qualificada. É necessário não esquecer de que o carácter inovador das Caldas da Rainha é baseado nas características dos seus patrimónios ambiental, material e assistencial ligados às termas. Este conjunto termal surgiu como um todo, um território completo e criado estruturalmente para constituir um cenário idílico. Ao longo da sua história e sob a tutela do Estado foi pioneiro no mundo, em áreas do conhecimento científico e médico, nas práticas e na vanguarda da prestação dos cuidados aos utentes, na vanguarda da engenharia, arquitetura, na preservação e no restauro. Mas houve erros urbanísticos e estratégicos.

Mais recentemente, em Bath, nasceu um icónico balneário contemporâneo. Nas Caldas, a autoridade local não vê isso como prioritário. Presentemente, neste e noutros aspetos, Bath e Caldas da Rainha já não andam em sintonia.

Importa, pois, darmos as mãos para que, por exemplo, em 2027, no centenário da elevação a cidade, tenhamos o património valorizado, a cidade mais bonita e conhecida externamente e uma comunidade mais informada e instruída em relação ao que realmente nos distingue e interessa respeitar e preservar para estas e as gerações futuras – tal como Bath muito bem fez!

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