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Da amurada do castelo

Rui Calisto

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Lembro-me (tinha dez anos de idade) de estar com o meu avô Manuel dentro das muralhas do castelo de Óbidos, numa tarde de folguedo e bem-aventurança, daquelas que só os avós sabem dar, e começar a fazer-lhe perguntas acerca de reis e rainhas, e ele, com toda a propriedade, do alto daquele monumento, que era seu por nascimento e amor, começando a desfiar um rosário de contas medievais, descreveu batalhas e lendas.

Esfiando conta a conta, ensartando o seu colar imaginário, a sua modulada voz ia e vinha na descrição de aventuras, não esquecendo o nome dos heróis ou dos invasores, nem dos povos que ajudavam nas pelejas.

A minha fértil imaginação via as cenas em catadupa. Quantos cavaleiros, de capa e espada em punho, ergueram o reluzente metal a alturas tenebrosas e, quando os seus braços vinham por aí abaixo, num feroz e certeiro, golpe no horizonte, deitavam por terra desavisadas cabeças.

Os gritos, as fúrias, o sangue a manchar corpos, todos os instantes de um possível enfrentamento eram em mim motivo de júbilo e tristeza. Ora tomava o assento do vencedor, ora a pele do vencido.

E o bom Manuel continuava a discorrer, apontando para diversos recantos daquele vale imenso e belo, fazendo-me crer na existência de deuses e de demónios. A sua voz avolumava-se, os gestos alargavam-se, a sua tez ficava rubra de emoção e de orgulho.

Quando percebia a minha aflição por saber mais, transbordando em gotas de suor, com peito estufado, e numa respiração de tormenta, como se eu estivesse dentro do próprio conflito, subtilmente baixava o tom, chegando quase a sussurrar, explicando, ainda com os cabelos desalinhados, porém com os gestos num salutar abrandamento, que “todo o cuidado era pouco, e que aqueles que não estavam no combate corpo a corpo, mantinham a necessária distância, percebendo o entorno, e todo o “bailado” que a turba era obrigada a seguir, numa coreografia muitas vezes pouco ensaiada”.

Quando percebia que o neto estava mais calmo, aumentava o tom de voz, regressando a novas, e épicas, cenas, onde cada pormenor era lembrado, desde os formatos dos elmos, aos arrebiques dos escudos, passando por quase impercetíveis fitas, presas a vigorosas armaduras, que representavam o amor filial de mães desesperadas ou de esposas temerosas.

Este pequeno ouvinte não se deixava ficar, exigindo descrições com um detalhe inimaginável, entremeadas por picarescas situações. Nada deveria ser deixado de lado. Se era uma história, teria de ser a melhor, e contada de modo praticamente cinematográfico, ou não conseguiria prender a minha atenção. Esmerava-se, então. Até que eu o interrompia – um pouco para o provocar – dizendo-lhe: Quando surgirá um dragão, encolerizado, senhor de si, lançando mirabolantes labaredas pelo ar, afugentando os guerreiros? Nesse momento, o meu avô explodia numa gargalhada, e eu, rindo desalmadamente, abraçava-o e bendizia a minha sorte.

Sempre que vou àquele recanto rezo baixinho, pedindo aos deuses do universo a maior de todas as bênçãos: Que todas as crianças do planeta tenham a felicidade de possuir avós, e que estes façam da sua vida uma obra de arte, para que, os olhos, o coração e a alma desses petizes, consigam eternizar cenas, não a das guerras ou dos combates ferozes, mas sim, a do amor entre essas duas gerações.

Quando criança, da amurada do castelo de Óbidos, via um horizonte, e desejava alçar voo, saindo em aventuras pelo mundo.

Assim o fiz, e o voltarei a fazer, porém, lembrar-me-ei todos os dias daquele homem generoso que ofereceu à minha infância a magia, o sonho e a alegria de viver.

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