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Bem-aventurada primavera

Rui Calisto
22 de Março, 2021
A região Oeste resfolega ao sol. Traz à memória, e à alma, uma satisfação emocional idêntica àquela que senti no Brasil, ou em África, em momentos pré-pandémicos - e que, quando esta tormenta for história do passado, voltarei a sentir, pois assim rezam os afazeres profissionais.

Quem já esteve no Brasil, ou num país africano, aquando da chegada desta estação encantatória – que permite aos olhos o deslumbre das cores, e ao olfato a satisfação dos aromas – sabe exatamente o que quero dizer. A alma renova-se e o corpo deixa de ter aquele ar bafiento que o inverno atira por sobre nós.

Alguns ficam nostálgicos, relembrando as brincadeiras pueris e as correrias em relva verde entrecortada por pequenas margaridas, em companhia dos amigos de uma infância despreocupada e febricitante.

Outros recordam antigos passeios, em confraria com os parentes do coração, aqueles cuja fotografia estamos sempre a admirar e a pedir a um deus desconhecido que os proteja e ampare.

Infelizmente há aqui um detalhe que estamos a esquecer: Hoje, na região Oeste, não temos aqueles jardins e parques que deslumbraram os nossos sentidos, repletos de prímulas, tulipas, margaridas-do-monte, viburnos, marmeleiros-do-japão, narcisos, camélias, pilriteiros, begónias, campainhas, lírios, madressilvas, acácias, amores-perfeitos, e tantos outros espécimes. O que se vê é a sanha avassaladora do derrube de árvores e a troca de canteiros floridos por áreas cobertas por borracha sintética (prejudicando o solo e a saúde da população).

Antigamente, quando os nossos olhos recebiam o impacto das cores maravilhosas que as flores, num ato de elevada bondade, nos ofereciam, o nosso dia ficava extremamente belo, e tínhamos a sensação de que tudo o que fizéssemos seria pontilhado por uma ajuda divina. Literalmente: O que os olhos viam, a alma sentia.

Eram momentos em que não se notava, como hoje ocorre, o desaparecimento maciço de populações de insetos. Seres que trazem em si a mágica essência de polinizar.

Existe uma visível perda de ecossistemas, muita poluição, e, ainda, um uso excessivo de agrotóxicos em zonas agrícolas. A extinção de grandes grupos de insetos possui um efeito dramático no meio ambiente e, por consequência, em todas as pessoas que vivem nessas regiões.

Esse meio ambiente, atualmente, carece de equilíbrio. Se eliminarmos o alimento que os insetos polinizadores precisam para a sua sobrevivência estaremos a trabalhar para a não-preservação da vida no Planeta.

Se não temos espampanantes e coloridos jardins e parques – porque não cuidamos do plantio das espécies – também não teremos animais polinizadores (aproximadamente 90% de todas as castas de plantas (com flores) necessita deles para a sua perpetuidade). Não tendo esses trabalhadores incansáveis, deixamos de ter bom oxigénio, os concelhos ficam cinzentos, as alterações climáticas passam a ser constantes, e as pragas agrícolas avançam proporcionalmente sobre as plantações.

Quanto drama. Não é mesmo? E ainda pode piorar. Algum dos meus queridos leitores consegue lembrar-se de ver o seu concelho ser invadido por centenas de bicos-de-lacre? Aquela pequena ave (com um belo bico vermelho-vivo, e com uma diminuta mascarilha encarnada estendida por trás dos olhos) que foi introduzida em Portugal (exatamente na lagoa de Óbidos) no ano de 1968, e que se expandiu rapidamente por todo o país? Não? Já imaginava. Deixaram de ser os apologistas da primavera devido à escassez de boa alimentação e ao excesso de químicos agrícolas.

Que saudades, da primavera repleta de flores, insetos e pássaros, dos banhos nos rios, das arriscadas subidas nas árvores, dos inúmeros momentos apinhados de vivências sensoriais e dinâmicas. Saudades daquelas primaveras de encher os olhos, a alma e o coração.

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