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JORNAL DAS CALDAS com os profissionais do internamento Covid do hospital

“Apesar do cansaço, nós somos o melhor que estes doentes têm”

Marlene Sousa

EXCLUSIVO

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O Hospital das Caldas da Rainha, integrado no Centro Hospitalar do Oeste (CHO) tem 58 doentes Covid internados em enfermaria. Uma equipa coesa, lutadora e humana tem estado a dar tudo por tudo para salvar os doentes. São três as enfermarias para tratamento de doentes Covid-19 com um total de 62 camas, 60 de adultos e 2 de obstetrícia. São reconhecidas como uma referência para o tratamento do novo coronavírus. “O uso de oxigénio de alto fluxo e a ventilação não invasiva têm sido determinantes para a evolução clínica favorável do doente com Covid”, diz a médica de medicina interna, Joana Louro, coordenadora do Internamento Covid.
A equipa multidisciplinar do internamento Covid da unidade das Caldas

As emoções, conquistas e dificuldades que a equipa de profissionais de saúde atravessa no combate à terceira vaga da pandemia de Covid-19 são relatadas pelo JORNAL DAS CALDAS, que visitou o hospital no passado dia 3 e captou testemunhos e imagens de uma unidade que se transformou e organizou para internar doentes com Covid-19. Foi visível a emoção no rosto destes profissionais de saúde que não conseguiram esconder as lágrimas.

“É uma doença grave com muitos rostos e que mata”

O perfil dos doentes internados mudou. Há menos idosos e mais jovens e um “boom” de pessoas dos 40 aos 60 anos e com sintomas mais preocupantes.

“É uma doença grave com muitos rostos e que mata em qualquer idade e nós estamos no limite das nossas capacidades físicas e emocionais e no fim da capacidade estrutural do hospital”, disse a coordenadora do internamento Covid, salientando que vão continuar a dar o que têm e o que não têm e o “melhor de cada um de nós para que se consiga vencer esta pandemia”.

No entanto, “precisamos que as pessoas lá fora respeitem isso e reduzam os contactos ao máximo. Sair, só para o essencial e protegerem-se porque não há ninguém de confiança, toda a gente é um potencial portador do vírus”, adiantou. Palavras duras de quem viu o hospital onde trabalha ser “virado do avesso” para se transformar numa “unidade dedicada à Covid”.

Joana Louro declarou que aquilo que mais se sente nos corredores das enfermarias são “lágrimas e frustração por quem não se consegue salvar, mas muita gratidão dos doentes que têm alta e vencem a doença”.

As festas de natal tiveram consequências. “Nós tivemos avós e filhos internados e pessoas que morreram devido aos ajuntamentos no natal. Pensam por ser família ou um amigo chegado é de confiança”, apontou. “Tudo o que seja fora do agregado onde se vive não se pode estar desprotegido e o problema das refeições é quando se tira a máscara”, alertou.

“Os dias mais desafiantes das nossas carreiras”

Quando foi convidada para coordenar o internamento Covid, Joana Louro ainda hesitou, mas como já tinha aprendido muito com a primeira vaga, aceitou. “Nunca quis chefiar e dirigir” nada, mas quando lhe colocaram este desafio pensou logo que “se é para fazer, é para fazer bem”.

Tem como seu braço direito a médica Ana Marques, também de especialidade de medicina interna. “Este é o desafio profissional das nossas vidas”, salientaram, acrescentando que “se criou uma equipa multidisciplinar fantástica”.

Colabora com Joana Louro, Anabela Coito, enfermeira coordenadora do internamento Covid, que tem como seu braço direito a enfermeira Ana Morins.

Quando a epidemia de Covid-19 chegou a Portugal, o Hospital das Caldas da Rainha tinha apenas um determinado número de camas alocadas à doença. Depois o número de infetados reduziu e os positivos que precisavam de internamento iam para a Unidade de Torres Vedras. Com a segunda vaga este hospital deixou de poder dar resposta, o que obrigou a repensar o esquema. A primeira enfermaria Covid na unidade das Caldas abriu nos finais de novembro, com 20 camas. Foi para Joana Louro criar um “serviço completamente novo em tempo recorde e estruturar toda uma equipa que na parte de enfermagem não se conhecia, porque fomos buscar enfermeiros a outros serviços e vieram outros novos sem experiência nenhuma neste tipo de doentes”.

A médica coordenadora do internamento Covid recorda que quando iniciaram com as vinte camas em novembro receberam muitos doentes de Lisboa, Barreiro, Montijo e Cascais porque não havia camas a nível nacional e “aqui em Caldas ainda estávamos numa zona protegida sem muitos pacientes”.

À medida que a pressão sobre o hospital aumentava, Caldas da Rainha criou uma enfermaria com mais 13 camas. “A equipa da medicina interna começou a não conseguir dar resposta e tivemos que nos socorrer de internos de outras especialidades que nos vieram ajudar, mas na realidade tudo o que implica uma decisão clínica está em cima de nós, que somos manifestamente poucos”, declarou.

“Neste momento já temos internos de ginecologia, cirurgia e pediatria a trabalharem connosco e tem sido uma ajuda muito grande”, contou, acrescentando que “os números foram-se agravando e as camas continuam a ser insuficientes e por fim, no mês passado, tivemos de abrir a terceira enfermaria no serviço de Medicina com mais 27 camas”.

O internamento em Medicina foi transferido para a unidade do CHO em Peniche, um hospital livre de Covid-19.

A lotação na unidade das Caldas passou para um total de 60 camas de internamento Covid-19.

“Eu acho que ninguém está preparado para uma avalanche destas nem para algo desta gravidade que requer uma abordagem clínica absolutamente nova”, disse Joana Louro.

O tratamento utilizado nas enfermarias Covid no hospital das Caldas é o mesmo da maioria dos hospitais centrais em unidades de cuidados intermédios e intensivos. Utilizam a terapia de oxigénio de alto fluxo e a ventilação não invasiva uma “abordagem muito interessante para os doentes Covid”, referiu a médica.

Esta terapia suporta os doentes na insuficiência respiratória hipoxémica, muito típica nos casos de Covid-19. Ou seja, ajuda o doente no seu esforço respiratório através de um fluxo que vai gerar uma pressão positiva, explicou a médica.

“O entubar e colocar o doente numa cama de ventilador é aquilo que as pessoas normalmente pensam que é a sua salvação, mas isso é a última opção para o doente”, esclareceu.

“A terapia de oxigénio de alto fluxo e a ventilação não invasiva são as medidas que hoje nós sabemos que melhor, prognóstico conferem ao doente”, contou, acrescentando que é uma abordagem que exige uma preparação e um investimento por parte do profissional muito grandes”.

“Com estas técnicas não invasivas o doente não fica sedado, nunca deixa de falar e de comer”, adiantou.

Não há camas com ventilação para todos (7 ventiladores com capacidade para fazer ventilação invasiva e não invasiva e 4 que apenas fazem não invasiva nas três enfermarias), portanto, têm que gerir recursos, perante o doente que têm à frente. Realçou que todos os recursos que solicitaram para a capacidade instalada foram facilitados. Precisam de mais ventiladores não invasivos, que já estão pedidos, mas que ainda não chegaram porque estão esgotados.

“Damos prioridade a doentes com maior probabilidade de sobrevivência”

Joana Louro conta que no internamento Covid nas Caldas não se está a decidir quem vive e quem morre. Explica que para todos os pacientes é calculado um “teto terapêutico, que estabelece até que ponto o doente é tratável”. Os doentes que são internados têm que ter critérios clínicos de internamento, sobretudo hipoxemia (baixo oxigénio no sangue), que é condicionada por um envolvimento pulmonar.

“O vírus não é igual em todos os pacientes. Há aqueles que têm uma doença ligeira que praticamente não sentem e há doentes cujo vírus sofreu alguma mutação ou devido à sua genética tem uma agressividade muito grande”, contou.

A médica revela que têm pacientes com 25% do pulmão infetado e outros com 80%. “Tivemos doentes muito graves de 24 anos e tivemos doentes de 90 anos que venceram a doença”, relatou.

Quando o nível de oxigénio no sangue dos pacientes não melhora com nenhumas das técnicas que têm disponíveis neste internamento, então é discutida a transferência com os médicos dos cuidados intensivos dos hospitais centrais. “Por vezes acham que não é um candidato intensivo porque há outros doentes com mais probabilidade de sobrevivência que terão mais direito àquela cama e isso é horrível”, lamentou.

Já Ana Marques explica que quando estão a dar ao doente oxigénio com a entrega otimizada e ele mantém cansaço e sinais de dificuldade respiratória “estamos no timing de o transferir”.

Nessa altura é discutido com os profissionais dos cuidados intensivos se esse paciente tem critérios para ser transferido. “Há doentes que para nós teriam esses critérios e que para os intensivos o teto para esse doente é a ventilação não invasiva”, adiantou.

“Tendo uma cama que é tão cobiçada, tem que ser gerida e o facto de os entubarmos não lhes vai dar mais oportunidade face àquilo que nós já lhes estamos a dar”, explicou a médica.

Referiu ainda que provavelmente não iriam beneficiar do ventilador invasivo. “Alguns doentes entram mal e nós achamos que os devemos transferir pelo critério idade, mas depois iniciamos este tipo de terapia e eles dão a volta muito bem”.

A especialista em medicina interna alertou para a obesidade que nos doentes Covid internados tem tido um “prognóstico e uma evolução desfavorável em todas as idades”.

“Estamos a fazer a diferença a estes doentes”

Joana Louro reconhece que “estamos a fazer a diferença”. “Tenho colegas de cuidados intensivos de hospitais centrais que me dizem que se tivessem um familiar doente era no hospital das Caldas que gostariam que estivesse”, salientou.

“Temos uma equipa única organizada nos três espaços, havendo sempre obrigatoriamente um sénior ou interno da especialidade de medicina a coordenar os outros elementos”, explicou.

A equipa é composta ainda por quatro fisioterapeutas que estão, segundo a médica responsável, a fazer um trabalho espetacular com estes doentes. “Além da parte de reabilitação cardiorrespiratória, é preciso trabalhar a mobilidade para que quando forem para casa já consigam andar”, contou.

“A logística é grande porque o doente internado com Covid tem que ser levantado, sentado, colocado de barriga para baixo e os fisioterapeutas ajudam-nos muito nisso”, referiu, adiantando que “colocar o doente em prono”, é uma técnica que provou ser eficaz no combate a doenças respiratórias graves.

Têm também o apoio da equipa de dietistas, porque os “doentes têm que estar alimentados com muitos suplementos para que não fiquem subnutridos”.

A equipa de saúde mental tem sido, segundo Joana Louro, uma ajuda preciosa tanto nos doentes como nos familiares e também com os profissionais de saúde que precisam muitas vezes de apoio. “Trabalham com as famílias antes da morte antecipada e mesmo depois do luto”, revelou.

“A Ação Social é área de intervenção estratégica”

A Ação Social constitui também uma área de intervenção estratégica no internamento Covid, na medida em que é importante tomar medidas que promovam o bem-estar dos doentes. O objetivo prioritário é organizar, disponibilizar e mobilizar as condições para os doentes continuarem a recuperação em casa. “Temos casas que não estão preparadas nem sequer para o inverno quanto mais para ter um doente com estas caraterísticas no domicílio”, disse a assistente social do hospital das Caldas, Helena Mendes.

A responsável referiu que existem famílias que nem uma casa de banho têm no interior da habitação e “cuidar destes doentes com as condições que têm é extremamente complicado”. Por outro lado, há famílias com “condição económica, mas com um problema social, o que nos obriga de trabalhar de forma diferente”.

Segundo a assistente social, “o problema social aumentou com a pandemia”. “Podem faltar recursos, mas não nos falta a imaginação para ir à procura de respostas”, assegurou Helena Mendes.

Ana Simão, que dá apoio social na área da saúde materna e infantil na unidade das Caldas, tem estado durante a pandemia a amparar mulheres grávidas e recém-mamãs que estão positivas com Covid-19. “O que me deparo muitas vezes é que na família existem também outros elementos infetados e o bebé não está positivo e há necessidade de criar aqui uma resposta para a mãe poder estar isolada com o bebé e poder amamentar, e estar o menos tempo possível com o recém-nascido”, explicou. Tem encontrado respostas ao nível do exterior e não na família, e revela que “já houve mães com bebés a serem encaminhadas para estruturas de apoio de retaguarda”.

“Não há ninguém que morra no internamento que a família não se venha despedir”

Numa ótica de humanização, a coordenadora do internamento Covid permite a visita de familiares aos pacientes, nomeadamente para a despedida. “Não há ninguém que morra no internamento Covid que a família não se venha despedir, se não quiser. Foi um erro que nós cometemos na primeira vaga no ponto de vista global”, sublinhou.

Ana Marques explica que conseguem perceber o desfecho dos doentes e numa fase em que “ainda conseguem falar com as famílias” permitem a visita. “Por vezes as famílias não percebem porque estamos a chamar, mas consideramos a visita fundamental enquanto eles conseguem comunicar”.

“Nunca vi tantas pessoas morrerem”

“Estamos a falar de muitas mortes como nunca vimos e sim ao princípio morreram os mais idosos, mas também estão a falecer os mais novos e isto é importante as pessoas perceberem”, alertou Joana Louro.

“Morreram aqui doentes que eram os avós que cuidavam dos netos e que continuavam a ser a estrutura da família de alguém”, indicou, acrescentando que “há alturas que passamos uma manhã a dar más notícias e a dizer aos familiares que o doente está mal e que vai agravar e as pessoas perguntam porque não vão para os cuidados intensivos”. “As pessoas não percebem que estes doentes, mesmo que tivessem uma vaga, a transferência para os cuidados intensivos não os iria salvar”, esclareceu.

“Nunca imaginei trabalhar com uma equipa tão coesa”

A enfermeira Anabela Coito é a coordenadora do internamento Covid desta unidade e ao JORNAL DAS CALDAS disse que nunca imaginou que ao fim de 28 anos de carreira estivesse a trabalhar com uma equipa tão “coesa”. Refere-se a todas as valências, tanto médicos, como enfermeiros, assistentes operacionais, serviço de aprovisionamento, farmacêuticos, limpeza entre outros. Recorda que a equipa foi formada com profissionais de vários serviços e com colegas que nunca tinham trabalhado na área da medicina.

“Se no início estavam um pouco revoltados porque eram pessoas que estavam habituadas ao seu ambiente e de repente tiveram de prestar apoio a outro tipo de doentes, posso dizer que agora somos os melhores e a fazer um trabalho espetacular”.

Já a enfermeira Ana Morins, que trabalhava na urgência destacou a oportunidade que dão às famílias de se despedirem dos doentes: “Tantos os pacientes como os elementos da família reconhecem essa medida como um momento muito importante”.

Sem esconder a emoção e as lágrimas recordou a gratidão dos doentes que têm alta. “Eles sabem que estiveram mal e saem daqui com lágrimas nos olhos com consciência de que venceram a Covid e é isso que nos dá força para continuar”.

A primeira vaga foi um bocadinho mais assustadora porque havia pouca informação. Agora estão mais preparados. Mas o trabalho diário com os doentes é muito mais pesado em termos pessoais, em termos psicológicos e em termos físicos. Trabalhar em área Covid, vestidos com um equipamento de proteção individual, sem poder beber água nem ir à casa de banho, horas a fio, é muito duro.

“Os doentes entram aqui com a morte estampada no rosto”

A médica coordenadora do internamento Covid destaca o bom trabalho que estão a fazer, mas reconhece que com aumento de camas são precisos mais recursos humanos diferenciados. “Temos o apoio de todas as especialidades do hospital, mas a medicina interna está brutalmente sobrecarregada”, frisou.

O receio que têm de apanhar o vírus é porque depois têm que ir para confinamento e vão sobrecarregar ainda mais os profissionais. “A equipa está espremida ao máximo e neste momento se um de nós ficar doente e for para casa já não há substitutos”, salientou.

Quando não está no hospital está sempre em contacto com os colegas que permanecem, porque considera importante estar ao lado de quem trabalha. Foram já dezenas os casos que lhe passaram pelas mãos. E acabou por conhecê-los a todos. “É cansativo porque nós saímos daqui, mas continuamos a pensar, não temos como desligar”, desabafou Joana Louro.

Contudo, sublinhou que os profissionais têm de se manter fortes. “Temos de nos unir apesar do cansaço, nós somos o melhor que estes doentes têm. Se não estivermos cá não há mais ninguém”.

“Mas para estar aqui a 100% e não falharmos aos doentes, estamos em casa a 20% e este sentimento é “desgastante”, porque “os profissionais também têm família”.

No entanto, é a felicidade que vê em cada doente que vence esta doença que a faz continuar. “Estes pacientes entram aqui com a morte estampada no rosto, onde a pergunta quando chegam ao internamento é se vão morrer”, relatou.

A médica de medicina interna não tem dúvidas do “excelente trabalho que todos estão a fazer no internamento Covid” e agradece a solidariedade da comunidade e das empresas para com os profissionais do hospital das Caldas da Rainha, que têm recebido várias ofertas.

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