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Negação

Francisco Martins da Silva

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No livro Crítica da Razão Negra (Antígona, 2014 e 2019), de Achille Mbembe (camaronês, filósofo e professor universitário de História e Ciência Política), do capítulo Corpo, Estátuas e Efígies, pode resumir-se o seguinte:
Francisco Martins da Silva

— Estátuas, efígies e outros monumentos coloniais representam ideologicamente “heróis” mortos. A par das estátuas e efígies, há edifícios monumentais e infra-estruturas: estações ferroviárias, palácios dos governantes coloniais, pontes, fortalezas, museus, cine-teatros, escolas, hospitais, et cetera.

Em torno destas obras constrói-se a noção de dádiva sem contrapartida — foram generosamente cedidas aos indígenas. As múltiplas significações destas obras continuam a afirmar-se nos lugares públicos, muito tempo após a proclamação das independências dos territórios colonizados.

Para ser duradoura, a dominação exerce-se não apenas no corpo dos subjugados, mas também no espaço que habitam e no seu imaginário, ao ponto de os impedir de reflectir por si. O colonizado acaba a pensar, a falar e a escrever do ponto de vista do colonizador. A consciência negativa, de não ser nada sem o senhor e de tudo lhe dever, comanda o quotidiano e esvazia-o de qualquer manifestação de livre vontade. Os vestígios materiais do potentado são os sinais da luta física e simbólica que o poder colonial infligiu ao colonizado.

Compreende-se que as estátuas e os monumentos coloniais não fossem em primeiro lugar artefactos estéticos para embelezar cidades. As suas premissas estão na maneira como se fizeram as guerras de conquista, de “pacificação” e se combateram as insurreições. Estátuas, efígies, monumentos e infra-estrutura coloniais foram a extensão do terror racial e a expressão do poder de destruição e rapina que, do princípio ao fim, impulsionou o projecto colonial.

Estátuas e efígies funcionam como ritos de evocação dos funestos defuntos, aos olhos dos quais a humanidade colonizada não contou, e perpetuam na memória dos ex-colonizados esse passado de assassínio e crueldade.

Noutro livro, Memórias da Plantação (Orfeu Negro, 2019), de Grada Kilomba (portuguesa, artista interdisciplinar, escritora e teórica), lê-se nas primeiras linhas:

— «Lancei este livro há precisamente dez anos, em Berlim, onde vivo ainda hoje. Na altura, tive a sorte ou destino de ganhar uma das bolsas mais honrosas do governo alemão, para um doutoramento. Isto pouco depois de concluir os meus estudos em Lisboa, onde, ao longo dos vários anos, em grande isolamento, fui a única estudante negra em todo o departamento de psicologia clínica e psicanálise. Nos hospitais onde trabalhei, durante e após os meus estudos, era comum ser confundida com a senhora da limpeza, e por vezes os pacientes recusavam-se a ser vistos por mim ou a entrar na mesma sala e ficar a sós comigo. Deixei Lisboa, a cidade onde nasci e cresci, com um imenso alívio.

[…] Cheguei a Berlim, onde a história colonial alemã e a ditadura imperial fascista também deixaram marcas inimagináveis. E, no entanto, pareceu-me haver uma pequena diferença: enquanto eu vinha de um lugar de negação, ou até mesmo de glorificação da história colonial, estava agora num outro lugar onde a história provocava culpa, ou até mesmo vergonha. Este percurso de consciencialização colectiva, que começa com a negação – culpa – vergonha – reconhecimento – reparação, não é de forma alguma um percurso moral, mas um percurso de responsabilização.»

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