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Eu quero sempre abraçar abril…

Maria Dulce Horta
27 de Abril, 2020
Recordar o 25 de abril permanece um ato cívico e um dever ético. É uma data que não pode deixar ninguém indiferente. Aqui venho mais uma vez falar deste acontecimento histórico que mudou muitas vidas e também a minha.
Maria Dulce Horta

Até ao dia 25 de abril de 1974 fomos privados de liberdade. Salazar criou uma sociedade de rematados hipócritas e indiferentes. Vivíamos no “reino da opressão”, num regime execrável, horrendo, ignóbil, aterrorizador e obsceno…sinónimos que me ocorreram neste momento. A Pide defendia o regime e seguia ordens e cegamente obedecia sem dó nem piedade.

A fome habitava em casas de família. Foram anos de miséria e de guerra que empobreceram o país. Os jovens tinham como futuro certo a guerra de África. Atrasaram o comércio e a indústria, deram um golpe mortal na agricultura. Tínhamos uma agricultura atrasada, pobre, que desesperava camponeses que trabalhavam de sol a sol. A única saída era a emigração e assim foram embora milhares de portugueses, cujo único objetivo era a sobrevivência. Portugal despovoou-se.

O analfabetismo era o maior da Europa. Salazar conhecia os males do país, mas nunca quis enfrentar os opositores. Dialogar? Para quê?

Pertenço a uma geração portadora de um projeto que cultivou a paixão de modelar o mundo, que lutou e (luta até aos dias de hoje) pela independência, autonomia, emancipação, iniciativa, autodeterminação, direitos e deveres, confiança e liberdade!!!

No dia 25 de abril de 1974, a rádio anunciou às sete da manhã que tinha havido uma revolução. E ouvimos: “Aqui posto de comando das Forças Armadas. Conforme tem sido transmitido, as Forças Armadas desencadearam, na madrugada de hoje, uma série de ações com vista à libertação do país do regime que há longo tempo o domina”.

Uma alegria maior, coletiva, tomou conta do país. Na Rua Ator Isidoro, nº 28, junto ao Areeiro, juntaram-se a família e os amigos.

40 e muitos anos depois abraço de novo abril com toda a minha força e garra, recordando os amigos que o festejam num outro mundo, e com outros companheiros presentes, vamos todos soltar a memória e a euforia da festa dos cantares, da liberdade…cantaremos o hino de abril: “Grândola, vila morena…terra da fraternidade/em cada esquina, um amigo/em cada rosto igualdade”.

Afinal, as armas dos capitães que fizeram abril ostentaram cravos pregoeiros de que esta era uma revolução que acreditava que a terra prometida se albergaria neste país. Abril abrira os caminhos da paz, do convívio, da amizade. Éramos os conjurados da construção de um país de bem-querer. Havemos de construir um país de “amigos maiores que o pensamento”.

Quatro décadas e meia depois de abril, Portugal é um país melhor. Há idosos sós, solidão, famílias carenciadas, e aldeias despovoadas, violência, e muitas mais coisas feias? Há! Todavia, em traços largos, a construção de hospitais, de universidades, de escolas, o acesso ao ensino, a abertura de estradas, a criação do Serviço Nacional de Saúde, do salário mínimo nacional, as reformas, o alargamento dos direitos das mulheres…são reais conquistas de abril.

E relativamente às “melhores” conquistas do 25 de abril, escolho o fim da guerra colonial, a liberdade e democracia, o progresso e desenvolvimento económico de Portugal, o fim do isolamento internacional do país, e a criação do Serviço Nacional de Saúde (mau, mas nada havia, não esquecer…), mas sobre a medida que “mais” beneficiou os portugueses, se não se combinassem o SNS com a universalização da Segurança Social, a valorização do poder local, a democratização do acesso ao ensino…Portugal não era, hoje, o mesmo país, o sítio do poema.

O “ou” que anda por aqui é obtuso, oblíquo, trapaceiro. O “mais” e “melhor” são indecifráveis, impalpáveis… Lembram a velha pergunta de contos com moralidade de nariz de cera: Queres ser rico e doente ou pobre e ter saúde? Há escolha? Quero ser rico e ter saúde, óbvio. As opções pelas personalidades mergulham igualmente em narrativas de infância avelhentadas. O meu pai é melhor do que o teu, é mais alto…; o meu é melhor: é polícia… Este questionário pode tornar-se numa eleição de figuras como o que, há anos, colocou Salazar no pódio dos gostos dos portugueses…e não faltava mais nada se não acreditar que partidos políticos credíveis vão mobilizar as máquinas partidárias para este faz-de-conta que as percentagens a que chegarem são fiáveis.

Deixou-se de ser torturado com pontas de cigarros e arranhados com pregos até o sangue jorrar, deixou-se de se ser levado para dentro de uma praça de touros durante uma semana e mandarem fardos de palha para comerem, deixou de haver Tarrafal e isolamentos de um metro por dois, de semanas a fio fazer de estátua até se morrer, de se arrombarem portas às tantas da manhã tirando as pessoas da cama levando-as para celas nojentas e obscenas sem se perceber o porquê do estar ali, deixou-se de ouvir a frase “é proibido o ajuntamento de mais de duas pessoas”, e muito mais haveria para dizer.

Eu vi e senti na pele estas atrocidades, lutei e por uma vida melhor para todos…e sou quem sou hoje com um enorme orgulho.

Viva o 25 de abril, viva a liberdade.

A 25 de abril saiu à rua a liberdade, a guia do povo…e felizmente os cravos revolucionários, idealistas, únicos no mundo…estão vivos.

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo

(Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas, 1974)

Quem desconhece tais situações, que saúdem o 25 de Abril e não caiam em cenas patéticas do…antigamente é que era bom!

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