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Escaparate

A Quinta do Furadouro

4 de Março, 2020
Lembro-me de ir com o meu avô Manuel Calisto (1909-2000) até esta simbólica e soalheira chácara, por volta de 1980. Estava ali instalada a Celulose Beira Industrial (Celbi), SARL, uma empresa dedicada ao melhoramento genético dos eucaliptos, para fins comerciais, com a produção de celulose. Esse meu antepassado não possuía nenhuma relação com aquele estabelecimento, o seu intuito era apenas o de rever o imóvel que conhecera na infância.

A Quinta do Furadouro possui uma história muito peculiar, vincada desde o final do século XI, quando foi erguida, pelo abastado aristocrata espanhol, D. João Manuel, o Grande (séc. XI), na, hoje reconhecida, freguesia do Olho Marinho, no concelho de Óbidos. Além do magnífico pórtico, sempre guardado por belos cães de raça, que impediam a entrada de estranhos, a propriedade possuía uma extraordinária mansão, detentora de excelsa capela em honra de N. S. do Livramento. É de notar que, nesse século XI, a Europa vivia em pleno feudalismo, preludiando, inclusive, a Baixa Idade Média, onde ocorreu um considerável aumento demográfico em diversos quadrantes da Europa, com um notável desenvolvimento do comércio e o surgimento de inúmeras novidades em relação à técnica agrícola, entre elas, a introdução do arado de ferro, da charrua, e da rotação trienal de culturas. Nesse período, os nobres e cavaleiros que dedicavam grandes serviços aos ricos senhores, especialmente militares, obtinham como contrapartida uma herdade, além do poder de coletar impostos em demarcada região. A Quinta do Furadouro estava, portanto, destinada a ser oferecida como equivalência a algum préstimo. Enquanto em Lisboa a população urbana aumentava – agigantando-se a diferença que se apresentava entre burguesia e plebe – a região onde estava inserido o Olho Marinho era apenas um recanto agrícola. As lendas acerca dessa Quintana são inúmeras, porém, há uma que atiça consideravelmente a nossa embriaguez cultural: O local poderia ter sido utilizado como ponto de encontro de D. Pedro I (1320-1367) e D. Inês de Castro (1320/1325-1355), o que pode corroborar essa história é o facto de esse património ter sido doado – após o assassinato de D. Inês – a D. João de Portugal (1346/1352-1387/1400), filho do casal. Reza ainda a crónica que a Quinta do Furadouro passou por inúmeras outras mãos. A maioria relacionada com a monarquia. Depois de sete séculos de altos e baixos financeiros, é adquirida por D. Gregório José António Ferreira de Eça e Meneses, 2º Conde de Cavaleiros (1769-1825), que lhe dá um impulso agrícola considerável, tendo, inclusivamente, lhe anexado a adjacente Quinta do Ceilão. Em meados do século XIX, toda a extensa propriedade é vendida aos Duques de Palmela, D. Pedro de Sousa Holstein (1871-1850) e D. Eugénia Francisca Maria Ana Júlia Felizarda Apolónia Xavier (1798-1848), passando depois, como moeda comercial, a outras mãos, entre elas, a de descendentes de José Ferreira Pinto Basto (1774-1839), fundador da Fábrica de Porcelanas da Vista Alegre. Naquela tarde, num já longínquo dia do ano de 1980, pouco, ou nada restava da história da Quinta do Furadouro. Quem lá trabalhava não refletia, por palavras, a riqueza pictórica do local. Como também não sabia homenagear a memória de gerações que cultivaram, duramente, aquelas terras. Sentámo-nos, eu e meu avô, numa simpática extensão de relva e, retirando duas maçãs da algibeira, revimos a crónica de uma nossa ascendente, que ali também viveu um esplêndido romance de amor.

Rui Calisto

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