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Rafael Bordalo Pinheiro, os seus cronistas e as suas caricaturas

Rui Calisto

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Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), filho adotado das Caldas da Rainha, é um dos artistas mais badalados da vida nacional, em parte, claro, pelo seu talento, explanado nas mais diversas vertentes (aguarelista, caricaturista, ceramista, decorador, ilustrador e jornalista), mas, também, graças aos jornalistas e cronistas da época que muito o bajularam, encantados pela graça de sua pena e pela sua galhofeira verve.

Uma das crónicas mais interessantes acerca de Rafael Bordalo Pinheiro foi escrita por Alfredo de Mesquita (1871-1931), nela, este respeitado autor faz o paralelo entre Bordalo e os caricaturistas Gavarni (Sulpice Guillaume Chevalier, 1804-1866), Daumier (Honoré-Victorien Daumier, 1808-1879) e Cham (Amédée de Noé, 1818-1879). Nesse texto, Mesquita deposita, entre outras, estas palavras consagradoras: “conhecida a obra de Rafael Bordalo, e por meio dela compreendida a individualidade do artista, resultam e ressaltam, definidas bem e bem flagrantes, a justeza da comparação buscada e a justiça do propósito na busca. No António Maria, que durante um período de alguns anos, a miúdo condensa em poucos traços páginas inteiras da história portuguesa, e num simples traço de espírito julga e comenta cada situação, embatem-se e amalgamam-se, positivamente, as violências e as cruezas do ridículo de Daumier, as amarguras e os tédios da sátira de Gavarni, os risos e as complacências do cómico de Cham. E, todavia, tudo o que nele há de qualidades e de vícios, de impecável e de exagerado, tudo nele é espontâneo, é sincero, é seu, e por isso mesmo tudo isso lhe dá o originalíssimo sinete que a sua obra guarda”.

Rafael Bordalo Pinheiro, atualmente, nas Caldas da Rainha, tem a sorte de possuir algumas “viúvas”, pessoas que se batem por ele de modo afoito, seja na crónica, seja na conversa de café, porém, o que essas viúvas realizam é ainda pouco, perante tudo o que se poderia efetuar para popularizar novamente todo o seu engenho no campo da caricatura (falemos apenas deste, por enquanto).

Creio que é aqui que as Câmaras Municipais de Lisboa e Caldas da Rainha poderiam entrar, abraçando uma salutar tentativa de resgate de toda a produção caricatural Bordaliana, publicando-a em livros digitais (e-books). Essa obra, dispersa em diversas publicações portuguesas, brasileiras, espanholas, etc., possui um rasto entre 35 e 40 anos de trabalho do artista. Ter esse acervo “à mão de semear” seria, sem dúvida de uma riqueza sem par.

Uma tarefa a ser efetuada com a minúcia e o talento de um bom grupo de investigadores, amparados pelas duas Câmaras Municipais citadas acima e, claro, com o apoio, mais do que necessário, do Museu Rafael Bordalo Pinheiro.

Pelo que averiguei, creio que a obra caricatural de Bordalo está espalhada por livros, revistas, almanaques, jornais e panfletos num número que pode estar entre os 120 e os 130 títulos. Uma publicação cuidadosa e cronológica desse material poderia dar-nos o retrato de um excelente período do século XIX, principalmente do Portugal da época.

“Começou a fazer caricatura por brincadeira. Mas é a partir do êxito alcançado em O Dente da Baronesa (1870), folha de propaganda a uma comédia em 3 actos de Teixeira de Vasconcelos, que Bordalo entra definitivamente para a cena do humorismo gráfico”.

Divulgar o traço bordaliano, utilizando os modernos meios ao alcance da comunidade virtual, será, creio, um expediente para melhor compreender o que as suas retinas captaram e a sua arte ressaltou. Produzindo, assim, mais lenha, para aquecer os pés das suas desmesuradas viúvas.

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