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Jovens casais preferem arrendar casa mas são “forçados” a comprar

Mariana Martinho / Diogo Casimiro

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Com entrada em vigor das novas medidas para contratar crédito, juntando-se aos preços altos e os baixos salários, os jovens casais, na hora de procurarem a sua própria habitação, preferem o arrendamento. Mas a pouca oferta no mercado do arrendamento obriga os jovens a procurar outra solução, optando assim por comprar “um imóvel da banca, com financiamento a 100%”. Para quem vive deste negócio, as novas regras não têm provocado ainda grandes obstáculos mas tem aumentado a dificuldade para ajudar quem procura habitação e não tenha feito algumas poupanças.
Novas regras levam ao aumento da procura por imóveis para comprar em vez de arrendar

Essas novas regras do Banco de Portugal (BdP), que criam restrições à concessão de novos créditos à habitação e ao consumo, e que entraram em vigor no início deste mês, estabelecem que quem quiser comprar casa terá de assegurar, pelo menos, 10% do montante de entrada do imóvel.

Numa altura em que o preço dos imóveis volta a subir e as instituições bancárias voltaram abrir “os cordões à bolsa”. Segundo os dados divulgados pelo BdP, o crédito à habitação continua a aumentar. Só em maio, depois de uma quebra registada em abril, voltou a subir, superando os 800 milhões de euros em empréstimos para este fim.

Apesar de ser apenas uma recomendação, o supervisor e regulador bancário introduziu um conjunto de limitações para que os bancos não assumam riscos excessivos nos novos créditos e para que os clientes tenham capacidade em pagar as dívidas. Uma das principais alterações é o facto do dinheiro emprestado para a compra pode ser no máximo de 90% do valor do imóvel. Este rácio é calculado com base no menor valor entre o preço de aquisição da casa e o valor da validação da casa.

No caso de créditos para aquisição de imóveis detidos pelos próprios bancos e para contratos de locação financeira imobiliária pode ser emprestado o valor total (100%) do imóvel em garantia.

Além disso, os bancos passam a estar obrigados a calcular a taxa de esforço do cliente, contabilizando todos os encargos mensais com os outros empréstimos existentes. Essa percentagem não pode ultrapassar 50% do rendimento disponível.

Outro limite é a duração do empréstimo, que não pode ir além dos 40 anos.

Mesmo com as novas medidas, o agente imobiliário da Remax Vantagem Real das Caldas da Rainha, Miguel Mil Homens, afirmou que “tivemos um aumento na procura pelos imóveis, que têm a possibilidade de ter 100% de financiamento”.

Apesar de existirem vários grupos de público, no que toca a compra de casas, tanto no centro da cidade, como nos arredores”, o agente imobiliário confessou que estas as novas regras vão permitir criar um “bom hábito nos clientes compradores”, visto que “são obrigados a terem algum capital próprio para poderem adquirir o seu imóvel, sem terem que esperar que outra entidade lhes financie o montante”.

Quem também afirmou que a “procura pela aquisição de imóveis continua ser elevada”, depois da entrada das novas regras, foi a agente imobiliária Mariana Lourenço, da Classic Mediação e Imobiliária, nas Caldas da Rainha. Contudo, “agora são pessoas que têm algum poder económico”.

Igualmente verificou-se um aumento do interesse, no caso dos mais novos, pelas casas com financiamento 100% do banco.

Comprar casa torna-se mais rentável

Enquanto há pouco menos de uma década, quando se pensava em viver sozinho ou em casal, o arrendamento estava em desuso e a compra era a primeira hipótese, agora, a geração denominada Millennials, que integra indivíduos nascidos entre 1980 e 2000, está a inverter essa tendência, deixando marca no mercado imobiliário e revelando gostos e tendências bem diferentes das gerações mais velhas. Conhecidos por serem mais desprendidos em relação à propriedade da habitação, estes compradores jovens, que se integram numa faixa etária até aos 37 anos, preferem arrendar, procurando sobretudo habitações onde a tipologia não vá além do t2 e localizados preferencialmente no centro das cidades ou perto da área de influência da sua vida laboral e social. Além disso aproveitam a opção arrendamento jovem através do programa do Estado, chamado Porta 65.

Segundo o agente imobiliário da Remax Vantagem Real, “os jovens até aos 30 anos não procuram casas para comprar, porque estão em início de vida e não têm posses financeiras para poder dar de entrada”. Nesse sentido, esclareceu que “recorrem muito ao arrendamento”.

Igualmente referiu que os “valores do arrendamento aumentaram significativamente, devido a haver uma maior procura do que oferta”.

Contudo, a escassa oferta e os atuais preços praticados no mercado de arrendamento leva a esmagadora maioria dos jovens, a optar por comprar casa, sobretudo, aqueles que “já estão efetivos”.

Apesar de terem preferências distintas e de valorizarem mais as experiências do que as aquisições, os jovens quando saem de casa dos pais procuram um espaço para arrendar, mas nem todos conseguem concretizar esse objetivo. Perante este impasse, voltam-se para a compra de uma casa, sendo cada vez mais uma “solução mais apelativa” para os jovens casais, visto que muitas vezes “torna-se mais rentável do que arrendar um imóvel”.

No atual contexto de alta subida de preços no mercado de arrendamento, a agente imobiliária da Classic de Caldas da Rainha explicou que “compensa muito mais pois ao fim de 18 anos a pagar renda terá a sua própria casa já liquidada junto do banco”.

Os valores podem variar de região para região, mas há “um traço comum” ao final do mês, mesmo contando com os custos dos impostos, seguros, comissões e juros associados aos empréstimos junto da banca: “Arrendar custa sempre mais do que comprar”.

Além disso sublinhou que “a procura pelo arrendamento é todos os dias mas existe pouca oferta de produto”, o que “é pena”. Adiantou que os “preços das rendas dispararam devido à pouca oferta”, havendo assim habitações t1, nas Caldas da Rainha, com valor mensal de 450€. “Não é tão fácil mas também arrenda-se”, referiu.

Essa opção foi o que levou o jovem casal João Oliveira e Rita Dinis a comprar casa própria na zona das Caldas da Rainha. “Um imóvel arrendado é um investimento “perdido” para o arrendatário, compensando muito mais gastar o mesmo numa prestação mensal de um crédito à habitação, que ficará a ser nossa propriedade”, justificou.

Durante mais de quatro meses, o jovem casal procurou casa, subindo ruas atentos à possibilidade de existir um ou outro anúncio à janela, folheou jornais e dissecou sobretudo as plataformas online. “Tudo o que aparecia ou era velho, sem condições ou então, tinham preços muito elevados”, esclareceu o jovem.

No final do ano passado, os jovens “fartos de procurar”, conseguiram “achar um imóvel adequado às nossas expetativas”, através de um amigo, que também tinha adquirido um imóvel num dos edifícios recém-acabados da cidade.

Este jovem casal optou por adquirir uma casa do banco, tendo sido uma “boa oportunidade de negócio”. Para além disso, este tipo de financiamento detém benefícios relativos às taxas de juro e ao spread, e ainda a possibilidade de financiamento a 100%, portanto, sem precisar de dar uma entrada inicial, o que “por vezes é complicado”.

Contudo, a demorada resposta do banco, a obrigação de custear as despesas legais com contratos, registos, hipoteca, comissões bancárias e impostos, e o facto de serem exigido seguros pelas instituições bancárias, fizeram com que “nem tudo fosse um mar de rosas”.

Nesse sentido frisou que “comprar uma casa é sempre uma grande decisão e não deve ser tomada por impulso, mas sim de forma ponderada”. Por isso, é “preciso ter cuidados extra”, começando por fazer bem as contas, comparar preços, informar-se sobre as condições da casa, e se recorrer a um empréstimo bancário, o “nosso conselho é que não se deixe ficar pelo seu banco, procure noutras instituições bancárias, apresentando posteriormente a sua melhor proposta ao seu banco, para ver se consegue igualar ou melhorar a prestação”.

É um “achado” quando aparece um imóvel a um preço razoável

Quem também teve dificuldades em encontrar “um imóvel apropriado” foi o jovem casal Hugo Santos e a namorada, que viviam num apartamento arrendado nas Gaeiras. Procuraram casa durante meses nas Caldas da Rainha e arredores, ponderando ainda ir para São Martinho do Porto, mas “rapidamente essa ideia desapareceu”, devido ao preço elevado das habitações.

“Vimos para aí três casas e essas que vimos não serviam”, contou Hugo Santos. Não eram só os preços, “as condições dos apartamentos também não eram as melhores”. Até que encontraram um t3, num prédio recente, que tinha sido também entregue ao banco.

“Foi um achado”, sublinhou o jovem, esclarecendo que “fica numa zona bem servida e próximo do centro da cidade”. Ou seja, “tinha tudo o que era preciso”, referiu o jovem. Contudo, confessaram que tiveram algumas dificuldades por parte das instituições bancárias.

“Os bancos nem sempre foram verdadeiros e transparentes na informação que transmitiam, pois hoje era uma coisa e amanhã já era outra”, sublinhou Hugo Santos, adiantando que “consoante o processo ia avançando iam dizendo coisas novas que nunca antes tinham sido faladas”. “Isso torna-se irritante”, sustentou o jovem.

Outra questão que alertou foi para o facto das instituições bancárias “obrigarem a subcontratação de serviços, como por exemplo cartões de crédito e os seguros de vida e da habitação”. Além disso, “hoje em dia nem todos os jovens têm capacidade para dispensar cinco mil euros em despesas iniciais”, que incluem as escrituras e impostos.

Apesar disso, este jovem casal tentou desde início que pensou em comprar casa “estar o máximo possível informado para não existirem surpresas”.

Por tudo isto, Hugo e a namorada aconselham quem estiver a pensar comprar um imóvel próprio a “fazer consultas em vários bancos e analisar bem as propostas”. Por vezes, pagar uma prestação muito elevada “não significa que vamos pagar a casa mais cedo, e acabamos por deixar alguns sonhos e ideias de parte”.

Igualmente aconselhou a ter atenção à isenção de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) e aos condomínios, pois “uma má gestão pode encarecer o valor mensal futuramente”.

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