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Populismo afetuoso

Francisco Martins da Silva

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O termo “populismo” vem do final do século XIX, tendo então uma aplicação simétrica: na promoção da reforma agrária radical na Rússia, e, nos Estados Unidos, na justificação das vantagens do padrão bimetálico (taxa de troca entre o ouro e a prata, o sistema monetário típico do século XIX), e do crédito como incentivo à pequena agricultura. Nos anos trinta do século XX serviu também para engrandecer os benefícios da urbanização e da industrialização e denegrir o domínio da aristocracia rural na América Latina.

Desde então, o populismo não só não desapareceu como tem progredido, havendo mesmo quem defina o século XXI como o século do populismo. Desde Maduro a Trump, de Erdogan a Orbán, de Putin a Subianto, populistas há-os em todos os continentes, uns de esquerda, outros de direita e outros antes pelo contrário. De facto, têm ocorrido fatores estruturais que justificam a proliferação do populismo, como um número crescente de eleitores não se sentir representado quer pela esquerda quer pelo centro-direita, e se verificar a fragmentação política, com o surgimento de inúmeros pequenos partidos, facilitando vitórias eleitorais com um mínimo de votos. E esse mínimo de votos consegue-o qualquer político que souber capitalizar essa predisposição antissistema do eleitorado. Hoje facilmente um populista consegue ser transversal a sensibilidades de esquerda e de direita, cada vez mais diluídas, subalternizando as questões económicas e centrando-se em aspetos culturais, exagerando dramaticamente a sua importância, como sejam as vulnerabilidades e os perigos de uma sociedade aberta, inclusiva e tolerante, e glorificando sempre o Estado-nação.

Mas o que é, afinal, o populismo? Não há uma definição taxativa. Mas há atitudes que denunciam os políticos populistas como seja, desde logo, a tentativa de se relacionarem diretamente com as massas sem a mediação dos partidos ou das instituições políticas representativas, servindo-se de uma retórica rasa feita das grandes abstrações com potencial dramático como “o povo”, “os que sofrem”, “os que ficaram sem nada”, “os espoliados”, “os que trabalham”, etc., opondo-os “aos que nos têm governado” e à “elite corrupta”, procurando criar um vínculo emocional com os estratos sociais de menor poder aquisitivo que constituem a maioria da população. Não é por acaso que se verifica que este modo de atuar costuma ter êxito sobretudo em países com grandes assimetrias sociais e um elevado nível de pobreza nas classes mais baixas. Outro comportamento típico dos políticos populistas é o uso constante dos media, em especial da televisão, a documentar a sua presença solidária, emotiva, junto do “povo”, onde aproveitam para, em linguagem popular, deslegitimar mais ou menos explicitamente o governo em funções, os partidos e a tal elite inimiga do povo. Por fim, o populista distingue-se por definir uma separação virtuosa entre povo e elite, baseada em critérios morais em vez de critérios socioeconómicos.

Na Alemanha, a extrema-direita acedeu ao Bundestag e na República Checa foi eleito mais um multimilionário populista, antes acusado de corrupção, assim como está iminente a entrada da extrema-direita no governo da Áustria. Agendas antidemocráticas, nacionalistas, xenófobas, servindo-se do sistema democrático para tomar de assalto a democracia através da retórica populista — o novo normal. Desse perigo escaparam, recentemente e apenas por agora, a Holanda e a França, com, respetivamente, Geert Wilders e Marine Le Pen a obterem inesperados e inquietantes resultados eleitorais.

Por cá, depois do sombrio Eanes, do bonacheirão Soares, do muito preocupado Sampaio e do patibular Cavaco, não havia razão para falar de populismo, até nos calhar em sorte o afetuoso Marcelo.

O politólogo holandês Cas Mudde (considerado um dos maiores especialistas em populismo) considera que os políticos populistas seguem Rousseau no entendimento de que o governo representativo é uma forma aristocrática de poder e que há, por isso, uma certa afinidade entre o populismo e a democracia direta. Na ótica populista, a política deve ser uma aplicação da vontade do povo. Ora, Marcelo, que se desdobra em ubíquas digressões beijoqueiras de Norte a Sul, sempre com a televisão atrás, procura criar nesse povo que ele abraça a ideia de que é o único que vai ao encontro da sua vontade. Cas Mudde também defende que o populismo per se não é bom nem mau para o sistema democrático, dependendo das circunstâncias a qualidade das suas consequências. Ou seja, Marcelo, tendo em conta a sua popularidade e o contexto em que diariamente expande o seu poder, pode funcionar como ameaça ou como corretivo? Na comunicação social, que ele absolutamente domina, é consensual que os seus democráticos abraços tiveram um papel no desanuviar?da depressão que vinha dos anos do troika e?da asia gerada nas últimas eleições legislativas. Mas, recentemente, na sequência dos trágicos incêndios, o populismo de Marcelo levou a que, num psicologismo de reality show e telenovela, se fizesse a análise da atitude contida do primeiro-ministro como sinal de falta de afeto e compaixão. Por comparação, a encenação dramatizada e lacrimosa do Presidente da República foi vista como verdadeira demonstração pública de sentimentos, sem se perceber a sua instrumentalização política. Como tem alertado Pacheco Pereira, Marcelo criou um padrão de comportamento emocional que pressiona todos a segui-lo, abafando o papel da racionalidade: depois das galvanizadoras afetuosidades presidenciais, vêm as decisões do governo tomadas à pressa, que apenas servem para aliviar a pressão, não mudando nada de basilar no plano estrutural e coletivo.

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