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Um dia na apanha da Pera Rocha no Bombarral

Mariana Martinho

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Quando chegamos a meados de agosto chega a tradicional época de apanha da fruta do Oeste, apesar deste ano a campanha ter começado só nos últimos dias de agosto, algo que já não acontecia há cerca de dez anos. O atraso na colheita dos frutos deve-se às oscilações das condições climatéricas que se registaram ao longo dos últimos meses, com temperaturas amenas e períodos prolongados de chuva, tendo provocado dificuldades na época de floração e vingamentos dos frutos. Assim sendo, só no passado dia 29 de agosto é que muitos dos produtores de Pera Rocha da região do Bombarral começaram a colher os seus frutos e o JORNAL DAS CALDAS foi acompanhar um dia da campanha, no pomar Casal do Abreu, no Bombarral. Por esta altura é possível verificar muitos jovens, que andam na apanha da fruta durante semanas para ganhar algum dinheiro para os estudos ou para poupanças. Mas há também desempregados que aproveitam esta oferta sazonal para “ganhar algum”.
A colheita das pera já começou para muitos dos produtores da região do Bombarral

Sexta-feira, 07h30 horas. Um grupo de jovens e outros menos jovens, encontram-se no largo combinado, para depois deslocarem-se para o pomar Casal do Abreu, com 22 hectares, em Bombarral.

O dia que está a começar já quente um grupo de jovens e veteranos atarefa-se a colher as peras, naquela que será a última jornada de um trabalho, que irá durar três semanas. Antes de falar com o grupo, o JORNAL DAS CALDAS falou com o produtor para saber como está a correr este primeiros dias da campanha, que já conta com umas centenas de palotes.

No caso das Peras, João Alves um dos produtores e sócios do Centro de Produção e Comercialização Hortofrutícola (CPF), “a produção da região vai ser um pouco menos do que o ano passado, que ficou pelas 135 mil toneladas devido a um fungo, que está a condicionar o rendimento das explorações”. Prevendo assim “menos peras do que me 2015”.

Com um mês de atraso, o responsável estima que “a produção não será superior ao ano passado”, pois ainda é cedo “prever como será a colheita deste ano”. No entanto, acredita que provavelmente os frutos “em termos de açúcares e aromas vão estar excecionais, com um nível qualitativo muito favorável”.

“A Pera Rocha terá uma grande quantidade de açúcares, devido às temperaturas quentes registadas nos últimos meses”, explicou, justificando que essa quebra registada no ano passado, fez com que o produtor recebe-se em média 0,30 cêntimos por unidade.

Relativamente aos calibres, sublinhou que “não são muito generosos”, pois as “condições climatéricas foram adversas e o calor registado nas últimas semanas, afetou o desenvolvimento do produto”.

Apanha da fruta é oportunidade de trabalho para todos

Nos pomares da CPF, normalmente cerca de 150 pessoas de várias idades procuram esta oportunidade de trabalho sazonal todos os anos, não só pela “recompensa financeira” mas também pela experiência e o convívio.

Após as oito horas de subir e descer os escadotes, de arranhões e de baldes cheios e vazios, misturada com conversas e brincadeiras, com uma pausa para almoçar, os trabalhadores chegam às cinco e meia voltam a fazer o caminho inverso para regressar a casa. Apesar do “trabalho duro, o dinheiro é compensador”, sendo utilizado para várias finalidades como pagar propinas e dívidas, mas também comprar outras utilidades.

Segundo João Alves, “o grupo de trabalhadores depende de ano para ano, em que ajustamos as pessoas consoante as necessidades da exploração”. Quanto ao ritmo de trabalho, “o ideal é que seja constante ao longo das oito horas”.

Nos pomares, João Alves explicou enquanto visualizava a apanha da pera, que se encontra “pessoas de várias idades”, em que todos “devem apanhar e cuidar das peras como quem cuida dos ovos”. Ainda explicou que os mais velhos já estão habituados aos ambientes e os mais novos acabam por se habituar, sendo ágeis e com maior capacidade para subir às árvores.

“O fruto não pode levar cortes nem toques, pois cada corte vai deteriorar a qualidade do produto, acabando por ir para a indústria”, manifestou, acrescentando as “principais exigências são que as peras tenham pé e que sejam colocadas com cuidado no balde”.

Após ser colhida das árvores para o balde, são depositadas no palote, que leva entre os 200 e os 350 quilos de peras. Posteriormente, são recolhidos e amontoados por um trator, e colocados numa carrinha, acabando por ser transportados para o armazém.

“O ambiente que se vive na exploração é de descontração, mas muito disciplinado no que diz respeito à apanha da Pera”, concluiu.

Experiências dos trabalhadores

A colheita da fruta para muitos é uma experiência, que permite a troca de conhecimentos entre os mais velhos e os mais novos que vêm de vários pontos da região. Além disso, traz muitos momentos de brincadeira, convívio, piada, canto, mas sobretudo de trabalho.

Entre o barulho das máquinas que entram pelos pomares para carregar os palotes cheios, há vários jovens e veteranos que quiseram partilhar a experiencia com o JORNAL DAS CALDAS.

Catarina Freixo, 22 anos

“Este já é o meu terceiro ano consecutivo que venho à apanha da pera, devido ao dinheiro que consigo ganhar. Embora seja duro, o dinheiro que recebemos compensa, podendo no fim usufruir de umas boas férias. A maior dificuldade do trabalho é o facto de levantar cedo, o calor que se sente ao longo do dia e sobretudo, o conciliar os escadotes com apanha das peras em terrenos inclinados”.

José Fontoura, 54 anos

“Costumo tirar férias da minha principal atividade para vir apanhar pera todos os anos, de forma a ganhar algum extra. Além disso, adoro vir não só pelo ambiente mas também pelo grupo que normalmente é coeso, com espírito de companheirismo, o que se traduz em melhores resultados.

A principal dificuldade é o calor sendo sempre mais difícil mas já estamos habituados.”

Ana Cláudia, 27 anos

Já tenho alguma experiência na apanha, porque venho desde pequena. Como estou desempregada e preciso do dinheiro, optei por aproveitar esta oportunidade para ganhar algum extra. Apesar de ser um trabalho bastante duro, devido ao calor a que estamos expostos, o dinheiro que recebemos compensa. ?

António Cesteiro, 45 anos

“Este é o terceiro ano consecutivo e como estou desempregado opto por vir ganhar mais algum dinheiro, para ajudar a família e os filhos. Acho que as dificuldades deste trabalho dependem de pessoa para pessoa, e de idade para idade. Existem sempre uns dias mais duros que outros. Apesar do calor, aapanha da fruta tem sempre momentos de boa camaradagem e divertimento.

Processo da fruta até à embalagem

Após ser apanhada a pera é encaminhada para o Centro de Produção e Comercialização Hortofrutícola (CPF), onde chega em caixas de plástico.

Esta associação de produtores, criada em 1997, conta com a participação de 14 sócios que pertencem ao concelho do Bombarral. Em média recebe 10 mil toneladas de fruta por ano, das quais noventa e cinco por cento da produção é pera rocha.

A central é composta por 32 câmaras frigoríficas, das quais 20 são de atmosfera controlada e 12 de atmosfera normal, com a capacidade de armazenamento de 7.500 toneladas de fruta, num área coberta de 10.500m2. Atualmente conta com uma área de produção de 300 hectares, instaladas nos concelhos de Alcobaça, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Torres Vedras e Mafra.

De acordo com o engenheiro da CPF, Filipe Silva, a fruta “chega nos palotes e é mergulhada em água para ser lavada. Posteriormente passa pelo calibrador, onde é medida e separada por calibre, seguindo depois para as câmaras frigoríficas”. Segue para a sala do embalamento onde os trabalhadores vão escolhendo e embalando o produto, consoante as encomendas. Depois de embalada, a fruta segue para o cais das descargas.

A central fruteira está dividia em três espaços, a zona das câmaras frigoríficas, embalamento/ calibragem e abastecimento das máquinas/ arrumação.

“Normalmente temos a típica colheita em agosto e por esta, altura já devíamos ter terminado a colheita”, explicou o engenheiro, sublinhado que este ano começámos a “apanha tardia” e ainda por cima “ temos esta doença que está aumentar na nossa região, que já o ano passado penalizou a produção e este ano vamos ter uma quebra semelhante”.

Em termos de qualidade, a fruta tem “uma epiderme muito lisa, com pouca carepa e açúcares altos”, provocando um “curva de calibre mais pequena que os anos anteriores”, traduzindo em menos toneladas na região.

“Prevemos um ano de pouca quantidade, de frutos pequenos mas com bastante qualidade”, sublinhou.

E se à C.P.F. cabe a tarefa de produzir, por outro lado a LusoPêra é o rosto da pera rocha do Oeste em todo o mundo, principalmente 95% para o Brasil. No entanto, a “produção tende a aumentar substancialmente, e por isso temos a obrigação de procurar outras geografias como o México, Colômbia e Perú para poder escoar o produto”.

O aumento contínuo da exportação para o Brasil, deu origem a outra empresa especializada em comercialização e exportação – a LusoPêra, no ano de 2001. Exporta a chamada Aurora, que é “uma pera rocha nascida e criada nos pomares da região do Oeste, colhida à mão, e onde é considerada um produto ‘premium’, rainha no meio de todas as frutas”. Além disso, “é uma marca bastante conhecida e que os clientes pedem pelo nome, naquele país”. Com um “embalamento, calibre e com um preço diferente das restantes peras”.

Mariana Martinho

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